Ludwig van Beethoven: Sonata ao Luar


Se me pedissem para identificar uma obra musical como a música da minha vida, inevitavelmente a minha resposta seria a Sonata ao Luar do inigualável mestre alemão Ludwig van Beethoven. Porquê? Pela força sobrenatural desta sublime sonata para piano que expressa uma infinidade de sentimentos e emoções de uma forma intensa e musicalmente fantástica. Não tenho palavras para descrever nem um terço do que sinto quando oiço este magnífico tesouro intemporal!

Ludwig van Beethoven: uma força descomunal

Beethoven costuma ser geralmente considerado um compositor que fez a transição do estilo clássico para o estilo romântico. Nasceu em 1770, em Bona, na Alemanha, e faleceu em Viena, na Áustria, corria o ano de 1827. Foi, portanto, contemporâneo dos grandes vultos do classicismo Haydn (1732-1809) e Mozart (1756-1791), de quem recebeu lições e ouviu alguns conselhos, tendo por outro lado pisado o solo do planeta enquanto os futuros grandes símbolos do romantismo cresciam e iniciavam as suas experiências musicais.

As obras da juventude, de feição inquestionavelmente clássica, que respeitam as concepções da segunda metade do século XIX, contrastam vivamente com as obras mais tardias, que denotam um romantismo acentuado e uma maior libertação dos modelos clássicos para dar maior expressão às deambulações do compositor pelos labirintos da sua alma. Há quem diga que Beethoven era um compositor nitidamente clássico, devendo-se o romantismo de parte da sua obra à sua personalidade peculiarmente tumultuosa e às sinuosidades do seu complexo percurso de vida.

Ludwig van Beethoven: uma personagem enigmática

Homem severo e rígido, compositor perfeccionista e muito trabalhador, Beethoven sofreu inúmeros tormentos ao longo dos seus 56 anos de existência, numa sequência infindável de reveses sucessivos. O ódio que nutria pelo pai, as invasões francesas, a desilusão em relação a Napoleão Bonaparte, as frustrações românticas, o insucesso na educação do seu filho adoptivo, a constante incompreensão do seu talento, a falta de meios financeiros, a miséria em que viveu os seus últimos anos, foram algumas das provações que a vida lhe proporcionou.

Já para não falar na sua surdez, que se começou a manifestar por volta dos 30 anos e se agravou ao longo do tempo até ocorrer a perda total da audição! Qualquer outro teria abandonado a composição musical, procurando outros recursos de subsistência. Mas Beethoven não cessou de compor, dando continuidade ao trabalho ao qual dedicava a sua vida. E a verdade é que uma boa parte das suas obras mais célebres dizem respeito a este período! Formidável, não é? Um homem que não ouve produzir melodias tão belas, que nenhum mortal capaz de descodificar ondas sonoras seria capaz de criar!

Os dois últimos parágrafos ilustram bem a natureza insubmissa e revoltada de Beethoven, um génio fenomenal que foi derrotado em todas as suas batalhas contra os modelos retrógrados e preconceituosos da sociedade, mas triunfou largamente na luta pela via musical, rompendo com os moldes tradicionais e desvendando novos caminhos na longa história da música ocidental.

Além da riqueza das suas obras a nível da construção musical, a sua força emocional é simplesmente impressionante! Beethoven, um herói que só será esquecido no dia da extinção da humanidade.

Moonlight Sonata – a expansão de uma alma genial

Escrita em 1801, a Sonata ao Luar de Beethoven foi a sonata para piano nº 14 do compositor e está catalogada como opus 27, número 2. Beethoven atribuiu-lhe o nome italiano quasi una fantasia porque a peça não segue a estrutura convencional das sonatas da época e dedicou a obra à sua aluna Giulietta Giucciardi, por quem estaria apaixonado.

Só mais tarde, em 1832, já depois da sua morte, o crítico musical alemão Ludwif Rellstab comparou os sentimentos despertados pelo primeiro andamento da sonata às sensações experienciadas durante o nascer do astro lunar no Lago Lucerna, na Suíça. Como resultado, esta linda sonata de Beethoven passou a ser conhecida como a Sonata ao Luar.

Dividida em três andamentos, assume destaque pelo primeiro e o terceiro. Na verdade, estas duas pérolas musicais são duas das mais famosas peças  de Beethoven para piano e, no meu ponto de vista pessoal, as mais completas e harmoniosas.

O primeiro andamento é assustador. Uma melodia melancólica e muito profunda invade o ouvinte, que é conduzido numa viagem comovente às profundezas do seu espírito. A sonoridade pesada do modo menor e a languidez com que o pianista percute cada tecla do instrumento permitem a expressão de uma tristeza sem fim que o compositor decerto sentia e transmite na perfeição aos seus ouvintes. Apesar do ambiente dramático e obscuro que domina a música e da constante repetição do mesmo motivo, Beethoven consegue evitar que o andamento caia numa certa monotonia, introduzindo sempre novas alterações que lhe conferem um carácter mágico e poético, proporcionando ao ouvinte uma experiência metafísica e espiritual única na vida.

Escutem… Deixem-se levar pela pureza da melodia… pela doçura das frases… pelo misticismo da música… Podem até fechar os olhos…

Numa palavra: sublime!

Agora repousem… Descansem um pouco. Regressem à realidade virtual deste post.

O segundo andamento tem geralmente menos projecção, não por falta de qualidade musical e emocional, mas por ter menos impacto nos ouvintes do que os outros dois, que são absolutamente colossais! Este segundo movimento consiste num minueto, um Alegretto, de melodia alegre e simples, mas com uma abundante riqueza rítmica. Não vou colocar aqui no blogue nenhum vídeo referente a este segundo andamento, para dar maior destaque aos outros dois, mas poderão ouvi-lo aqui.

Quanto ao terceiro andamento, um Presto agitato, é realmente fabuloso! Espectacular a fúria que Beethoven consegue imprimir neste movimento tão expressivo, de uma ferocidade atroz, extremamente rápido e de uma dificuldade técnica muito elevada para o pianista.

A música apresenta uma complexidade tremenda em termos de construção, muito embora os moldes aplicados sejam praticamente os mesmos ao longo do movimento. Mas não vale a pena falar muito desse aspecto. O mais importante é a energia, o poder, a agressividade, a força desta música tão intensa na qual Beethoven liberta os seus sentimentos em relação ao mundo e à vida de uma forma tão harmoniosa e bela. A brutalidade dos arpejos e a rapidez das variações de dinâmicas, aliadas ao carácter poético de alguns momentos, tornam este terceiro andamento uma jóia intemporal da música e uma representação sobrenatural da raiva, da cólera, do ódio… de alguém que, afinal, era apenas incompreendido.

Desfrutem da beleza da música… Wilhelm Kempff, o pianista, é também um mestre na maneira brilhante como traz até aos nossos ouvidos a ideia original de Beethoven, tocando com muita personalidade, numa interpretação pessoal muito do meu agrado.

Indescritível… Grande Beethoven! Uma música divinal!

Espero que tenham conhecido um pouco da vida e obra e Beethoven e se sintam enriquecidos após a audição desta soberba sonata para piano. Julgo que esta experiência é indispensável para quem gosta de música e tem o poder de nos levar a reflectir em diversas questões humanas interessantes.

Beethoven sempre.

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9 Respostas to “Ludwig van Beethoven: Sonata ao Luar”

  1. LVSITANO Says:

    Estou positivamente embasbacado com a Sonata ao Luar! É sobejamente conhecido que o Inverno e o Luar são dois dos fenómenos que mais inspiram os românticos e poetas ao compôr as suas obras. Qualquer um dos dois momentos está imbuído de uma espiritualidade mágica que inspira trabalhos magníficos.

    Podia agora pegar em vários exemplos literários e até alguns musicais, mas para quê dar-me a esse trabalho quanto tenho diante de mim uma sonata que retrata na perfeição os substantivos mais românticos que existem?

    Ouvi os três andamentos com atenção e devo admitir que foi uma experiência fabulosa. Interessante foi também reparar na disparidade entre eles, pois não me pareceram similares em grande parte das suas estruturas.

    O Andamento I penso ser o mais emotivo. A tristeza implementada na melodia é tão intensa que a própria melodia nos chega ao ouvido com uma carga emocional negativa igualmente arrebatadora. Não sei avaliar objectivamente este tipo de composições, mas subjectivamente posso dizer que está um trabalho esplêndido, como poucos conseguiriam fazer!

    Não gostei tanto do Andamento II, parece ter ficado a meio caminho entre o que foi o Andamento I e o que seria o Andamento III.

    O Andamento III é muito diferente do Andamento I e está muito bem interpretado por Wilhelm Kempff. A destreza e velocidade do Andamento falam por si: uma estrutura complexa que se paralela à rebelião de sentimentos que Beethoven por certo sentiria aquando da criação desta parte da sua sonata brilhante.

    Gostei muito de conhecer melhor este compositor e a sua fantástica obra. Obrigado por partilhares estas peças culturais interessantes!

  2. isabelle Says:

    muito legal eu nem sabia quem era mais como uma pesquisa do colégio fui me interessando com o assunto e gostei muito
    com toda a historia dele
    como eu um dia iria gostar tanto
    estou muito embasbacada com a sonata ao luar
    ouvi os três andamentos com atenção e devo admitir que foi uma experiência fantástica.

    • Andrey Amabov Says:

      Olá Isabelle. Agradeço imenso o seu comentário. Admiro muito a música de Beethoven (provavelmente o meu compositor favorito) e posso dizer que a Sonata ao Luar é a minha peça favorita. Não escondo a minha preferência pelo dinamismo apresentado pelo terceiro andamento, apesar da enorme riqueza expressiva do primeiro movimento.

      Fico feliz por saber que ouvir esta jóia musical foi para si “uma experiência fantástica”.

      Obrigado pela participação!

    • Paulo Says:

      Umas melodias belas, as do 1.º andamento e 3.º andamento. Beethoven um compositor que melhor do que qualquer outro aliou o talento gigantesco, a originalidade e o trabalho ferveroso. É o meu compositor preferido.

      • Andrey Amabov Says:

        Grande comentário, Paulo! Concordo a 100%!

        “Beethoven um compositor que melhor do que qualquer outro aliou o talento gigantesco, a originalidade e o trabalho ferveroso.”

        Também é o meu compositor favorito, acima de todos os génios da música que já conheci. Obrigado por comentar neste espaço!

  3. Sonata ao Luar « Piano Forte & tecnica Says:

    […] 24 24UTC agosto 24UTC 2010 por K.L. Ludwig van Beethoven: Sonata ao Luar […]

  4. Walmir Abreu Says:

    É a musica, e não a religião, que nos aproxima do Criador … Beethoven certamente foi (é) um dos seus anjos …

    • Andrey Amabov Says:

      Concordo plenamente! Muito obrigado pelo seu comentário, Walmir! E que Beethoven esteja consigo!

  5. Renata Says:

    O primeiro contato que eu tive com música clássica foi por um cd com composições d Beethoven, nunca vou esquecer como aquelas notas tocaram a minha alma. Essa também é uma das minhas composições favoritas, parabéns pelo post


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