O russo que sabia guardar segredos

Saudações a todos os visitantes deste blogue! A frequência dos posts é cada vez menor e são os conteúdos antigos aqueles que ainda vão conferindo algum estatuto a este modesto espaço pessoal online. Porém, o Segundo Andrey Amabov continua aqui, para todos os que tiverem interesse em consultar o seu arquivo, bem como algumas novidades que poderão surgir esporadicamente.

Hoje, inesperadamente, decidi adicionar ao blogue uma pequena novidade. Nada de especial, na verdade: apenas uma curta e desinteressante narrativa de ficção que se começou a desenrolar no meu cérebro, na qual eu reconheci o potencial necessário para ascender ao estatuto de post mais descontextualizado de sempre, destronando posts como este.

Passo, pois, ao texto em si.

O RUSSO QUE SABIA GUARDAR SEGREDOS

Yuri Tabhitryi, ilustre detective moscovita, fora destacado pela polícia russa para mais uma importante missão. Distinguido internacionalmente com as insígnias douradas da SAGA (Secret Agents Global Association), manifestava incríveis aptidões no âmbito da investigação criminal, dotado de um poder dedutivo sem precedentes e da atitude enérgica, mas discreta, que um detective secreto deve demonstrar. Assim, Yuri Tabhitryi não se surpreendera ao saber que os serviços russos de investigação criminal o haviam nomeado para o caso Dinara Betpodlyi.

Conveniente seria talvez explicar quem era Dinara Betpodlyi e em que consistia concretamente o caso atribuído a Yuri Tabhitryi. Sucintamente, digamos que se tratava do roubo do maior diamante jamais encontrado em jazigos terrestres, propriedade da mais mediática estrela pop que a Rússia alguma vez conhecera. Graças a uma colossal manobra de ocultação de informação, o crime permanece longe das demolidoras páginas da imprensa da cidade, sendo a privacidade de Dinara Betpodlyi salvaguardada e o trabalho dos investigadores livre de obstruções jornalísticas.

A avultada recompensa oferecida pela cantora em troca do seu diamante seria prémio apetecível para qualquer detective. Porém, para Yuri Tabhitryi, a defesa da honra e o desejo de justiça são os factores que mais o movem. Deste modo, ainda que os indícios escasseassem e a forma como o crime fora conduzido se aproximasse da perfeição, Yuri Tabhitryi desenvolveu uma brilhante investigação, solidamente alicerçada na infalibilidade dos seus métodos, aqui não descritos, que o guiou ao culpado num espaço de tempo inferior a uma semana: Dmitri Sozsmelyi.

Exactamente. Dmitri Sozsmelyi, o insaciável assaltante, indómito aventureiro, de uma tão grande astúcia que nunca se deixara capturar pela justiça. Homem pacífico, declaradamente contra a violência das armas de fogo, impressionava pela proeza inaudita que constava do seu infindável currículo: nunca matara, ferira ou agredira as suas vítimas. Tal humanismo, associado ao calculismo meticuloso com que planeava cada crime, faziam de Dmitri Sozsmelyi uma presa difícil, raramente deixando pistas, jamais deixando provas.

Sucede também que Dmitri Sozsmelyi, durante as longas temporadas de férias que ele mesmo agendava, gostava de dispensar algum tempo e dinheiro (sendo certo que dispunha de ambos em abundância) aos jogos de sorte e azar dos casinos de Moscovo. Cliente habitual dos estabelecimentos, onde se comportava impecavelmente, cavalheiresco nos modos e nos negócios, costumava frequentar diariamente as maiores casas de apostas da capital, durante os 2 ou 3 meses que se seguiam a um grande assalto.

Não sendo excepção o roubo do diamante de Dinara Betpodlyi, a descoberta do paradeiro nocturno do singular Dmitri Sozsmelyi não ofereceu quaisquer dificuldades ao metódico Yuri Tabhitryi, que facilmente se inteirou de todas as pisadas do seu alvo. Pragmático e realista, sabia que a única maneira de reunir provas concludentes contra Dmitri Sozsmelyi seria levar o astuto ladrão a confessar o crime. Mas tal implicaria uma prodigiosa aproximação dele mesmo, Yuri Tabhitryi, ao criminoso, Dmitri Sozsmelyi, sendo forçosa a criação de uma amizade profunda entre ambos, geradora da confiança necessária à confissão.

A versatilidade de Yuri Tabhitryi nunca fora um problema. Assim, facilmente o detective montou um disfarce, incluindo um nome e toda uma identidade falsa, que anularia quaisquer possibilidades de vir a ser reconhecido. Seguidamente, começou a frequentar assiduamente os casinos moscovitas, expansivamente, numa abertura da sua falsa personalidade ao mundo, que rapidamente se tornou reconhecida por todos. Em breve, o detective tinha alcançado um tal estatuto de popularidade nas casas de jogos que todos, incluindo Dmitri Sozsmelyi, o conheciam pela sua jovialidade contagiante. Posteriormente, a presença de Yuri Tabhitryi na mesa do criminoso principiou a tornar-se um hábito, até ao dia em que se começaram a sentar lado a lado, tanto durante o jogo como ao balcão, dialogando animadamente sobre as peripécias da vida.

As duas personagens, embora com perspectivas da vida e do mundo seguramente diferentes, estabeleciam diálogos interessantes, num contexto aparentemente saudável e descontraído. Não obstante o profissionalismo de Yuri Tabhitryi tornar a tarefa muito simples, igual a tantas outras no passado, o detective sente uma harmonia verdadeira na forma como as suas conversas evoluem, chegando mesmo a questionar-se se os dois não poderiam ter sido amigos fora daquele contexto. Independentemente disso, a amizade incipiente que Dmitri Sozsmelyi parece evidenciar em relação a Yuri Tabhitryi levam o investigador a passar à fase seguinte da sua investigação, inquirindo o “amigo” acerca de pormenores autobiográficos, expondo, por sua vez, uma panóplia de histórias sobre si mesmo.

Naturalmente que não o surpreendeu o facto de Dmitri Sozsmelyi omitir o seu vasto historial de patifarias. Porém, no decorrer das inúmeras conversas que os dois haviam levado a cabo, muito se espantara perante a naturalidade com que o seu interlocutor se expressava acerca de assuntos pessoais, transbordando segurança e serenidade espiritual quando questionado acerca das mais íntimas questões que lhe eram colocadas, independentemente da veracidade das respostas que dava. Tal atitude surpreendeu Yuri Tabhitryi, que esperava entrever no criminoso certos sinais de apreensão e desconforto, motivados pela forma inesperada como o inquiria acerca da sua vida pessoal. Decidiu, portanto, passar a uma estratégia mais ofensiva, que se lhe afigurava infalível.

Acreditando que eventuais referências a Dinara Betpodlyi pudessem despertar, por instantes, uma reacção espontânea por parte de Dmitri Sozsmelyi, o detective começou a conduzir as conversas segundo assuntos que tornavam possível uma referência contextualizada à cantora russa. Assim, a música e os fenómenos da cultura de massas foram integrando gradualmente o leque de assuntos abordados, numa evolução dos acontecimentos que privilegiava as intenções de Yuri Tabhitryi.

Assim, numa bela noite, após meia hora de discussão musical, o ilustre investigador policial recorreu discretamente ao vulto de Dinara Betpodlyi a fim de exemplificar uma perspectiva sua em relação à música pop do leste europeu. De olhos postos no ladrão de jóias desde a primeira palavra da frase, absorvendo cada traço do rosto com toda a sofreguidão que o seu poder contemplativo de detectiva lhe conferia, Yuri Tabhitryi ansiava por uma manifestação exterior de nervosismo por parte de Dmitri Sozsmelyi. Todavia, o formidável fora-da-lei permaneceu impassível, no esplendor da sua tranquilidade de alma, sem que o mais ténue indício de inquietação se desenhasse nas feições mentirosas.

Estupefacto, Yuri Tabhitryi não cria naquilo que era dado a conhecer aos seus sentidos. Não era verosímil que uma referência a Dinara Betpodlyi, o alvo da acção criminosa de tão amplo destaque no currículo do interlocutor, não suscitasse a mais leve reacção física da sua parte! Nem a contracção de um músculo facial, nem um franzir de sobrolho, nem mesmo uma dilatação das pupilas!

Desiludido, mas nunca desanimado, Yuri Tabhitryi tornou a repetir a tentativa no dia seguinte, contextualizando engenhosamente a alusão à cantora de culto, para depois proferir o nome da artista, a propósito de uma discussão sobre o historial de espectáculos de massas na Europa Oriental. A mesma atenção no modo como fitou Dmitri Sozsmelyi, a mesma neutralidade impossível por parte do extraordinário indivíduo! Frustrado acabaria por abandonar a estratégia durante uns tempos, dedicando-se à reflexão acerca de um modo mais eficaz de resolver o problema. A verdade, porém, é que, se não seria fácil extrair a verdade ao fabuloso ladrão, a descoberta da verdade por outro meio seria a mais perfeita utopia. Assim, suspirando fundo e mentalizando-se para as adversidades que teria de enfrentar no improvisado processo de extorção, deitou resolutamente as mãos à obra, determinado a arrancar a verdade a Dmitri Sozsmelyi, custasse o que custasse.

Nas semanas seguintes, Yuri Tabhitryi desenvolveu um trabalho incansável em busca da verdade oculta, que apesar de tão distante e inacessível estava tão perto! E assim, num ímpeto heróico, contendo a ansiedade interior que o minava e impelia a acusar directamente o criminoso, ia diversificando ao máximo os temas de conversa, recorrendo a figuras e situações exemplificativas com abundância, a fim de transformar os diálogos entre ambos em tertúlias sobre a actualidade, substituindo os acontecimentos de cariz pessoal que outrora haviam dominado as conversas por assuntos de tom social e cultural. No decorrer desses debates, nos quais Dmitri Sozsmelyi se envolvia com vívido interesse, Yuri Tabhitryi demonstrou arte na forma inteligente e paciente como soube inscrever pequenas referências a Dinara Betpodlyi, totalmente enquadradas no contexto da conversa, em busca da almejada reacção por parte do ladrão.

Porém, como os leitores certamente poderão prever, a insistência épica de Yuri Tabhitryi de nada lhe valeria, já que a resposta de Dmitri Sozsmelyi era invariavelmente a mesma: indiferença, uma indiferença aterradora, verdadeiramente desesperante, que levava Yuri Tabhitryi a rogar pragas em pensamento contra o seu principal suspeito. Os seus frequentes pressentimentos, indicativos de que algo poderia mudar a cada instante, enganavam-se constantemente, parecendo irreversivelmente condenados ao fracasso.

De facto, a naturalidade de Dmitri Sozsmelyi quando encarava referências a Dinara Betpodlyi era tão impressionante que o detective russo chegava mesmo a questionar se aquele seria o verdadeiro responsável pelo roubo do diamante! Racionalmente, sabia que essa hipótese não era concebível, pois as suas faculdades dedutivas diziam-lhe, com 100% de certezas, que aquele era o culpado. Porém, perante a descontracção e tranquilidade de Dmitri Sozsmelyi ao ouvir sucessivamente o nome da mulher que tão requintadamente assaltara, o investigador criminal não sabia o que havia de pensar. Além disso, não eram raras as ocasiões em que o próprio ladrão se pronunciava acerca da cantora, manifestando posições coerentes acerca do fenómeno por ela representado, com a mesma impassividade e frieza emotiva com que discutia outros assuntos.

Assim se passavam os dias, as semanas, e até os meses! Sem provas que justificassem as suas inclinações, Yuri Tabhitryi atravessava uma situação inédita na sua carreira, não pela insolvência aparente do caso, mas pelo risco, nunca antes corrido, de perder o seu honrado estatuto de detective reconhecido internacionalmente. A polícia russa exercia uma pressão cada vez mais intensa sobre o detective, para quem a ideia de um desmoronamento da imagem profissional constituía o maior pesadelo alguma vez imaginado. Os louros da SAGA, as referências honorárias nos relatórios anuais, o reconhecimento do bem prestado à humanidade… tudo isso poderia estar seriamente comprometido caso a situação não conhecesse uma evolução positiva. Parecia que um cenário muito negro se preparava para se abater sobre o ilustre investigador. E era verdade.

Foi numa sórdida manhã de neve e nevoeiro que as más notícias chegaram. A capa de um jornal diário de Moscovo anunciava entusiasticamente o roubo do diamante mais valioso do mundo à cantora Dinara Betpodlyi, que não mais voltara a actuar publicamente desde então e se recusava a prestar declarações. Intrigado, receando o pior, Yuri Tabhitryi comprou o jornal e foi folheando hesitantemente o papel reciclado das páginas secas. Uma rápida leitura na diagonal inteirou-o da situação, que justificava os seus medos e tornava real o seu pesadelo: a imprensa cor-de-rosa acabara por descobrir o sucedido, quebrando as barreiras que a política russa lhe tentava opor, e rapidamente obtivera a informação de que o detective nomeado para a resolução do caso, Yuri Tabhitryi, não apresentara quaisquer resultados concretos, provenientes da investigação.

Suspirando, o pobre detective regressou a casa, onde esperou pacientemente pela chegada do aviso de dispensa por parte dos serviços secretos russos. O despedimento era inevitável, pelo que acabaria por chegar ao final da tarde. Pouco tempo depois, os lamentos da direcção da SAGA pelo sucedido e a prescisão dos seus serviços no futuro consumavam a derrota laboral que este caso insólito lhe havia proporcionado.

A partir desse momento, o detective Yuri Tabhitryi, ilustre glória da investigação criminal da Rússia, estava morto. Restava apenas o homem cujo ofício anterior lhe concedera a quantia suficiente para terminar a sua existência de um modo tranquilo e recatado, de preferência longe da azáfama citadina de Moscovo, palco de tantos feitos no passado, mas de uma tão grande mágoa no presente. E assim, como num acto de exílio profissional, o ex-detective decidiu partir para uma povoação rural situada a 67 km de Omsk, de onde tinha raízes.

Contudo, antes de abandonar a cidade, não podia deixar de comunicar a sua partida a Dmitri Sozsmelyi, a enigmática personagem cuja excentricidade lhe havia custado o emprego e a reputação, tantas vezes seu interlocutor, na companhia do qual passara tantos serões, tantas horas da interminável noite moscovita. Tentou despedir-se pessoalmente; porém, não teve a frontalidade suficiente para o fazer, preferindo recorrer a uma carta. Pensou também em expor toda a verdade da situação a Dmitri Sozsmelyi, para que ao menos se extinguissem os segredos que cavavam um fosso entre eles; contudo, acho que seria cobarde fazê-lo por escrito, em vez de assumir a derrota frente a frente.

Assim, optou por um texto mais convencional, no qual deva a conhecer a sua partida para o campo (sem especificar o local exacto) por motivos pessoais, agradecendo os longos momentos de convívio passados em conjunto e desculpando-se pela pressa com que partia alegando urgência na sua deslocação. Redigido o documento e entregue o envelope ao moço das entregas, Yuri Tabhitryi agarrou na sua bagagem e abandonou a casa que habitara durante longos anos de investigação criminal. O comboio esperava-o, para o levar do sítio onde jamais voltaria.

Quanto a Dmitri Sozsmelyi, ao receber a carta de Yuri Tabhitryi, limitou-se a sorrir condescendentemente, com a brandura de quem desculpa as falhas de outrem. Conhecera desde o início a verdadeira identidade do detective e sempre estivera consciente das suas verdadeiras intenções. Sorrindo interiormente sempre que Yuri Tabhitryi referia o nome de Dinara Betpodlyi, estava seguro do enorme poder o seu autocontrolo sobrehumano lhe conferia, sabendo bem guardado o segredo do roubo do diamante da cantora. E assim, gozando os prazeres de mais uma conquista, Dmitri Sozsmelyi deleitou-se nos prazeres da impunidade. A verdade jamais seria revelada!

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Motivo de insatisfação no 12º ano de escolaridade

Saudações a todos. Hoje volto a escrever aqui no blogue, desta vez sobre aquela que é praticamente a única razão para eu não gostar deste interessante 12º ano de escolaridade.

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Por uma nota cai o valor médio.

Optar pelas disciplinas ideais

Reduz em parte o mal, sem ser remédio.

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Tirar às obras o que delas faz

Um astro da cultura portuguesa!

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Governam os critérios. Imorais,

Urinam! Quem trabalha não tem paz

Entregue «ao que é pedido» e «à clareza»

Sentindo a bela língua em podre tédio!

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Para quem não entendeu exactamente a razão do meu protesto, sugiro que experimentem uma leitura na vertical. Por vezes ajuda a entender o sentido da mensagem, sendo esta uma dessas vezes.

Não, não tenho raiva contra ninguém em particular nem nenhuma disciplina em concreto. Nem é a forma como a matéria é leccionada o que mais me aborrece. Aquilo que me põe fora de mim é o suposto rigor na avaliação, que, ao superar os limites do humanamente concebível, de forma desmesurada, acaba por se anular a si mesmo.

Claro que tudo isto depende sempre do contexto do aluno, da sua experiência pessoal e do seu percurso biográfico e escolar. Esta é a minha opinião, materializada/literaturizada. Naturalmente que estou aberto a concepções diferentes e até opostas!

Tenham cuidado com esta disciplina traiçoeira e tentem gostar das obras, numa luta contra o sistema de avaliação em que o segredo passa pela preserverança e pela dedicação, além do gosto pela verdadeira literatura!

Perguntas extravagantes

Ponto de interrogação

Quantas dúvidas e incertezas podem pairar sobre um simples ponto de interrogação...

Alguma vez sentiram uma repentina vontade de começar a colocar as questões mais rebuscadas, desorganizadamente, numa chuva de interrogações sem relação aparente entre elas, que vos conduzisse numa estranha viagem pelo vosso eu interior?

Se sim, o que é altamente improvável, este post foi escrito para vocês! Se não, sendo esta a hipótese mais certa, sou forçado a tirar conclusões muito graves acerca da minha sanidade mental. Existe apenas uma terceira alternativa, que defende a minha lucidez perfeita, atribuindo estes devaneios inquiridores a determinados segredos ocultos. Não, também me parece pouco plausível, pois nunca tive jeito para encriptações e coisas afins. Devo ser mesmo maluco.

Passando ao conteúdo do post, apresento de seguida uma cadeia de perguntas sem qualquer sequência lógica, que se sucedem umas às outras num fluxo assimétrico. Apelo aos leitores que respondam a estas questões, inventando caso seja preciso, sem se preocuparem muito com a veracidade das respostas. Façam o exercício apenas como uma experiência casuística, numa viagem pelas sinuosidades da aleatoriedade, e deixem que a entropia da minha mente conturbada seja transferida para as vossas respostas pessoais.

De realçar que não coloquei as minhas soluções para não influenciar o vosso pensamento, dado que poderiam ser levados a dar respostas idênticas a algumas perguntas. De qualquer forma, a apresentação das minhas respostas centraria o post demasiado em mim, sem dar margem de manobra aos leitores, o que não é, de todo, a minha intenção.

As questões estão divididas em duas séries distintas. Se não fizerem a primeira, escusam de passar para a segunda. Divirtam-se! Depois digam qualquer coisa.

Grupo I

1. Qual é o teu animal preferido?

2. Qual é o jogador de futebol que mais admiras?

3. Qual é o nome do teu conto favorito?

4. Qual é a tua preposição predilecta?

5. Qual é a freguesia portuguesa de que mais gostas?

6. Qual é o apelido da tua escritora preferida?

Grupo II

1. Qual é o teu verbo favorito em inglês?

2. Qual é o teu número da sorte?

3. Qual é o domínio do teu website favorito?

4. Qual é o grupo do Mundial de Futebol 2010 que consideras mais interessante?

5. Quantas pessoas são precisas para uma conversa ideal?

6. Qual é o símbolo químico do teu elemento preferido?

Saudações cordiais a todas as almas valentes que aceitaram o desafio!

Devaneios rectangulares

Este post não deve ser entendido como tal. Não passa da publicação de um desenho insignificante que fiz no Paint enquanto ouvia o terceiro andamento da Sonata para Piano “A Tempestade” de Ludwig Van Beethoven.

Assim muito sucintamente, posso dizer que aproveitei o documento que abrira para alterar uma imagem inserida no post “Jules Verne: a wonderful world to be discovered (2nd part)” e comecei a desenhar quadriláteros com dois pares de lados paralelos e todos os ângulos rectos, utilizando a ferramenta do Paint adequada para o efeito. Como a actividade estava a suscitar em mim um certo prazer, resolvi prosseguir, para descobrir qual seria o produto de uma empresa tão extravagante.

O resultado está à vista:

E cheguei desta forma a uma figura repleta de anodismo, composta por linhas rectas fechadas de cor negra sobre um fundo branco, num arranjo idiota que a minha mente excêntrica fez o favor de criar.

Será que expressa de alguma maneira o meu estado de espírito? Talvez. As perturbações emocionais do artista passam sempre para a sua obra. No entanto, neste caso, acho que só representa o estado de sono e a atrofia mental em que o meu sistema nervoso mergulhou a esta hora avançada da noite. Enfim…

Dedo partido: retrospectiva (5 semanas)

Quarta-feira. 22 de Fevereiro de 2010. Como provavelmente saberão, quer por me conhecerem na vida real, quer por terem lido um post anterior, tenho um dedo partido. Hoje podem ser comemoradas as 5 semanas decorridas sobre a identificação do problema e o início do respectivo tratamento (mas que raio de coisa para se celebrar).

A sério. É mesmo verdade. Aquilo que considerei a princípio uma pancada perfeitamente inócua no dedo médio da mão esquerda era na verdade uma fractura na falange distal, mais concretamente ao nível da cartilagem de crescimento.

E por mais insignificante e anódino que este facto possa parecer, se eu não tivesse tido os cuidados adequados, o dedo poderia ter sofrido um desvio, começando a crescer na direcção errada. Esta situação conduziria à necessidade de uma intervenção cirúrgica, que implicaria um intervalo de tempo bem mais alargado para a recuperação total do dedo e seria certamente dispendiosa. Mas deixemos as considerações gerais sobre o assunto, recorrendo a uma cronologia dos acontecimentos.

Primeira Consulta

Onde é que eu tinha ficado no outro post? Ah, sim! Já me lembro! Nas vésperas da minha visita ao hospital, numa sexta-feira, tinha esperanças de me vir a ser removida a monstruosa tala que tanto me atormentava, sem cessar de comprimir este meu pobre dedo, como se não tivesse sido suficientemente fustigado pelas fatalidades do destino.

De facto, na consulta no hospital da CUF Infante Santo, com o Doutor Jorge Fonseca, excelente ortopedista, soube com grande satisfação que me seria retirada a terrível peça metálica, mas a frustração que se lhe seguiu quando soube que a tala seria substituída por um dedal de plástico quase anulou essa alegria momentânea. Ainda assim, ao envergar o pequeno objecto hospitalar, seguro com um pouco de fita adesiva, ficava livre da asfixia sudorípara em que as ligaduras envolviam a minha desafortunada mão, bem como das forças compressoras induzidas no meu dedo infeliz pelo metal implacável.

Fachada do Hospital da CUF Infante Santo

Actividade física?

No entanto, existiam demasiados pontos negativos, que me povoaram a alma de inquietações e uma raiva interior contra as circunstâncias da vida. Estava proibido de realizar qualquer tipo de actividade física nas 3 semanas seguintes e não tinha permissão para praticar exercícios que implicassem a utilização da mão esquerda nos dois meses subsequentes. Visto que as modalidades desportivas abordadas desde aquele momento até ao fim do 2º período seriam o andebol, o voleibol e o basquetebol, as minhas aulas práticas de educação física ficariam reduzidas aos testes de condição física.

De qualquer maneira, o Doutor escreveu uma declaração médica no qual explicava a situação em questão e estabelecia as restrições acima referidas. Assim, ficou combinado entre mim e a professora que a minha avaliação nas modalidades testadas seria de alguma maneira substituída por um trabalho teórico sobre andebol e basquetebol.

Segunda Consulta

7×2 vezes o sol se pôs, 28/2 vezes o sol nasceu (não liguem a esta forma estúpida de dizer que passaram 2 semanas) e regressei ao consultório do Doutor Jorge Fonseca, como tinha ficado previamente estabelecido. À semelhança do que acontecera na visita anterior, fui muito bem recebido, com um profissionalismo afável e correcto do Doutor, que explicava efectivamente os processos ortopédicos implícitos na evolução do estado do meu dedo e no tratamento do mesmo, em vez de se limitar a enumerar os procedimentos necessários para curar a fractura na cartilagem de crescimento.

A forma paciente como analisou as radiografias (em ambas as ocasiões) e esquematizou a falange distal num desenho anatómico (ainda na primeira consulta) agradaram ao meu espírito científico e permitiram que a minha curiosidade fosse saciada. Por estas mesmas razões, fiquei com uma óptima imagem do Doutor Jorge Fonseca e aconselho todos os que tiverem algum problema de ortopedia a dirigirem-se ao hospital da CUF a procurar os seus serviços.

Desenvolvimentos recentes (até agora)

Nesta consulta ficou definido que eu teria de continuar a usar o dedal 24 horas por dia durante duas semanas, mas apenas por uma questão de protecção, pois a fractura já está praticamente curada. Dadas as notáveis melhorias, o médico autorizou a prática de actividades físicas que não implicassem o uso da mão esquerda, tais como a natação, a corrida e o próprio futebol (desde que não ocupe a ingrata e muito arriscada função de guarda-redes). Por fim, ficou estabelecido que poderia deixar de usar o dedal duas semanas mais tarde, no dia 26 de Fevereiro.

Deste modo, felizmente, já tive a oportunidade de desfrutar de dois banhos muito do meu agrado na piscina do hotel onde passei as férias de Carnaval (o primeiro dos quais está aqui retratado). Mas o grande motivo de contentamento para mim neste momento foi o facto de já ter podido integrar as peladinhas de futebol com os meus colegas na escola, mas não no papel de guarda-redes (naturalmente). Na segunda-feira, uns cruzamentos e tal. Na terça-feira, uns joguinhos de bancos entre os pavilhões e uma participação num confronto disputado no relvado sintético da escola, no extenso intevalo de meia hora entre as aulas de Biologia e Química.

Como certamente terão entendido, faltam apenas dois dias para o meu dedo contactar finalmente com o ar em redor, sem receios, destemido e livre de materiais metálicos ou plásticos que tentem submeter a uma ditadura áspera e cruel. No entanto, durante os joguinhos de futebol terei de continuar a usar a protecção, por uma questão de segurança. Nunca sabemos o que nos traz o dia de amanhã…

Nota: reparei que o outro post acerca deste assunto recebeu algumas visitas de pessoas que procuravam conselhos em casos de dedos partidos. Como estes meus textos não se destinam propriamente a fornecer dicas às pessoas que lhes permitam decidir o que fazer nestas situações, reservei uma pequena parte no final deste post para apresentar algumas directivas muito gerais.

Radiografia aos dedos: podemos distinguir facilmente as diferentes falanges

Sinais de dedo partido: inchaço (edema), dedo vermelho (inicialmente) ou negro (mais tarde), dificuldade em dobras ou esticar completamente o dedo, dor aguda quando faz movimentos.

Atitude imediata: dirigir-se ao serviço de urgências de um hospital, preferencialmente de confiança (não aconselho o hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa). Manter o dedo bem esticado, para não permitir a sua deformação.

No hospital: o seu dedo será submetido a uma radiografia, que posteriormente será analisada pelo médico, para verificar se está mesmo fracturado.

Tratamento: o dedo partido deve ser envolvido por uma tala e várias ligaduras, a fim de ser mantido bem esticado nas semanas seguintes, para curar a fractura. A tala provavelmente terá de ser renovada ao longo do tempo, precisando apenas de frequentar o posto médico mais próximo de sua casa para o efeito.

Consultas: terá de realizar consultas de rotina, para verificar a evolução do seu dedo e alterar de alguma forma o tratamento, que pode ser suavizado, no caso de uma boa evolução, ou eventualmente acompanhado de uma intervenção cirúrgica, se tiver ocorrido algum problema.

Tempo de recuperação: o tempo que o restabelecimento total do dedo vai demorar depende da localização da fractura, isto é, da falange em que ocorreu o problema (proximal, intermédia ou distal), da gravidade da fractura e da sua idade (quanto mais jovem for, mais cartilaginosos serão os seus ossos, e, consequentemente, mais fácil será a correcção de eventuais anomalias).

Férias de Carnaval – Day 1

Após uma longa ausência de uma semana, cá estou eu de regresso à redacção do meu blogue. Nos últimos 3 dias não escrevi nada devido a alguma cansaço, falta de tempo e, sobretudo, uma vaga preguiça que se apoderou do meu ser. Anteriormente, ausentara-me do distrito de Lisboa para desfrutar de umas pequenas mas frutuosas férias de Carnaval em família, na tranquilidade de uma pacata urbanização de carácter rural no Algarve (peço desculpa pela sonoridade paradoxal desta antítese), em companhia do meu precioso e tantas vezes desvalorizado agregado familiar: a minha mãe e a minha irmã.

É precisamente sobre o primeiro dia deste enriquecedor período de repouso institucional que este post irá incidir. Farei uma abordagem típica de um diário. Resta aguardar pelo resultado final.

Despertar

Sábado. 13 de Fevereiro de 2010. 10:30 (mais coisa menos coisa). Após umas primeiras horas de madrugada muito produtivas em termos de posts, aconchegara o meu corpo entediado na frieza invernal dos lençóis (apesar das temperaturas amenas possibilitadas pelo aquecedor) já numa fase adiantada da noite, pelo que o meu despertar a essa hora foi muito difícil e penoso para mim. (In)felizmente, os gritos estridentes da minha adorada irmã foram muito eficazes e arrancaram a minha alma sonolenta ao seu descanso pesado, se bem que de uma forma pouco agradável e muito tumultuosa.

No seguimento de um simples mas delicioso pequeno-almoço cerealífero e de um saudável e psicologicamente estimulante banho matinal, aprontei a mochila com os objectos de lazer que gostaria de levar para o destino e acompanhei os meus entes queridos num exílio de 4 dias e 4 noites.

A viagem

Merendámos numa estação de serviço algures na margem sul do Tejo e prosseguimos no nosso caminho. A viagem foi curta e banal, comum a tantas outras, dada a fluidez dos automóveis modernos nas quase rectilíneas autoestradas portuguesas, no caso a A2 e a A22, que seguem caminho com uma facilidade incrível por esse país fora, recorrendo a todas as estratégias permitidas pela engenharia. Algumas estão em relativa harmonia com o ambiente, sobrevoando rios e ribeiras, outras traem e destroem a mãe natureza, chacinando árvores, amputando outeiros e trespassando montanhas através de túneis obscuros.

Por fim, atingirmos o destino final da jornada: o Hotel Renaissance Spa & Golf Resort, na urbanização Vila Sol, localizada nos arredores de Vilamoura. Ainda não eram 4 horas da tarde quando nos dirigíamos à recepção do estabelecimento para fazer o check-in. Passados alguns instantes, éramos levados pelo buggy até à nossa habitação provisória: um delicioso quarto numa das ruas da parte campestre, mergulhado na paz serena dos jardins da pequena povoação hoteleira.

O Paraíso: paisagem resplandecente da parte rural do Hotel Renaissance

Em busca da piscina: alguém tem uma bússola?

A minha mãe, que manifesta um prazer especial pela organização da anatomia do quarto de hotel, estando disposta a sacrificar as primeiras horas da sua estadia pelo maior aproveitamento possível das férias pela nossa parte, permitiu e incentivou a nossa primeira visita à piscina interior do hotel. Felizes nesta nova morada, tão aprazível aos nossos espíritos jovens e propícia a um Carnaval soberbo, acolhemos a proposta de forma mais um menos efusiva e de bom grado nos equipámos para o efeito.

Contudo, a nossa singular falta de atenção, durante a viagem do buggy, relativamente à configuração da aldeia, impediu a descoberta o edifício da piscina interior pela nossa parte. Deste modo, digamos que demos voltas e mais voltas no espaço do hotel, respirando uma poesia inspiradora que pairava no ar, enquanto vagueávamos por entre os blocos de alojamento, as suaves piscinas e lagos exteriores, os lindos canteiros verdejantes, onde desabrochavam as mais variadas preciosidades vegetais.

A dada altura, assomámos diante da varanda do quarto 1011 (que por acaso era o nosso) e a minha mãe surpreendeu-nos no nosso passeio rural interminável. Incapaz  de compreender a nossa falta de orientação, mostrou-nos o verdadeiro caminho para a piscina, que afinal até era bem simples, e pôs fim à nossa caça aos gambozinos. Eu e a minha irmã até já estávamos a tecer comparações com os espectaculares episódios da Twilight Zone.

Na piscina: os  ingleses

Uma vez na piscina, que apesar dos escassos 10 m de comprimento se nos revelou muito agradável, desfrutámos desse prazer enorme que é banhar a totalidade do nosso organismo humano no líquido da vida (embora impregnado de quantidades assustadoras de sais de cloro e outros compostos). O espaço estava repleto de clientes do hotel, mas a piscina em si estava vazia, pelo que pudemos nadar um bocado e brincar debaixo de água, como tanto gostamos de fazer.

O jacuzzi, que, de resto, não nos suscitava grande curiosidade, estava repleto de adolescentes ingleses (dois rapazes e duas raparigas), calculo que com uma idade semelhante à minha, que dominavam a produção sonora do local, com os seus gritos estridentes atroando pelos vapores quentes da piscina, num sotaque que identificava perfeitamente a sua nacionalidade.

Eu e a minha irmã, divertidos, começámos a falar na língua de Shakespeare, reproduzindo um sotaque muito britânico, a fim de satirizar as atitudes dos nossos simpáticos colegas de hotel. Para além disso, no momento em que deixámos a piscina, comecei a escarnecer de uma forma muito pouco ortodoxa: tecendo insultos discretos aos amigos ingleses na eloquente (mas não neste caso) língua de Camões, pouco do entendimento daqueles jovens estrangeiros.

Foi uma atitude idiota, mas, ao mesmo tempo, muito engraçada, tendo motivado umas estridentes gargalhadas da nossa parte. E nunca pusemos em causa o respeito pelas pessoas de uma nacionalidade diferente, visto que tudo isto não passou de uma brincadeira inocente (inclusivamente temos uma amiga inglesa com quem nos reunimos todos os anos em Agosto).

De regresso ao quarto, devorámos um chocolate que tinha sido comprado na viagem e tomámos um banho quentinho para nos prepararmos para o jantar. Enquanto esperava pela minha irmã, tive a oportunidade de acompanhar uma parte das cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Vancouver, no Canadá, em diferido, e desfrutar da beleza de um espectáculo esplendidamente concebido.

Jantar na Marina de Vilamoura: robalos e uma carraça

Após o seguimento das instruções da funcionária da recepção, auxiliados por um útil mapa da região, lográmos alcançar a marina de Vilamoura, que, naturalmente, constitui um gigantesco foco de restauração, quer pelos restaurantes de comida estrangeira (sobretudo britânicos, mas também italianos e orientais), quer pelos restaurantes onde se encontram as melhores iguarias que caracterizam a gastronomia da região. Desejosos de um bom jantar, que de alguma maneira compensasse o almoço menos nutritivo e o lanche praticamente inexistente, estávamos inclinados para a procura de um restaurante de carácter piscívoro.

Vista panorâmica da Marina de Vilamoura

Enquanto dávamos os primeiros passos na exploração do local, começando pelo exame ponderado da lista de um restaurante com ar acolhedor, surge um vulto sobre as nossas cabeças: era a empregada do restaurante, baixinha e gordinha, que tentava angariar clientes a todo o custo. Não entrou com o pé direito: gabou descomunalmente os bifinhos para os meninos. Contudo, a minha mãe imediatamente contrapôs que o peixe era o nosso ideal de refeição, ao que ela inteligente e habilmente respondeu que havia uma mista de peixe muito boa, com robalo, sargo, salmão e outros peixinhos, que era para duas pessoas, mas dava para os três. Olhámos para o preço, que parecia equilibrado, e, após a combinação da substituição do salmão por outro robalo, o acordo ficou selado e entrámos no restaurante.

A refeição foi fabulosa: desde o couvert panificado, que a fome tornou magistral, à referida mista de peixe, que de facto estava divinal (sobretudo no que toca aos robalos), a uma suculenta sopa do mar, com excelente peixe e deliciosas ameijoas, tudo foi distintamente apreciado pelas três bocas da família, que saborearam com rios de prazer cada pedaço de alimento. Só foi pena o carácter irritante da empregada, excessivamente preocupada com o nosso bem-estar, como se disso dependesse a sua vida. As perguntas constantes no sentido de averiguar se estava tudo bem e tínhamos gostado carregaram aquele jantar gastronomicamente tão agradável de um certo desconforto, como se pairasse sobre nós uma força PIDEsca que vigiasse as nossas acções.

“Venham sempre cá quando eu estiver. Quando eu não estiver não venham cá.” Foram estas as suas maçadoras palavras já perto do final do jantar. Obtiveram exactamente o efeito contrário, já que aquele prestigiado restaurante não voltou a lucrar com a nossa presença.

De regresso ao hotel, joguei PES 6 durante algum tempo (o suficiente para ganhar uma Rebok Cup) e depois apaguei a luz, colocando um ponto final a este primeiro dia de férias e dando início ao primeiro período de sono naquela nova e confortável cama.

O resto das férias

Enfim, o primeiro dia é sempre o mais espectacular na medida em que está associado ao impacto inicial do local e à primeira sensação de liberdade. Neste caso, a ideia de que deixáramos para trás um mundo escolar, que ficaria suspenso durante alguns dias, representou um factor de valorização da experiência, bem como a surpresa positiva causada pela beleza harmoniosa do espaço.

Por esta razão, considero mais importante a descrição detalhada do primeiro dia de férias do que dos que se seguiram. Foi com esse espírito que escrevi este longo post, que se debruça apenas sobre o sábado gordo. Não sei como apresentar o resto das minha férias de Carnaval, mas sei 2 coisas: a) não posso dar seguimento a este longo diário, pois, se o fizer, despenderei tempo precioso num projecto de fraca utilidade; b) tenho de fazer referência a outros aspectos das férias de Carnaval, que marcaram de forma tão significativa estes dias tranquilamente sublimes!

Dedo partido!

Aviso: se procura informações úteis sobre fracturas nas falanges e tudo o que envolva dedos partidos, por favor, consulte o post Dedo partido: retrospectiva (5 semanas), publicado algum tempo depois deste texto, que termina com uma análise mais detalhada e completa da questão, contendo alguns conselhos para pessoas com este problema.

Pois é. Ainda não tinha referido isto aqui no blogue, mas a verdade é que desde a terça-feira da semana passada (19 de Janeiro) tenho andado com uma minúscula limitação a nível físico: uma fractura na falange distal do dedo médio da mão esquerda.

Assinalada a vermelho, a falange distal do dedo médio, onde se localiza a minha pequena fractura

Sim, eu sei. Uma coisa tão pequena! Nem deve doer! Isso passa!

Foi o que eu pensei há 9 dias. No intervalo de meia hora entre as aulas de Biologia e Física estavam todos os rapazes da turma a jogar futebol no campo sintético, juntamente com alguns alunos do 7º ano, estreando a bola que tinha sido comprada a meias por todos os elementos interessados. Eu era um dos futebolistas de intervalo. No início comecei a jogar numa posição mais avançada do terreno, mas tinha combinado com o guarda-redes da minha equipa que trocávamos assim que ele sofresse um golo. O tento da equipa adversária não demorou muito tempo a surgir e quando dou por mim já fui parar à baliza.

Sofri um golo. Sofri outro golo. Mais ninguém se voluntariou para a ingrata posição de guarda-redes e eu tive de me contentar com ela até ao fim do encontro. Foi a minha “desgraça”.

A certa altura, numa das vagas ofensivas da equipa adversária, um colega qualquer (não me lembro quem) rematou forte à figura. Devido à minha carência de goalkeeping skills não consegui agarrar a bola (nem sequer tentei) e ela embateu violentamente na referida falange distal. Claro que doeu um pouco na altura, mas foi uma daquelas sensações passageiras sem quaisquer efeitos na meia hora seguinte.

Já na aula de Física, quando esticava o dedo, sentia uma dor aguda,  percebia que alguma coisa não devia estar bem. No entanto, tornei a encarar o fenómeno como uma dor momentânea que acabaria por passar pouco tempo depois.

No meu serão nocturno, depois de realizar os trabalhos de casa, comecei a sentir dificuldades na utilização do dedo médio para escrever no teclado do computador. Como se não bastasse, a parte inferior da unha estava negra. Este conjunto de circunstâncias despertou em mim a suspeição de que o caso fosse mais grave do que eu pensava. Receios hipocondríacos apoderaram-se da minha mente já cansada àquela hora da noite e após investigações levadas a cabo na casa de banho com o espelho e a tesoura, decidi que pôr gelo seria a melhor opção. Na cozinha, a arca frigorífica começou a emitir ruídos estridentes que acordaram a minha mãe: piiiiiin piiiiiin… Uma vez a pé, a minha mãe ajudou-me com o gelo e agendámos uma visita ao hospital na manhã seguinte.

Quarta-feira, dia em que supostamente teria natação na educação física às 10:00, na qual não poderia participar pela falta de mobilidade do dedo médio da mão direita, lá fomos os dois ao ignóbil hospital de São Francisco Xavier, por ser o mais próximo de casa. Uma espelunca, basicamente.

Não venham ao Hospital de São Francisco Xavier!

Eu e os outros clientes que se encontravam nas urgências fomos muito mal atendidos. Para além da grande confusão que impera naquela parte do hospital, os erros informáticos, demasiado frequentes, nunca são corrigidos pelos funcionários, excepto quando os clientes se apercebem. Uma senhora que chegara uma hora antes de mim nunca teria sido chamada para fazer a radiografia se não se tivesse apercebido da situação, insurgindo-se contra a incompetência do pessoal do hospital. De resto, quando cheguei à secção de ortopedia, “tinha ocorrido um erro no sistema” e a radiografia não tinha chegado.

O “ilustre” médico, visivelmente um novato, estava a ensinar duas estagiárias que deviam ser poucos anos mais velhas do que eu. E pareciam todos mais interessados nas suas brincadeiras e risos idiotas do que nos problemas dos clientes em questão.

Quanto ao meu dedo, disseram que não se conseguia perceber bem se existia ou não uma fractura e colocaram a hipótese de se tratar de um problema no tendão. E, sem me mandarem fazer mais radiografias ou qualquer outro tipo de exames, finalizaram dizendo que o tratamento era o mesmo em ambos os casos e atando um pedaço de fita adesiva em torno do dedo médio e do anelar, servindo este último de tala, para imobilizar o dedo fracturado, e colocou um lenço à volta do meu pescoço para apoiar a minha mão. Para cúmulo, o médico disse que eu deveria manter aquela montagem durante duas semanas.

Quem me viu na escola com este tratamento percebeu logo o quão ridícula e improfícua aquela fita adesiva enrolada ás três pancadas à volta dos dois dedos se revelava. De pouco ou nada serviria para eu curar a minha lesão. E a razão é muito simples: não podemos tratar eficazmente de um problema sem o conhecermos realmente.

À noite, depois das aulas, a minha mãe levou-me ao Hospital da CUF Infante Santo, este sim uma infra-estrutura digna e funcional, onde repeti a radiografia e me foi diagnosticada uma microfissura na falange distal. Agora sim, uma análise cuidada dos resultados que permitiu obter conclusões fiáveis. Uma tala verdadeira revestida internamente por uma suave superfície esponjosa à volta do dedo médio e uma ligadura constituíram o processo de tratamento, que culminaria numa consulta com um médico ortopedista na sexta-feira da semana seguinte. Tudo isto num ambiente saudável, rodeado de gente inteligente, compreensiva e amigável.

Pois bem, esse dia será já amanhã, 29 de Janeiro, e eu espero sinceramente ser autorizado a abandonar esta montagem que mumifica o dedo e a mão. Acho que tenho feito progressos nos últimos dias e quando tenho o dedo imóvel (99% do tempo) não sinto quaisquer dores. Como o dedo se conserva no interior da tala, também não tenho tido grande oportunidade de observar o seu aspecto morfológico (exceptuando quinta-feira de manhã e terça-feira à hora do almoço, quando fui mudar as ligaduras ao posto médico de Algés), mas penso que tudo estará a evoluir positivamente. Vamos esperar pelo melhor!

Quem sabe se na próxima segunda-feira poderei voltar a participar nos maravilhosos jogos de futebol dos intervalos! Ah, mas não vou ficar na baliza!

Nota: De realçar ainda o aspecto exótico que a minha mão esquerda adquiriu. O meu dedo médio é bastante mais comprido e mais grosso do que os restantes. Como se não bastasse, está sempre esticado. Isto tem uma consequência muito peculiar quando eu coloco a palma da mão virada para cima e dobro os dedos que ainda apresentam alguma mobilidade. Cerca de 587 pessoas já fizeram questão de me lembrar esse facto. Geralmente não simpatizo com este tipo de graçolas brejeiras, essas obscenidades! Mas neste caso não deixa de ser um facto singularmente curioso