Recordemos Blake Edwards (A Pantera Cor de Rosa)

Estava eu sossegadamente desfrutando do primeiro almoço de férias natalícias, quando sou surpreendido por uma inesperada nota de rodapé do Jornal da Tarde (RTP), informando a morte do cineasta norte-americano Blake Edwards.

Fiquei pensativo, por uns momentos. Na verdade, pouco sabia acerca do realizador. Desconhecia mesmo que ainda estava vivo. Foi, por isso, um misto de interrogações e de alguma tristeza que se apossou da minha mente naquele momento, ao saber do falecimento do ilustre realizador da série de filmes A Pantera Cor de Rosa, que tantas gargalhadas me tem proporcionado. Mas antes de vos falar desta sua criação em concreto, gostaria de partilhar convosco alguns dados que obtive na minha pesquisa sobre Blake Edwards.

1ª PARTE: BLAKE EDWARDS: VIDA E CARREIRA

William Blake Crump nasceu em Tulsa, no estado de Oklahoma, no dia 26 de Julho de 1922. Filho de um realizador de cinema, acabaria por seguir as pisadas do pai, ainda que se tenha estreado como actor e argumentista, ligado sobretudo à rádio. Nesta primeira fase da sua carreira, o futuro cineasta evidenciou-se ao escrever 7 peças de teatro para o conceituado actor Richard Quine e ao participar brilhantemente na elaboração do argumento para o famoso filme de Orson Welles, War of  the Worlds, de 1938.

Foi, no entanto, como argumentista da série televisiva Richard Diamond, Private Detective (NBC) que Blake Edwards deu a conhecer ao mundo o seu humor muito peculiar, dotado de um estilo inconfundível, em 1959. Sensivelmente ao mesmo tempo, Blake Edwards escreveu para as séries televisivas Peter Gunn e Mr. Lucky, com música do célebre Henry Mancini, marcando o início de uma longa e frutuosa colaboração entre ambos.

Realizador

Entretanto, Blake Edwards ia começando a sua longa carreira de realizador, que se iniciou, mais concretamente, em 1955, com o filme Bring Your Smile Alone. Nos anos seguintes deu seguimento aos seus projectos, numa linha de trabalhos que acabaria por culminar em Breakfast at Tiffany’s, comédia romântica de 1961 em que Aydrey Hepburn interpreta o papel principal. Todos estes filmes se enquadravam no género cómico, partindo de guiões de Blake Edwards.

Nos anos seguintes, abraçou projectos de outro tipo, dirigindo filmes cujos argumentos não eram da sua autoria, correspondentes a outros géneros cinematográficos. Aqui se encontram Experiment on Terror, de 1962, e Days of Wine and Roses, do mesmo ano. Estas são praticamente as únicas produções de Blake Edwards que não se inserem na comédia, a sua arte natural. Não obstante, o seu bom trabalho como realizador foi igualmente reconhecido.

A Pantera Cor de Rosa

Foi em 1963 que A Pantera Cor de Rosa veio ao mundo. Ideia resplandecente, desenvolvida num guião da autoria de Blake Edwards e Maurice Richlin, a comédia A Pantera Cor de Rosa conheceu um enorme sucesso, em grande parte devido a uma excelente interpretação de Peter Sellers, na pele do desastrado Inspector Closeau, que catapultou uma longa cooperação entre os dois mestres da comédia. Assim, a dupla levou a cabo uma série de 5 filmes, tornando A Pantera Cor de Rosa uma lilariante série de culto. Mesmo depois da inesperada morte de Peter Sellers, em 1980, Blake Edwards deu seguimento ao projecto, realizando 3 outros filmes, socorrendo-se de diferentes soluções para manter viva a série.

O relacionamento entre Blake Edwards e Peter Sellers assumiu contornos muito peculiares. De facto, a colaboração profissional obteve sempre excelentes resultados, com os 5 filmes de A Pantera Cor de Rosa a serem acompanhados por A Festa. No entanto, entre eles existiu sempre um clima de tensão, apesar dos respeito e admiração mútuos.

Julie Andrews

Entretanto, a vida de Blake Edwards foi marcada por um acontecimento de grande valor simbólico: o seu casamento com a maravilhosa actriz Julie Andrews (Mary Poppins, Música no Coração), em 1969. Foi o seu segundo casamento, dado que se divorciara de Patricia Walker. Desta vez, o amor foi mais duradouro, com a relação matrimonial a prolongar-se até à data da morte de Blake Edwards. Na verdade, fiquei surpreendido quando soube que eram casados, pois embora sejam dois vultos do cinema que admiro imenso, nunca tinha investigado esse assunto.

Aqui podem encontrar um excerto de um documentário recente acerca da vida de Blake Edwards, onde se contempla o momento em que conhece Julie Andrews, acabando por desposar a ilustre actriz, que viria a integrar o elenco de muitos dos seus filmes:

O casamento, como seria de esperar, levou a uma união das suas carreiras, com Julie Andrews a integrar o elenco de diversos filmes de Blake Edwards, tais como Darling Lili, 10 e Victor/Victoria. De realçar ainda que este último foi uma das mais conceituadas produções de Blake Edwards, nomeado e vencedor de vários prémios de cinema, sendo que a prestação de Julie Andrews foi um dos principais motivos para o reconhecimento da qualidade do filme.

Balanço

A obra cinematográfica de Blake Edwards, nas funções de realizador, de argumentista ou ambas, engloba um total de 38 filmes, com uma tonalidade humorística muito característica e notáveis competências cinematográficas. Ao contrário de outros realizadores do seu tempo, Blake Edwards foi pouco premiado enquanto esteve em actividade, talvez por se dedicar ao cinema cómico, muitas vezes desvalorizado como algo inferior. Ainda assim, em 2004, a Academia de Hollywood decidiu compensar esta lacuna, atribuindo um Óscar honorário a Blake Edwards pela sua longa carreira de qualidade.

Podem ver, em baixo, o registo do instante em que Blake Edwards recebe o prémio, das mãos de Jim Carrey, num momento simultaneamente hilariante e comovente. Um grande simbolismo associado a esta entrega do Óscar da Academia de Hollywood, num tributo mais do que merecido a um cineasta único!

Blake Edwards faleceu na passada 4ª feira, 15 de Dezembro de 2010, na sequência de complicações provocadas por uma pneumonia. Os derradeiros momentos da sua vida foram passados no centro de saúde de Saint John, em Santa Mónica (Califórnia), sempre com a esposa Julie Andrews e os seus filhos ao lado.

Figura incontornável da comédia, Blake Edwards foi o génio criativo por detrás de momentos hilariantes históricos, incutindo a subtileza dos detalhes em cada momento das suas obras. Mestre da realização e argumentista de capacidades singulares, conquistou um lugar de destaque na História do cinema. E cativou o meu interesse pelas preciosas gargalhadas que me proporcionou com A Pantera Cor de Rosa.

2ª PARTE: A PANTERA COR DE ROSA

Falarei agora especificamente da fantástica série A Pantera Cor de Rosa, dando a conhecer, em traços gerais, do que se trata exactamente, realçando algumas informações que considero mais relevantes.

1. No primeiro filme, de 1963, A Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther), a acção gira em torno de um diamante imensamente valioso, a Pantera Cor de Rosa. O filme incluía uma pequena sequência animada no princípio, em que um felino cor de rosa ganhava vida no interior do fabuloso diamante, apresentando o filme e os créditos iniciais. De facto, o sucesso arrebatador desta animação acabou por levar à criação dos cartoons da Pantera Cor de Rosa, por parte de Friz Freleng e David DePatie.

Em relação ao filme, centra-se na investigação levada a cabo pelo inspector francês Jacques Closeau no sentido de desmascarar o autor de uma série de roubos em todo o mundo, conhecido como o fantasma, enquanto tenta impedir que o diamante cor de rosa, pertencente a uma bela princesa indiana, seja roubado. Com toda uma série de personagens fascinantes, envoltas numa intrincada teia de relações amorosas e laborais, o filme combina uma história misteriosamente imprevisível com deliciosos momentos de humor! Confiram o trailer, igualmente criativo:

2. Considerado por muitos, incluindo eu mesmo, o melhor filme da série, Um Tiro às Escuras (A Shot in the Dark) tem por base o acompanhamento minucioso de um caso policial da maior importância, investigado pelo inigualável inspector Closeau. Ainda que o assassinato do motorista de uma família abastada parece ser um crime facilmente resolúvel, a paixão avassaladora do detective pela principal suspeita acaba por conferir contornos bem mais originais e interessantes ao enredo.

Seguindo umas pistas e desprezando outras, Closeau vai prosseguindo o seu trabalho, à medida que o número de mortos vai aumentando e as investidas desesperadas de alguém para o matar também. Além de extremamente hilariante, a excelente construção do filme e a magnânima interpretação de Peter Sellers tornam este filme, de 1964, uma obra imperdível:

3. Quanto aos outros filmes da série, gostaria de focar alguns aspectos que me parecem relevantes. Não vi ainda o terceiro filme, O Regresso da Pantera Cor de Rosa (The Return of the Pink Panther), mas tive a oportunidade de ver (e rever) A Pantera Volta a Atacar (The Pink Panther Strikes Again), um filme que, não tendo a coerência de acção dos anteriores, está recheado de deliciosos momentos de humor, muito subtis e cativantes, como o do vídeo em baixo!

O último filme da série publicado em vida de Peter Sellers foi A Vingança da Pantera Cor de Rosa (The Revenge of the Pink Panther), não tão divertido como os anteriores, mas que ainda assim não desmerece um lugar honroso no panorama do cinema cómico.

4. Em Na Pista da Pantera Cor de Rosa (On the Trail of the Pink Panther), Blake Edwards procurou prestar um tributo a Peter Sellers, utilizando cenas cortadas de A Pantera Volta a Atacar (The Pink Panther Strikes Again) e reunindo novamente grande parte do elenco do primeiro filme, bem como outros actores de estatuto reconhecido, numa história que girava em torno do desaparecimento do inspector Closeau. No entanto, a viúva de Peter Sellers processou Blake Edwards por ter difamado a imagem do seu falecido marido, obrigando ao pagamento de uma multa avultada e a uma mudança de estratégia nos filmes da Pantera Cor de Rosa.

Foi o que aconteceu em 1983, com A Maldição da Pantera Cor de Rosa (The Curse of the Pink Panther), em que um desastrado detective norte-americano substitui o inspector Closeau, investigando as causas do seu desaparecimento, ou em 1993, com Roberto Benigni a interpretar o filho ilegítimo do inspector Closeau em O Filho da Pantera Cor de Rosa (The Son of the Pink Panther). Foi, de resto, o último filme do cineasta, precisamente no ano do meu nascimento!

Bem, é tudo por hoje. Recordemos a memória do grande realizador que Blake Edwards foi e desfrutemos da inigualável PANTERA COR DE ROSA!

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Singularidades da Invisibilidade (parte 1): Chuva de Questões

Enigmas da ciência e da filosofia

Pura I v s b l d d

Já alguma vez pensaram na (im)possibilidade de virem a experimentar a sensação (ou devo dizer o poder) da invisibilidade?

Claro que sim! Quem nunca imaginou o doce (ou talvez não tão doce assim) sabor de ver sem ser visto, sentir sem ser sentido, existir e não dar se dar a conhecer ao mundo?

E como seria se efectivamente vivêssemos em tais circunstâncias? Que uso faríamos desta nossa nova característica? Que alterações se manifestariam na nossa interacção com a sociedade, o que mudaria na nossa relação com o exterior? Mas, acima de tudo, qual seria a reacção da nossa mente, do nosso intelecto, da nossa personalidade, em função deste novo estado existencial? Haveria espaço para mutações psicológicas?

Filosofia do poder e dilemas de consciência

Dilemas de personalidade

Doctor Jekyll and Mister Hyde, um clássico de fantasia e terror que tem inspirado milhares de artistas e pensadores.

Esta gradação guia-nos ao cerne de uma importante questão da filosofia, que qualquer pessoa pode analisar individualmente, independentemente dos seus antecedentes. Sim, acabei de atingir o grande dilema que se coloca a qualquer alma humana quando detentora de um vasto poder sobre os seus semelhantes, que consiste na escolha dolorosa entre duas opções antagónicas.

A primeira será aquela em que o indivíduo acaba por sucumbir à ganância dos seus desejos e age unicamente em função dos seus interesses pessoais, desprezando quaisquer direitos alheios simplesmente por não temer represálias. Na segunda, pelo contrário, continua a escutar a voz interior da moralidade (se ela existir), que o impele a usar o seu poder em prol do bem comum, de acordo com as necessidades dos outros seres humanos, fazendo prevalecer a bondade e a consciência social.

Neste tipo de situações hipotéticas, trava-se uma verdadeira batalha entre as duas facetas do ser humano, numa guerra incerta e gradual que acaba por determinar a componente da personalidade dominante. Um pouco como na novela de Robert Louis Stevenson Doctor Jekyll and Mister Hyde, certamente bem conhecida pela maioria dos leitores. Ora, um ser humano ao qual foi prodigalizado o dom da invisibilidade encontra-se forçosamente nestas condições, dadas as circunstâncias que já referi anteriormente.

Eu e a invisibilidade

Mas porquê esta insistência da minha parte na temática da invisibilidade? Porque, meus caros amigos, a invisibilidade representa, dentro dos capítulos da ficção científica, um dos que mais me fascina e me faz questionar diversos aspectos do meu conhecimento racional, que em termos científicos, propriamente ditos, quer a nível filosófico. De facto, livros, filmes e outros veículos culturais em torno deste sonho aparentemente tão distante exercem uma atracção muito forte sobre mim, ao ponto de os colocar nas minhas selecções de favoritos.

Cientificamente possível, mas não ainda

A invisibilidade pode ser conseguida desviando os raios luminosos de maneira a que contornem o objecto sem o atingirem. Tal seria possível  com uma capa composta por metamateriais que apresentassem um índice de refracção negativo.

A invisibilidade poderá ser conseguida desviando os raios luminosos de maneira a que contornem o objecto sem o atingirem. Tal será possível com uma capa composta por metamateriais que apresentem um índice de refracção negativo.

Além disso, a invisibilidade pode estar reservada para um futuro mais próximo do que à partida poderíamos pensar, devendo ser tidas em conta os vários projectos de investigação no assunto que se têm vindo a desenvolver no âmbito das pesquisas científicas e o nos progressos muito positivos que se estão a verificar nestas iniciativas.

Recentemente, por exemplo, investigadores israelitas conseguiram eliminar a libertação de radiação infravermelha por parte dos tanques de guerra, através de placas térmicas, o que os torna indetectáveis durante a noite. Não se tratando de um exemplo de invisibilidade na verdadeira acepção do termo, constitui um marco na cronologia desta investigação e uma prova de que o impossível se pode transformar em realidade num abrir e fechar de olhos.

No caso da invisibilidade humana, talvez dentro de algumas décadas tenhamos superado as complexas barreiras que se nos colocam neste momento! A solução que parece mais viável neste momento consiste na criação de um “manto da invisibilidade” (ao estilo de Harry Potter) constituído por materiais produzidos artificialmente, denominados metamateriais. Ora, estes materiais peculiares teriam a particularidade de apresentar um índice de refracção negativo, provocando o desvio da luz incidente segundo um ângulo tal que contornaria o objecto sem o reflectir. No entanto, persistem algumas dificuldades técnicas que obstam ao sucesso imediato da iniciativa. Ou seja, muitas pesquisas serão necessárias rumo à descoberta da invisibilidade!

Para uma compreensão dos fundamentos científicos associados a este assunto complexo, aconselho vivamente a leitura do 2º capítulo da obra A Física do Impossível, escrita pelo conceituado físico chinês Michio Kaku, capítulo esse exclusivamente dedicado à invisibilidade. Para uma explicação mais rápida e sucinta, aconselho que visitem este site.

Importância e interesse do assunto

Um dia, a invisibilidade humana será uma realidade. Todavia, antes desse dia chegar, devemos estar conscientes das implicações associadas a esta descoberta científica e das medidas que se teriam de tomar a fim de evitar situações indesejáveis, de impacto indeterminado na sociedade e no mundo.

Enfim, por todas as razões referidas anteriormente, fica prometido para breve um seguimento desta análise ao assunto da invisibilidade, com base num filme e num livro que me marcaram de forma muito relevante, merecendo por isso uma justa referência aqui no blogue.

The Invisible Mouse

Por agora, fiquem com um pequeno cartoon dos imortais Tom & Jerry, heróis da minha infância, assim como da de milhares de milhões de outras pessoas de diferentes gerações em todo o mundo. Foi através deste divertido momento de animação clássica que eu contactei pela primeira vez com a ideia de invisibilidade, começando assim este meu interesse pelo assunto. Obrigado, Tom and Jerry!

Saudações invisíveis!

O que se passou foi isto:

Hoje gostaria de falar um pouco do novo programa de humor da RTP 1 intitulado “O que se passou foi isto”. Tem emissão assegurada todas as quartas-feiras, em horário nobre, com uma duração de aproximadamente meia hora. Embora se trate de um projecto de menor projecção do que o “Gato Fedorento” ou “Os Contemporâneos”, a série até está relativamente bem conseguida e apresenta os requisitos mínimos para ser considerada um programa de qualidade.

Além disso, enquadrando-se num período em que a estação pública entrou numa certa estagnação em termos de humor, esta iniciativa é louvável e proporciona aos espectadores preciosos momentos de riso e descontracção a meio das semanas preenchidas dos trabalhadores portugueses.

Mas o que é que se passou afinal?

A ideia do programa é bastante simples. A acção desenvolve-se no Ludgero’s Café, um estabelecimento de restauração lisboeta que não ultrapassa os níveis de mediocridade de uma reles tasca de bairro. Frequentado por um número extremamente reduzido de clientes, que ainda não estão familiarizados com a realidade da casa, o café acaba por constituir o inevitável ponto de encontro entre as três personagens da série: o senhor Ludgero, proprietário do estabelecimento, interpretado pelo sempre cómico Manuel Marques, o Fábio, jovem de vinte e poucos anos que trabalha na pizaria gay/lésbica, representado pelo talentoso imitador Luís de Franco Bastos, e a menina Sónia, escritora frustrada e dona de um quiosque de bairro, encarnada pela actriz Carla Salgueiro.

Funcionando como uma espécie de tipos etários e profissionais, as três personagens representam o típico hábito português de cochichar acerca de tudo o que acontece na esfera pública e constitui notícia nos tão manipuladores meios de comunicação social. Independentemente do assunto em discussão, as personagens têm sempre qualquer opinião fabricada para expor perante os seus companheiros da café, explanando o seu (pseudo-)conhecimento ilimitado.

Romancear satiricamente os casos pitorescos da realidade

Surpreendentemente ou não, as personagens encontram sempre um modo qualquer de demonstrar as suas relações com personalidades públicas, directa ou indirectamente, recorrendo quase sempre a duvidosos testemunhos que criticam amigos ou familiares afastados. Conversas da treta e cenas de café são então substituídas por divertidos sketches que cos acontecimentos que vão constituindo a realidade noticiosa e marcam de forma decisiva a semana correspondente ao programa.

As exuberantes qualidades de reprodução de voz de figuras públicas de Luís Franco Bastos formam uma aliança sólida com o humorismo saudável e inteligente de Manuel Marques, temperados com uma pitada de expressão dramática (teatral) pela experiente Carla Salgueiro, resultando deliciosas peças de sátira política, social e desportiva às quais nenhuma personalidade consegue escapar.

O Primeiro-Ministro José Sócrates lidera com larga vantagem a classificação das participações no programa, ao ser retratado em praticamente todos os episódios. No entanto, o Presidente Cavaco Silva, o professor Marcelo Rebelo de Sousa e Cristiano Ronaldo são também presença assídua nestes momentos jocosos de gozo e especulação humorística, onde a ficção e a realidade se reúnem num domínio comum, separadas por uma linha muito ténue que mal as distingue.

Um excelente exemplo das prodigiosas qualidades de imitação de voz de Luís Franco Bastos são os sketches que abordam a temática das escutas telefónicas, dos quais deixo um vídeo espectacular:

No Ludgero’s Café

Para lá da dimensão mais global da questão, existe também uma tentativa concreta de recriar o ambiente vivido nos bares e tascas da capital portuguesa, numa rica crónica de costumes, imbuída de um humorismo fenomenal, umas vezes de uma forma mais directa, com piadas simples e quase universais, outras vezes recorrendo a meios mais subtis, criando um contexto que possibilita a identificação dos vícios das personagens, de uma forma divertida e bem disposta.

O senhor Ludgero, marcado pela sua falta de instrução e extraordinária idiotice, destaca-se pela sua ignorância formidável, bem como a sua tremenda ingenuidade e propensão para obsessões extremas. Ao considerar a sua pessoa como a entidade mais culta do universo, detentor de um conhecimento abrangente em todas as áreas, ao mesmo tempo que desvaloriza as capacidades das outras personagens, sobretudo de Fábio, Ludgero acaba por dar provas da sua estupidez sem precedentes e das suas ideias manifestamente retrógradas e desproporcionadas à realidade actual. Como se não bastasse, revela-se um péssimo negociante, ao expulsar constantemente os seus clientes do café por razões totalmente desprovidas de fundamento lógico. 5 estrelas para Manuel Marques!

O Fábio, jovem afável e atento às necessidades alheias, demonstra uma grande afeição em relação a Ludgero, ajudando frequentemente nas tarefas do café. Fábio é significativamente inteligente e sensato, mas a sua personalidade débil e inocente faz dele um alvo fácil aos insultos de Ludgero e às críticas e acusações que lhe são dirigidas pelo mesmo. Fábio sente-se dominado por uma paixão secreta pela menina Sónia, tentando a todo o custo captar a sua atenção, de maneira a criar uma maior proximidade entre eles.

Infelizmente, Sónia, bastante mais velha, com um extenso historial de frustrações amorosas no passado, não parece reparar no evidente interesse que a sua beleza subtil desperta em Fábio, ignorando completamente os seus sentimentos românticos. A menina Sónia vê o simpático rapaz como um miúdo que ainda gosta de carros e pokemons, desvalorizando constantemente a sua maturidade emocional. Embora manifeste uma sincera admiração por Fábio, esta resume-se a uma perspectiva de amizade maternal, bem explícita na repetida utilização da palavra “querido” quando se lhe dirige.

Em cada episódio, os acontecimentos no café centram-se em torno de um determinado tema, que pode variar desde as escutas telefónicas e criminalidade vs terrorismo até às comemorações de Natal e Ano Novo. Para além disso, as visitas fatais de Celestino, o cliente “preto” (uso a palavra sem qualquer tipo de discriminação) constantemente desrespeitado por Ludgero (aliás como todos os outros) e que promete sempre “nunca mais lá voltar”, quebrando inevitavelmente a sua promessa no episódio da semana seguinte.

Ídolos na Política Portuguesa

Sugiro vivamente a visualização do seguinte vídeo do programa. Trata-se de uma combinação de dois fenómenos assaz curiosos intrínsecos da república portuguesa e suas particularidades: a política nacional bipolar e a obsessão generalizadas pelo já doentio concurso televisivo “Ídolos” (peço desculpa se estiver a ferir susceptibilidades). Simplesmente observem.

Já sabem que podem desfrutar destes soberbos instantes de boa disposição institucional todas as quartas-feiras, por volta das 21:30. O site da RTP inclui uma colectânea dos vídeos de todos os episódios emitidos até ao momento, que pode ser explorada aqui.

Nota: no meu ponto de vista, a ideia que orienta todo este projecto é realmente espectacular e a série tem aspectos muito bem conseguidos. No entanto, ainda se observa uma certa irregularidade na qualidade dos sketches. Aquilo que continua a faltar um pouco a este grupo tão original é um maior cuidado no ritmo das piadas, que têm de estar organizadas numa cronologia muito bem pensada, de modo a possibilitar o efeito desejado na plateia. De qualquer forma, continuo a afirmar que a série tem imensa graça e, mesmo quando não tem a arte nos arrancar uma ruidosa gargalhada, consegue sempre, pelo menos, desenhar esplêndidos sorrisos nas caras das pessoas.

The Twilight Zone

The Twilight Zone

The Twilight Zone - A Quinta Dimensão

Recentemente fiquei fã da série de televisão norte-americana dos anos 60 The Twilight Zone(cuja tradução portuguesa é A Quinta Dimensão). Esta é provavelmente a minha série de televisão favorita. Exceptuando a hilariante comédia O Mundo de Jim, da qual tenciono falar mais tarde, não consigo encontrar nenhuma série televisiva tão interessante e que seja capaz de captar tão bem a minha atenção.

Como tudo começou

O meu pai ofereceu-me a primeira temporada nos anos, suspeitando que eu fosse gostar bastante. Não se enganou. Passados 20 dias já eu tinha visto os 36 episódios da compilação.

Meses depois, alguns dias antes do Natal, recebi um telefonema do meu pai, que estava na Fnac a comprar prendas de Natal. Após os cumprimentos habituais, perguntou-me se eu não desejaria nada em especial. Como eu visitara aquela célebre loja pouco tempo antes, lembrei-me que encontrara a segunda temporada de The Twilight Zone na secção de séries. Aproveitando a oportunidade, sugeri ao meu pai que me oferecesse o tão ambicionado presente. E assim, na noite de Natal, juntamente com um interessante livro filosófico sobre a vida, recebi esta fantástica dádiva cinematográfica, da parte do meu paterno indivíduo.

O visionamento dos 7 primeiros episódios desta segunda série deixou-me deliciado, tal como acontecera com a primeira temporada. Então, tive a ideia de escrever sobre ela aqui no blogue, introduzindo a série aos leitores e apelando a todos para experimentarem esta série maravilhosa.

The Twilight Zone

The Twilight Zone é uma série de ficção científica, mistério, fantasia e terror (mas sem haver sangue: o terror advém das situações confrangedoras em que as personagens estão envolvidas, causando sentimentos de compaixão e horror nos espectadores). Foi criada pelo argumentista e produtor de televisão norte-americano Rod Serling.

Rod Serling e a sua célebre criação: The Twilight Zone

Em cada episódio, o espectador depara-se com uma história misteriosa e intrigante, que envolve qualquer coisa de sobrenatural, algo irreal, uma impossibilidade à luz da ciência actual. Estou a falar de viagens no tempo, teletransporte, precognição, robôs, extraterrestres, seres inanimados com vida, no fundo, tudo aquilo que não existe na realidade palpável a quatro dimensões (três dimensões espaciais e o tempo como a quarta dimensão), mas está bem presente no mundo da imaginação, isto é, na Twilight Zone (ver nota no final).

Emitida entre 1959 e 1964, com um total de 156 episódios divididos em 5 temporadas, The Twilight Zone foi um tremendo sucesso televisivo nos EUA. Com episódios curtos, de aproximadamente meia hora (tirando os da quarta série, mais longos, com cerca de uma hora), The Twilight Zone é um mundo da fantasia que capta o interesse do leitor até ao último segundo.

Para lá da ficção

Mas A Quinta Dimensão é muito mais do que uma simples série de ficção. Apresenta também uma importante componente humana e filosófica, pois quase todos os episódios (se não mesmo todos) transmitem uma certa mensagem e revelam um segredo sobre a espécie humana, funcionando como uma importante lição aos espectadores. Daí provém o seu carácter moralizador. Porém, o mais importante é que cada uma destas pérolas televisivas apresenta mais perguntas do que respostas, reune uma série de questões acerca das quais o expectador se poderá interrogar.

Há também um lado de crítica social e política em alguns episódios da série. Na época de emissão, em plena guerra fria, as críticas e os comentários contra o sistema político norte-americano não eram propriamente bem-vindos. Se os episódios de The Twilight Zone se opusessem de forma nítida às políticas seguidas pelo estado, o mais certo seria a série ter sido censurada. Contudo, Rod Serling e os restantes intervenientes no projecto tiveram o cuidado de ocultar as rígidas críticas a problemas como o desenvolvimento das armas nucleares, a guerra fria ou os conflitos raciais sob uma máscara de ficção e fantasia, criando situações alegóricas com uma correspondência directa com factos daquela realidade temporal.

Qual a origem do giganteco sucesso desta série?

A conjugação de todos os factores acima referidos torna The Twilight Zone uma série fabulosa. No entanto, qual será a verdadeira razão de tanto sucesso? Porque será que as pessoas se sentem tão atraídas pel’ A Quinta Dimensão? O que terá motivado tantos remakes e vários filmes? Será simplesmente a abertura de cada episódio, com uma música intrigante e uma introdução enigmática pela voz não menos misteriosa de Rod Serling? Ou talvez a originalidade das histórias? Ou a enorme diversidade e qualidade dos actores, que para além de serem os mais conceituados de Hollywood e fazerem excelentes interpretações, raramente participam em dois episódios da série?

Naturalmente será uma combinação de tudo isto. Mas eu creio que quer as aberturas dos episódios, quer as histórias em si quer as interpretações dos actores podem ser fundidos numa única palavra, que explica boa parte do sucesso da série: o suspense.

Para mim, o suspense, sempre presente nestes pequenos episódios, é o grande segredo desta série, o ingrediente que torna a série viciante. Enquanto os factos e acontecimentos vão desfilando no ecrã, o espectador indefeso é inevitavelmente absorvido pelo extraordinário poder atractivo dos enigmas. Prisioneiro do suspense, tenta libertar-se usando a sua imaginação, procurando encontrar uma resposta ao problema fundamental do episódio. Mas todas as tentativas de fuga são em vão: o espectador só é libertado no final do episódio, mas mesmo assim continua pensativo, reflectindo acerca daquilo que acabou de ver. É este o poder d’ A Quinta Dimensão.

Para ficarem com uma melhor ideia da netureza desta série sugiro que vejam o vídeo em baixo. Trata-se da abertura dos episódios da primeira série. Absolutamente sublime!

No youtube estão disponíveis outros vídeos da série. Entre as aberturas das cinco temporadas, excertos de alguns episódios e outras surpresas, poderão apreciar este mundo onde não vivemos fisicamente mas ao qual fazemos frequentes visitas, no meio de transporte mais eficaz que eu conheço: a imaginação.

Nota: Como muito bem reparou o caro leitor de nome Miguel, se virmos o tempo como a quarta dimensão, algumas destas tecnologias acabam por ser possíveis dentro das quatro dimensões conhecidas, tendo em conta que projectos em áreas como a inteligência artificial e a invisibilidade já estão em curso e indubitavelmente darão frutos suculentos em breve.

No entanto, creio que nem os próprios autores da série tiveram este aspecto em consideração quando escreveram o argumento. Provavelmente, partiram da ideia de que estas tecnologias serião todo um conjunto de impossibilidades perpétuas. A outra alternativa, talvez um pouco rebuscada, será os autores terem considerado uma dimensão temporal muito restrita, relativa ao pequeno período correspondente aos primeiros anos da década de 1960, durante os quais a série foi emitida.