Redução da duração das aulas para 60 minutos? Globalmente discordo.


Na sequência da intensa (mas globalmente convergente) discussão que se travou nesta postagem do Pedro Pereira no facebook, acerca de uma eventual medida no sentido de reduzir a duração das aulas escolares para 60 minutos, publico o meu “sucinto” comentário, com algumas (ligeiras) adaptações. De salientar que, de um modo geral, não sou grande adepto da proposta, embora considere bastante pertinente o seu debate no contexto do ensino básico.

Entre a chuva de comentários gerada pelo assunto, maioritariamente favoráveis à redução do tempo de aula, encontrei diversos argumentos devidamente fundamentados que preconizavam a duração de 60 minutos. Os principais motivos apresentados pelos defensores da medida prendem-se com a diminuição progressiva da concentração dos estudantes na última meia hora de aula e a consequente quebra de rendimento ao fim dos primeiros 60 minutos, eventualmente associados a uma dificuldade na manutenção da ordem no interior da sala de aula por parte dos docentes. Pela minha experiência pessoal, quer individualmente quer pela interacção diária com colegas sujeitos exactamente aos mesmos horários, estou ciente da validade destes argumentos, não questionando a sua veracidade e pertinência. Porém, existem outras variáveis a ter em conta, que passarei a enunciar, explicitando-os convenientemente.

Em primeiro lugar, admitindo a tendência dos estudantes para o desinteresse face à matéria leccionada na parte final da aula, proponho que nos debrucemos mais profundamente sobre o assunto. Será este um problema verificado exclusivamente nos minutos finais da aula? Penso que não, uma vez que o estado de tédio e desatenção dos alunos em relação à aula se inicia, muitas vezes, poucos instantes após o seu início. De salientar que não quero, com isto, acusar os alunos de uma atitude deliberadamente incorrecta na sala de aula, dado que me limito a constatar um facto, sem pretender atribuir a sua responsabilidade aos estudantes ou respectivos professores. Em todo o caso, confirmando-se a minha hipótese (e mais uma vez invoco a minha experiência pessoal como fonte de suporte), a redução da duração da aula não seria a melhor solução a considerar, devendo antes ser ponderada uma modificação da estratégia de condução da aula, empreendidas por parte dos próprios docentes, que se seriam responsávies pela adaptação das suas aulas a esta tendência estudantil, tendo em conta as características peculiares de cada turma e disciplina.

Adicionalmente, julgo que a redução do tempo de aula coloca outras questões dignas de serem equacionadas cautelosamente, tais como o tempo concedido à realização dos testes ou a necessidade de aumentar a frequência das discplinas ao longo da semana, a fim de possibilitar o cumprimento dos programas escolares. Relativamente aos momentos de avaliação sumativa, defendo que os 90 minutos são indispensáveis à resolução de um teste bem estruturado, passível de avaliar efectivamente as competências cognitivas dos alunos, ao passo que uma prova destinada a ser resolvida em 60 minutos, apesar de possível em determinados contextos e disciplinas, não possibilita uma avaliação tão abrangente e profunda dos conteúdos abordados em aula. Finalmente, tendo em conta a necessidade, amplamente reconhecida, de esbater as diferenças registadas entre o ensino secundário e o meio académico, bem como a longa duração das aulas do ensino superior, considero pertinente a sujeição dos alunos do secundário a aulas mais longas, que lhes permitam realmente uma preparação  apropriada para os intermináveis brainstormings que os esperam nas universidades portuguesas.

Por fim, gostaria de alertar as consciências para outro factor relevante, associado à vasta extensão dos programas letivos de grande parte das disciplinas escolares. Todos nós, alunos so ensino secundário, temos consciência das dificuldades frequentemente sentidas pelos docentes na leccionação de todos os conteúdos integrados nos programas específicos, muitas vezes quase incompatíveis com o número de horas semanais dedicados à disciplina. Assim, a redução da duração das aulas teria de envolver um aumento da frequência semanal das aulas de cada disciplina, a fim de potenciar o cumprimento dos vastos programas das disciplinas, o que não seria necessariamente mau (poderia inclusivamente incitar os alunos a um estudo periódico das matérias aprendidas diariamente, criando hábitos de trabalho positivos).

Todavia, esta medida teria implicações potencialmente gravosas, visto que acarretaria um incremento do número de aulas de disciplinas diferentes num dia, envolvendo uma maior dificuldade dos alunos na captação das informações transmitidas nas aulas de disciplinas distintas, por bombardeamento de conteúdos dissociados uns dos outros. Explorando a questão da frequência semanal de cada disciplina, regressando à comparação com o contexto universitário, verificamos que os estudantes só terão a ganhar em termos de adaptação ao meio académico como a manutenção de 2 ou 3 aulas semanais da mesma área discplinar.

Ainda assim, apesar de me opor, em traços gerais, à implementação desta medida ao nível do ensino secundário, concordarei com uma reflexão cuidadosa e coerente acerca da possibilidade de ser instituída em termos de ensino básico, tendo em conta a maior distância deste nível de escolaridade face à realidade do ensino secundário, a maior tendência para a desconcentração e indiferença registada entre os alunos destas idades e o (parcialmente) consequente estado selvático de muitas aulas do ensino básico em que a brandura ou perda de autoridade por parte dos professores destranca as portas do desrespeito e da impunidade. Reitero a necessidade de uma ponderação adequada a propósito de eventuais medidas neste sentido, tendo em linha de consideração os riscos delicados que uma decisão precipitada poderia envolver a um nível de ensino verdadeiramente estruturante da formação escolar do indivíduo.

Concluindo, manifesto a minha (quase) total discordância face ao fim das aulas de 90 minutos no ensino secundário, que considero desajustada das necessidades de aprendizagem dos alunos a este nível de ensino e da importância de uma transição graual para o meio universitário, admitindo a pertinência de uma potencial redução da duração das aulas para 60 minutos no plano do ensino básico, qualitativamente diferente. Subscreva-se ou não a minha perspectiva, julgo conveniente realçar a pertinência da discussão e faço um apelo a que alguns dos argumentos por mim aqui referidos sejam tidos em conta.

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