Algumas sugestões acerca do assassinato de Bin Laden e as políticas da administração Obama

Na sequência de uma interessante discussão no moral do Pedro Pereira no facebook, tertúlia essa que gerou um avultado número de comentários, achei relevante expor a minha opinião acerca do tema em questão: o assassinato de Osama Bin Laden por forças militares norte-americanas, as consequências e possíveis represálias que tal ocorrência poderá motivar e o papel do Presidente dos EUA nesta questão polémica e delicada. Enfim, publiquei um comentário no qual expressava as minha posições, sintetizando um pouco as conclusões a meu ver brilhantes que tinham sido alcançadas. Deixo agora o meu comentário aqui no blogue, para que possa transmitir o que penso acerca do assunto a um número mais alargado de leitores. A discussão gerada no facebook pode ser lida integralmente aqui.

Em primeiro lugar, concordo com quem afirma que o assassinato de Osama Bin Laden representa uma violação dos direitos humanos e uma forma de réplica baseada no mesmo princípio subjacente à estruturação do terrorismo.

Enquanto política anti-terrorista deixa realmente muito a desejar, pois Bin Laden era acima de tudo um símbolo do movimento extremista islâmico. A morte do seu líder espiritual deverá semear a ira nos activistas da Al-Qaeda, que, feridos no seu orgulho fundamentalista, decerto se tentarão desforrar dos norte-americanos e da sociedade ocidental que tanto repudiam… Quanto a Portugal estar incluído nos potenciais países afectados por ataques terroristas, julgo que, pelo menos a curto prazo, não corremos esse risco, dada a nossa reduzida preponderância política e económica no ocidente. Porém, mesmo cingindo-nos a uma lógica egoísta, existem inúmeras razões para encararmos com muita seriedade esta situação (um atentado num dado país do ocidente não deixaria de produzir repercussões mais ou menos acentuadas nas diversas nações europeias).

Quanto à atribuição do prémio Nobel da Paz a Obama, aí sim, gostaria de me manifestar mais alongadamente… Penso que existem muitos factores a ter em conta e devemos ser prudentes na análise da questão. Afinal, a contestação à atribuição surgiu imediatamente após a revelação do vencedor, dado que por toda a parte se ergueram vozes contra a atribuição do prémio a um chefe de estado que acabara de reforçar o contingente norte-americano no Afeganistão, ao passo que outras personalidades se teriam destacado mais vivamente em nome dos valores pacifistas. Relativamente à morte de Bin Laden, tratou-se, decerto, de uma acção deliberada da parte do exército norte-americano, que terá indubitavelmente envolvido um trabalho moroso de planificação da missão e, a meu ver, o consentimento de Obama, que terá conhecimento das manobras conduzidas pelas milícias norte-americanas no Oriente… De facto, se assim for, estamos perante um Nobel da Paz que pactua com a filosofia do “olho por olho”, não existindo desculpa possível. 

Porém, Obama não governa sozinho, sendo decerto influenciado por inúmeros parceiros governamentais, outros órgãos de poder, políticos de ideias divergentes (aqui temo pela fogosidade (pseudo)patriótica dos republicanos), um sistema capitalista complexo (do qual pouco entendo, mas que acredito que possa influenciar as decisões políticas) e um povo, cuja vontade também tem algum peso… E, relativamente aos cidadãos, não nos esqueçamos da verdadeira finalidade de Obama, oculta por detrás de um eventual desejo de “devolver o orgulho aos norte-americanos”: a crescente proximidade das eleições presidenciais nos EUA, que não se afiguram fáceis para Obama, considerando os maus resultados dos democratas nas eleições legislativas (ainda que se tratem de votações bem distintas, julgo existir uma correlação da qual se poderão retirar algumas conclusões) e a perda de popularidade de Obama em tempos recentes… Talvez a administração Obama tenha actuado no sentido de acelerar as buscas de Bin Laden, autorizando os agentes da missão a usar a força necessária, antevendo um cenário de prosperidade eleitora… 

Não sei se foram muito rebuscadas, ou simplesmente descontextualizadas estas hipóteses. De qualquer modo, são tantas as explicações que podemos conceber neste momento (altamente propício a teorias da conspiração), que nem sei no que pensar!

Os Lusíadas: um Poema e um Museu

Segundo a tese apresentada, Os Lusíadas transcendem largamente as dimensões de um poema vulgar. São uma obra colossal da literatura portuguesa, funcionando igualmente como registo da grandeza da Pátria que os portugueses lograram erigir. A sua dualidade exprime-se através da magnificência nacional e da genialidade do poeta que eximiamente a revelou ao mundo, relatando feitos verídicos de autoria lusitana. O autor defende, portanto, a elevação d’ Os Lusíadas ao duplo estatuto de poema e museu, face à grandeza camoniana de conjugar factos reais numa glorificação apoteótica do povo português.

N’ Os Lusíadas, sobressaem a riqueza literária de um poema épico colossal e o seu enorme valor enquanto fonte documental da glória portuguesa do passado. São indubitáveis «o engenho e arte» que Camões incutiu nesta obra, transformando-a num ícone da literatura nacional, enquanto registava «As obras portuguesas singulares», para que fossem reconhecidas pelo seu heroísmo. Contudo, o poeta não se limitou a demonstrar a glória inerente aos eventos mais resplandecentes da viagem e da História portuguesa: Camões almejava uma difusão universal da grandeza lusíada («Cantando espalharei por toda a parte»), visando a superação dos modelos clássicos («Julgas agora, Rei, se houve no mundo / Gentes que tais caminhos cometessem?») e a ascensão de Portugal a um estatuto supremo («Que outro valor mais alto se alevanta!»). Consequentemente, Camões imortalizou os feitos portugueses, materializando o seu amor à Pátria numa epopeia representativa da identidade nacional.

Camões operou também uma restrição do universo épico aos feitos reais dos portugueses, que os heróis nacionais efectivamente praticaram («obras tão dignas de memória»), ficcionando apenas a intervenção dos deuses clássicos, alegórica («Só pera fazer versos deleitosos / Servimos»), e pequenos episódios estilisticamente criados pelo poeta para engrandecer a glória portuguesa, alicerçados em factos verdadeiros. Não obstante, Camões deseja que os extraordinários feitos reais dos portugueses superem as acções fictícias dos heróis clássicos («As verdadeiras, vossas, são tamanhas / Que excedem as sonhadas, fabulosas»). Assim, escrever uma epopeia da grandiosidade das epopeias clássicas sem ficcionar significativamente constitui uma prova da genialidade camoniana e da glorificação prodigiosa dos portugueses na obra.

Concluindo, Os Lusíadas são uma epopeia que engrandece Portugal duplamente: pela magnificência literária da obra e pela forma extraordinária como dignificam cada feito da História de Portugal. Poema paradigmático da literatura portuguesa, Os Lusíadas revelam ao mundo a honra gloriosa encerrada no «peito ilustre lusitano». Nos seus versos, simultaneamente verdadeiros e transcendentes, perpassa um sentimento patriótico que vivifica a alma lusíada!

Elementos da Tragédia Clássica na transmissão da mensagem sociopolítica de «Felizmente há Luar!»

A defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tragédia. Como consequência, a prisão dos conspiradores provocará o sofrimento (pathos) das personagens e despertará a compaixão do espectador.

Segundo a tese acima apresentada, «Felizmente há Luar» inclui elementos estruturais da tragédia clássica, sendo o desafio representado pela apologia da liberdade e da justiça, dada a ousadia patente nesta luta. Considera igualmente que o encarceramento dos revoltosos motiva o sofrimento nas personagens, gerando compaixão no espectador. Assim, o juízo crítico apresentado enquadra a peça na tragédia clássica, apontando o combate por liberdade e justiça como a hybris e entrevendo o pathos nas emoções despoletadas pela prisão dos conspiradores.

Inquestionavelmente, a batalha em prol dos valores liberais está presente na totalidade da obra. Inicialmente, as informações fornecidas pelos populares sugerem uma imagem de Gomes Freire como «um amigo do povo», disposto a lutar contra o sistema sociopolítico vigente, («capaz de se bater com os senhores do Rossio…»). Todavia, tal propósito não se compatibiliza com os interesses dos membros da Junta Governativa («que honras, que posições seriam as nossas, se ao povo fosse dado escolher os seus chefes?»). Assim, os regentes desenvolvem uma feroz oposição aos seus intentos liberais, implementando medidas que visam a prisão daquele «que mais nos convém que tenha sido o chefe da conjura», pois «Em política, quem não é por nós, é contra nós». A luta por liberdade e justiça representa, por conseguinte, o desafio subjacente a esta peça.

Consequentemente, a improbidade patente no encarceramento e condenação do general gera um sofrimento acentuado nas personagens, nomeadamente em Matilde, sua esposa, que empreende esforços infatigáveis no salvamento do marido («troco a minha vida pela dele!»), manifestando constantemente as suas perturbações emocionais («O meu homem!»). Progressivamente, Matilde toma consciência da dimensão do problema, rebelando-se em prantos desesperados, desejando, ironicamente, que o general «tivesse sido menos homem». Os apelos à consciência social do espectador mantêm-se presentes nas suas palavras, rogando-lhes que «Limpem os olhos ao clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!». Indubitavelmente, a comoção apodera-se do espectador, propiciando a recepção da mensagem presente.

Sumariando, em «Felizmente há luar», a defesa dos valores liberais e os obstáculos que se lhe interpõem constituem a hybris, estando o pathos presente no sofrimento causado pela condenação dos seus apologistas. Efectivamente, o desenvolvimento da peça com base numa interligação com os moldes de concepção da tragédia clássica (exposição contínua das questões suscitadas pela hybris, aliada a uma exploração eficaz do pathos) potencia o acolhimento dos valores da liberdade e da justiça, operando uma sublimação da luta correspondente.

Redução da duração das aulas para 60 minutos? Globalmente discordo.

Na sequência da intensa (mas globalmente convergente) discussão que se travou nesta postagem do Pedro Pereira no facebook, acerca de uma eventual medida no sentido de reduzir a duração das aulas escolares para 60 minutos, publico o meu “sucinto” comentário, com algumas (ligeiras) adaptações. De salientar que, de um modo geral, não sou grande adepto da proposta, embora considere bastante pertinente o seu debate no contexto do ensino básico.

Entre a chuva de comentários gerada pelo assunto, maioritariamente favoráveis à redução do tempo de aula, encontrei diversos argumentos devidamente fundamentados que preconizavam a duração de 60 minutos. Os principais motivos apresentados pelos defensores da medida prendem-se com a diminuição progressiva da concentração dos estudantes na última meia hora de aula e a consequente quebra de rendimento ao fim dos primeiros 60 minutos, eventualmente associados a uma dificuldade na manutenção da ordem no interior da sala de aula por parte dos docentes. Pela minha experiência pessoal, quer individualmente quer pela interacção diária com colegas sujeitos exactamente aos mesmos horários, estou ciente da validade destes argumentos, não questionando a sua veracidade e pertinência. Porém, existem outras variáveis a ter em conta, que passarei a enunciar, explicitando-os convenientemente.

Em primeiro lugar, admitindo a tendência dos estudantes para o desinteresse face à matéria leccionada na parte final da aula, proponho que nos debrucemos mais profundamente sobre o assunto. Será este um problema verificado exclusivamente nos minutos finais da aula? Penso que não, uma vez que o estado de tédio e desatenção dos alunos em relação à aula se inicia, muitas vezes, poucos instantes após o seu início. De salientar que não quero, com isto, acusar os alunos de uma atitude deliberadamente incorrecta na sala de aula, dado que me limito a constatar um facto, sem pretender atribuir a sua responsabilidade aos estudantes ou respectivos professores. Em todo o caso, confirmando-se a minha hipótese (e mais uma vez invoco a minha experiência pessoal como fonte de suporte), a redução da duração da aula não seria a melhor solução a considerar, devendo antes ser ponderada uma modificação da estratégia de condução da aula, empreendidas por parte dos próprios docentes, que se seriam responsávies pela adaptação das suas aulas a esta tendência estudantil, tendo em conta as características peculiares de cada turma e disciplina.

Adicionalmente, julgo que a redução do tempo de aula coloca outras questões dignas de serem equacionadas cautelosamente, tais como o tempo concedido à realização dos testes ou a necessidade de aumentar a frequência das discplinas ao longo da semana, a fim de possibilitar o cumprimento dos programas escolares. Relativamente aos momentos de avaliação sumativa, defendo que os 90 minutos são indispensáveis à resolução de um teste bem estruturado, passível de avaliar efectivamente as competências cognitivas dos alunos, ao passo que uma prova destinada a ser resolvida em 60 minutos, apesar de possível em determinados contextos e disciplinas, não possibilita uma avaliação tão abrangente e profunda dos conteúdos abordados em aula. Finalmente, tendo em conta a necessidade, amplamente reconhecida, de esbater as diferenças registadas entre o ensino secundário e o meio académico, bem como a longa duração das aulas do ensino superior, considero pertinente a sujeição dos alunos do secundário a aulas mais longas, que lhes permitam realmente uma preparação  apropriada para os intermináveis brainstormings que os esperam nas universidades portuguesas.

Por fim, gostaria de alertar as consciências para outro factor relevante, associado à vasta extensão dos programas letivos de grande parte das disciplinas escolares. Todos nós, alunos so ensino secundário, temos consciência das dificuldades frequentemente sentidas pelos docentes na leccionação de todos os conteúdos integrados nos programas específicos, muitas vezes quase incompatíveis com o número de horas semanais dedicados à disciplina. Assim, a redução da duração das aulas teria de envolver um aumento da frequência semanal das aulas de cada disciplina, a fim de potenciar o cumprimento dos vastos programas das disciplinas, o que não seria necessariamente mau (poderia inclusivamente incitar os alunos a um estudo periódico das matérias aprendidas diariamente, criando hábitos de trabalho positivos).

Todavia, esta medida teria implicações potencialmente gravosas, visto que acarretaria um incremento do número de aulas de disciplinas diferentes num dia, envolvendo uma maior dificuldade dos alunos na captação das informações transmitidas nas aulas de disciplinas distintas, por bombardeamento de conteúdos dissociados uns dos outros. Explorando a questão da frequência semanal de cada disciplina, regressando à comparação com o contexto universitário, verificamos que os estudantes só terão a ganhar em termos de adaptação ao meio académico como a manutenção de 2 ou 3 aulas semanais da mesma área discplinar.

Ainda assim, apesar de me opor, em traços gerais, à implementação desta medida ao nível do ensino secundário, concordarei com uma reflexão cuidadosa e coerente acerca da possibilidade de ser instituída em termos de ensino básico, tendo em conta a maior distância deste nível de escolaridade face à realidade do ensino secundário, a maior tendência para a desconcentração e indiferença registada entre os alunos destas idades e o (parcialmente) consequente estado selvático de muitas aulas do ensino básico em que a brandura ou perda de autoridade por parte dos professores destranca as portas do desrespeito e da impunidade. Reitero a necessidade de uma ponderação adequada a propósito de eventuais medidas neste sentido, tendo em linha de consideração os riscos delicados que uma decisão precipitada poderia envolver a um nível de ensino verdadeiramente estruturante da formação escolar do indivíduo.

Concluindo, manifesto a minha (quase) total discordância face ao fim das aulas de 90 minutos no ensino secundário, que considero desajustada das necessidades de aprendizagem dos alunos a este nível de ensino e da importância de uma transição graual para o meio universitário, admitindo a pertinência de uma potencial redução da duração das aulas para 60 minutos no plano do ensino básico, qualitativamente diferente. Subscreva-se ou não a minha perspectiva, julgo conveniente realçar a pertinência da discussão e faço um apelo a que alguns dos argumentos por mim aqui referidos sejam tidos em conta.

Os Lusíadas: O valor das honras e das glórias conquistadas por mérito próprio (Excurso do Poeta situado no Canto VI)

Depois de muito sofrer e muito penar durante o período carnavalesco, apresento aos meus leitores ocasionais o produto do intenso trabalho de reflexão (e síntese) a que procedi recentemente. Os Lusíadas, esse incrível edifício literário que foi obra de um português! Mas quando os estudantes do ensino secundário são incumbidos da difícil missão de escrever sobre a epopeia camoniana, tudo assume contornos mais agrestes!

Sucintamente, digamos que a dissertação inicial continha 861 palavras, correspondendo a redução deste número para as 600 permitidas (pelo limite estabelecido pelas forças opressoras) a um esforço indómito, passível de me coroar com as maiores honras celestes (e como o meu apelido é Coroado, tudo isto faz sentido).

Bem, sem mais demoras, apresento o texto aos potenciais interessados. Trata-se de uma dissertação, desenvolvida no âmbito da disciplina de Português, acerca de uma passagem d’ Os Lusíadas, nomeadamente, o excurso do poeta situado no Canto VI, correspondendo às estâncias 95-99. Nestes versos inspirados, Luís de Camões reflecte sobre o valor das honras e das glórias conquistadas por mérito próprio, de um modo peculiar, que passarei a descrever:

Em Os Lusíadas, Camões procede a uma apologia do heroísmo português, exaltando a grandiosidade dos feitos lusitanos, especialmente aquando da viagem de Vasco da Gama à Índia. O seu patriotismo transfigura a gente lusíada, mitificando-a. O momento da chegada a Calecute, particularmente, representa a capacidade portuguesa de suportar inúmeros tormentos e transpor quaisquer obstáculos por uma missão patriótica, conquistando glória e imortalidade por mérito próprio. Assim sendo, Camões decide reflectir acerca do valor de tais honras, contemplando a atitude heróica subjacente, distinguindo-a das restantes condutas.

Para Camões, o sofrimento e a superação de perigos são imprescindíveis na busca da glória, intangível para os que se refugiarem nas honras conquistadas pelos seus antepassados, bem como aqueles que viverem na ociosidade, no luxo dos prazeres sem contrariedades ou na inércia do comodismo. Os perigos e medos desafiam os homens, coagindo-os a trabalhar arduamente para vencer as adversidades, podendo alcançar a honra «Por meio destes hórridos perigos, / Destes trabalhos graves e temores». Pelo contrário, a atitude saudosista daqueles que se regozijam à luz da herança gloriosa dos seus predecessores, não conduzirá às almejadas honras («Não encostados sempre nos antigos troncos nobres / dos seus antecessores»). Paralelamente, os requintes gustativos («Não c’os manjares novos e exquisitos»), as expressões da preguiça («Não c’os passeios moles e ouciosos») e a satisfação de infindáveis prazeres («Não c’os vários deleites e infinitos») estiolam a virilidade, obstando à conquista da honra. Assim, os desejos sem oposição, alimentados pela sorte, impedem «que o passo mude / Pera algũa obra heróica de virtude».

A honra não pode ser senão o fruto de um esforço indómito, que envolva sofrimento inquantificável e luta incessante face às dificuldades, associados a uma placidez na confrontação com o perigo, configurando uma atitude virtuosa do indivíduo, passível de gerar uma honra genuína que lhe atribui um estatuto superior. A glória tem de ser procurada arduamente através esforço pessoal («Mas com buscar, c’o seu forçoso braço, / As honras que ele chame próprias suas»). Todavia, essa via revela-se tortuosa, implicando sacrifícios colossais e um sofrimento atroz, vencido graças ao esforço heróico. Suportar as tormentas do oceano («Sofrendo tempestades e honras cruas»), superar os frios meridionais («Vencendo os torpes frios no regaço / Do Sul») e ingerir alimentos deteriorados («Engolindo o corrupto mantimento») são comportamentos propiciadores da honra, quando acompanhados duma valentia estóica, que permita manter frieza e ânimo face aos maiores perigos («E com forçar o rosto, que se enfia, / A parecer seguro, ledo, inteiro»). Tal atitude guerreira conduz à construção da verdadeira honra, nascida da virtude («Desta arte o peito um calo honroso cria»), contrastante com honrarias e dinheiro obtidos fortuitamente. A glória conquistada pelo guerreiro sofredor confere-lhe uma sabedoria serena, que o coloca em «alto assento» e o distingue do «baixo trato humano embaraçado», ascendendo a «ilustre mando» por mérito próprio e não por concessão de favores, aceitando o poder por patriotismo, mesmo «contra vontade sua».

Resumindo, Camões dissocia a honra do saudosismo, da ociosidade e do luxo, defendendo o esforço pessoal, a luta contra o sofrimento e a superação dos medos e perigos como único caminho seguro para a glória. Quem assim agir alcançará as honras da virtude, distintas das oferecidas pela sorte, e logrará uma demarcação moral e intelectual face aos homens. Aplaudo a perspectiva camoniana, subscrevendo a construção da honra pela acção humana. Hoje, no combate ao capitalismo corrupto, somos responsáveis por honrar quem edifica algo de valor, lutando contra adversidades, por dedicação a causas nobres.

O Desporto

O desporto moderno é uma combinação de ciência, destreza, dedicação e esforço total. A prática desportiva regular constitui um factor indispensável na manutenção, protecção e melhoria da saúde. Para ser eficaz, não precisa de ser esgotante ou dolorosa, mas sim regular, adaptada à idade, à condição física, bem como às características e limitações de cada indivíduo, aliando a todos estes factores o convívio, que permite ampliar os benefícios do movimento, com reflexos evidentes na saúde.

A tese relaciona a competição desportiva actual com agilidade, ciência e empenho. Considera também a actividade física um requisito fundamental para ser saudável, defendendo uma adequação da actividade física ao contexto individual. Finalmente, o autor admite a preponderância da vertente afectiva. Todavia, penso que certas componentes do desporto, como o prazer ou a dimensão sócio-política não foram devidamente exploradas pelo autor, pelo que tenciono relacionar a prática desportiva com estes elementos.

Praticar desporto potencia a expulsão das energias negativas e a expressão individual, levando a um prazer. A actividade desportiva propicia a satisfação dos instintos competitivos do homem, transferindo essas inclinações para a luta da superação dos outros ou de si. Tal exteriorização conduz à libertação espiritual, gerando harmonia interior: o indivíduo exprime-se emocionalmente, alcançando um prazer momentâneo. Assim, Broun Heywood conecta o desporto à expressão das emoções, associando-a à manifestação do carácter: “Os desportos não constroem o carácter. Revelam-no.”.

Adicionalmente, o desporto constitui um elo de ligação entre os homens, incitando amizades e funcionando como meio de comunicação. Estimulando a cooperação, os desportos aproximam os intervenientes, que poderão estabelecer amizades. Além disso, o desporto facilita a interacção entre indivíduos de contextos socioculturais distintos, ou de origens distintas. O desporto pode, inclusivamente, aproximar países em tensão política, como aconteceu na troca de presentes entre os capitães das selecções norte-americana e iraniana, que precedeu uma partida do mundial de futebol de praia 2007, simbolizando paz. Assim, Jean Giraudoux afirma que “O desporto é o Esperanto das raças”, referindo-se ao desporto como meio de comunicação universal.

Sumariando, o desporto corresponde a momentos de expansão do indivíduo que lhe proporcionam prazer e contribuem para uma vida equilibrada. Igualmente notável é a união que o desporto pode produzir nos seres humanos, ultrapassando barreiras sociais e políticas. O desporto apresenta, assim, inúmeros benefícios dignos de menção.

Manuel Alegre fez uma boa campanha. Cavaco leva uma vantagem desconfortável para as eleições. A segunda volta é ainda uma possibilidade. Não se abstenham!

Na sequência deste comentário do meu estimado colega Francisco Barão Dias a este artigo de opinião, resolvi proceder a uma retrospectiva da campanha eleitoral de Manuel Alegre e divulgar as minhas previsões para as Presidenciais 2011, deixando a minha perspectiva pessoal bem patente. Confesso que inicialmente não pretendia desenvolver exaustivamente o assunto, mas acabei por fazê-lo dada a sua relevância e o meu entusiasmo enquanto escrevia.

A Campanha Eleitoral de Manuel Alegre

Na minha perspectiva, Manuel Alegre fez uma boa campanha. Contrariando alguns dos meus receios, soube conter convenientemente a sua iminente sede de poder, colocando as prioridades do país sempre à frente dos seus interesses pessoais. Acerca do seu discurso, penso que se pronunciou com clareza e coerência (o que é fundamental) sobre os assuntos mais relevantes no actual contexto socioeconómico e político, deixando as suas posições bem esclarecidas e mostrando que reúne todo um conjunto de condições de importância capital para o cargo de Presidente da República.

São exemplos disso a frontalidade com que defendeu o Estado Social, deixando patente a forma convicta como defende o apoio do Estado à saúde e à educação (mostrou-se disposto a bater-se pela gratuitidade do SNS e do Ensino Público) e a importância de uma participação activa do Presidente da República na política externa portuguesa, fazendo uso dos poderes do cargo para dialogar com o exterior e intervir na estruturação das relações e nos negócios entre os países (algo em que Cavaco Silva se notabilizou pelo silêncio e pela inactividade).

A Postura de Manuel Alegre face aos casos em que Cavaco Silva esteve envolvido

Sei que, quando o Francisco fala de contra-campanha, se referes a um conjunto de argumentos ad hominem de que não só Alegre, mas também todos os outros candidatos (incluindo Cavaco Silva) se socorreram durante esta campanha. Não o nego e concordarei inteiramente com quem afirmar que esse tipo de estratégias, independentemente de poderem resultar e de suscitarem questões relevantes, não contribuem em nada para o enobrecimento da campanha. Ainda assim, gostaria de notar aqui dois aspectos importantes:

1) O caso BPN e outros assuntos passíveis de atentar contra a credibilidade do actual Presidente da República, Cavaco Silva, foram trazidos a esta campanha eleitoral por outros candidatos (Francisco Lopes, Defensor Moura), sendo particularmente salientados durante os debates entre Cavaco e estes candidatos. Por outro lado, é preciso saber distinguir a forma como os apoiantes de Manuel Alegre, independentemente atacaram o carácter Cavaco Silva, e aquilo que o próprio Manuel Alegre disse acerca do assunto.

2) O modo como Alegre encarou estes ataques à personalidade de Cavaco foi, a meu ver, exemplar, dado que soube gerir convenientemente a situação, com prudência e responsabilidade. Nos debates e entrevistas, Alegre não se servia destas polémicas para desenvolver a sua argumentação, discutindo esses assuntos apenas quando questionado acerca deles. Para além disso, não ouvimos Manuel Alegre a dirigir acusações a Cavaco Silva, mas simplesmente a enunciar factos concretos que despertavam suspeitas acerca do Presidente da República, limitando-se a pedir esclarecimentos a Cavaco Silva. De resto, o próprio Manuel Alegre, aquando da entrevista com Judite de Sousa, disse muito claramente que lamentava ver a quase totalidade do tempo de antena dedicado a questões de segundo plano (todas estas manobras de bastidores).

Uma Campanha Frontal, Responsável e Convincente

Assim, penso que a campanha de Manuel Alegre decorreu de forma favorável ao candidato, que se expressou se uma forma inteligente e convincente, deixando bem claros os motivos pelos quais a sua eleição seria positiva para o país e gerindo adequadamente as polémicas que marcaram a campanha (incluindo aquelas das quais Manuel Alegre foi alvo e que rapidamente se viriam a revelar ridículas, desmistificadas com frontalidade e sinceridade pelo próprio).

A campanha não foi perfeita, como é óbvio, e admito que se tenham cometido alguns erros estratégicos. No entanto, não os considero graves, sobretudo porque não encontramos fragilidade na forma como explorou a realidade nacional e definiu as prioridades do seu mandato, nem descobrimos atitudes ilícitas/imorais no modo como se relacionou com os outros candidatos e procurou ganhar popularidade em relação aos seus adversários.

O conservadorismo, o chantagismo e a contrariedade de Cavaco Silva

Por seu turno, Cavaco demonstrou de forma inequívoca o seu conservadorismo, patente na forma como encara a sociedade, a futilidade dos seus conhecimentos em economia (no decurso da sua estratégia de vitimização transmitiu uma imagem de impotência face à crise económica que não se coaduna com o seu estatuto académico na área) e acentuou as suspeitas que contra ele se levantaram, dado que nunca se pronunciou de forma explícita de directa acerca daquilo que verdadeiramente aconteceu, quer no caso BPN quer nos negócios de casas no Algarve.

Já no final da campanha, falaciosamente, Cavaco recorreu a argumentos chantagistas que visam a sua eleição à primeira volta e o tornam um candidato muito contraditório (destacou o dinheiro que o Estado pouparia no caso de não se realizar uma segunda volta das eleições presidenciais, ainda que a sua campanha tenha sido a mais dispendiosa de todas).

Antevisão das Eleições Presidenciais

Em jeito de balanço, fazendo a antevisão dos resultados da eleições, tenho de admitir que, à partida, Cavaco Silva vencerá as presidenciais à primeira volta, sendo reeleito para o cargo com uma percentagem de votos ligeiramente superior a 50% (sem atingir os 58%), ficando Alegre no 2º lugar com uma percentagem compreendida entre 23% e 30% (sensivelmente).

No entanto, as últimas sondagens revelam uma descida de 7% nas intenções de voto em Cavaco Silva, que se situa agora nos 55%, enquanto Manuel Alegre se mantém aproximadamente constante, algures nos 25% ou 28% (as sondagens divergem bastante, como sabemos). Além disso, é sabido que, nas eleições presidenciais de 2006, não se realizou uma segunda volta por apenas algumas décimas, quando as sondagens à boca das urnas davam a vitória a Cavaco com 60% dos votos. Algo semelhante aconteceu em 2001, quando as sondagens concediam 64% a Jorge Sampaio, que viria a ser reeleito com apenas 55% dos votos dos portugueses (confirmem no quadro que vos apresento aqui em baixo).

Nesse sentido, acredito plenamente na realização de uma segunda volta. Acho bastante verosímil que a percentagem de votos de Cavaco Silva se situe entre os 48% e os 52%, ficando Manuel Alegre algures nos 30%, com Fernando Nobre ultrapassando os 10% ou 12% e os outros 3 candidatos, juntos, perfazendo também cerca de 10%. Tudo isto são especulações, mas parece-me que a segunda volta surge claramente como uma possibilidade em aberto.

Balanço Final: Os Resultados, as Circunstâncias, o Desempenho de Alegre e Imagem de Cavaco

Em suma, penso que a boa campanha de Alegre, mas sobretudo a postura desastrosa de Cavaco Silva, não passarão incólumes. Se o actual PR será reeleito? É provável. No entanto, há que destacar o bom trabalho de Manuel Alegre, cujo desempenho nesta campanha superou as minhas expectativas.

A divisão da esquerda, o sorriso falso e muito enganador de Cavaco, a ideia errónea de que precisamos de Cavaco como garantia da estabilidade governativa (os seus tabus e meias palavras são uma ameaça a esse conceito de estabilidade governativa) e a dificuldade em lidar com a mudança manifestada pelas massas populacionais criaram um ambiente hostil para a candidatura de Manuel Alegre. Todavia, ele a sua equipa de campanha tiveram a sagacidade necessária para inverter esta tendência e transformar as eleições presidenciais num acontecimento político desconfortável para Cavaco Silva, cuja irritação e rancor denunciaram o indivíduo repudiável que se esconde por detrás da máscara.

Mas ainda é possível uma segunda volta! Tudo depende daquilo que os portugueses decidirem amanhã… E espero que os meus compatriotas exerçam o seu direito de voto conscientemente, cientes de que na política não existem inevitáveis e das verdadeiras competências de cada um dos candidatos elegíveis.