Manuel Alegre fez uma boa campanha. Cavaco leva uma vantagem desconfortável para as eleições. A segunda volta é ainda uma possibilidade. Não se abstenham!

Na sequência deste comentário do meu estimado colega Francisco Barão Dias a este artigo de opinião, resolvi proceder a uma retrospectiva da campanha eleitoral de Manuel Alegre e divulgar as minhas previsões para as Presidenciais 2011, deixando a minha perspectiva pessoal bem patente. Confesso que inicialmente não pretendia desenvolver exaustivamente o assunto, mas acabei por fazê-lo dada a sua relevância e o meu entusiasmo enquanto escrevia.

A Campanha Eleitoral de Manuel Alegre

Na minha perspectiva, Manuel Alegre fez uma boa campanha. Contrariando alguns dos meus receios, soube conter convenientemente a sua iminente sede de poder, colocando as prioridades do país sempre à frente dos seus interesses pessoais. Acerca do seu discurso, penso que se pronunciou com clareza e coerência (o que é fundamental) sobre os assuntos mais relevantes no actual contexto socioeconómico e político, deixando as suas posições bem esclarecidas e mostrando que reúne todo um conjunto de condições de importância capital para o cargo de Presidente da República.

São exemplos disso a frontalidade com que defendeu o Estado Social, deixando patente a forma convicta como defende o apoio do Estado à saúde e à educação (mostrou-se disposto a bater-se pela gratuitidade do SNS e do Ensino Público) e a importância de uma participação activa do Presidente da República na política externa portuguesa, fazendo uso dos poderes do cargo para dialogar com o exterior e intervir na estruturação das relações e nos negócios entre os países (algo em que Cavaco Silva se notabilizou pelo silêncio e pela inactividade).

A Postura de Manuel Alegre face aos casos em que Cavaco Silva esteve envolvido

Sei que, quando o Francisco fala de contra-campanha, se referes a um conjunto de argumentos ad hominem de que não só Alegre, mas também todos os outros candidatos (incluindo Cavaco Silva) se socorreram durante esta campanha. Não o nego e concordarei inteiramente com quem afirmar que esse tipo de estratégias, independentemente de poderem resultar e de suscitarem questões relevantes, não contribuem em nada para o enobrecimento da campanha. Ainda assim, gostaria de notar aqui dois aspectos importantes:

1) O caso BPN e outros assuntos passíveis de atentar contra a credibilidade do actual Presidente da República, Cavaco Silva, foram trazidos a esta campanha eleitoral por outros candidatos (Francisco Lopes, Defensor Moura), sendo particularmente salientados durante os debates entre Cavaco e estes candidatos. Por outro lado, é preciso saber distinguir a forma como os apoiantes de Manuel Alegre, independentemente atacaram o carácter Cavaco Silva, e aquilo que o próprio Manuel Alegre disse acerca do assunto.

2) O modo como Alegre encarou estes ataques à personalidade de Cavaco foi, a meu ver, exemplar, dado que soube gerir convenientemente a situação, com prudência e responsabilidade. Nos debates e entrevistas, Alegre não se servia destas polémicas para desenvolver a sua argumentação, discutindo esses assuntos apenas quando questionado acerca deles. Para além disso, não ouvimos Manuel Alegre a dirigir acusações a Cavaco Silva, mas simplesmente a enunciar factos concretos que despertavam suspeitas acerca do Presidente da República, limitando-se a pedir esclarecimentos a Cavaco Silva. De resto, o próprio Manuel Alegre, aquando da entrevista com Judite de Sousa, disse muito claramente que lamentava ver a quase totalidade do tempo de antena dedicado a questões de segundo plano (todas estas manobras de bastidores).

Uma Campanha Frontal, Responsável e Convincente

Assim, penso que a campanha de Manuel Alegre decorreu de forma favorável ao candidato, que se expressou se uma forma inteligente e convincente, deixando bem claros os motivos pelos quais a sua eleição seria positiva para o país e gerindo adequadamente as polémicas que marcaram a campanha (incluindo aquelas das quais Manuel Alegre foi alvo e que rapidamente se viriam a revelar ridículas, desmistificadas com frontalidade e sinceridade pelo próprio).

A campanha não foi perfeita, como é óbvio, e admito que se tenham cometido alguns erros estratégicos. No entanto, não os considero graves, sobretudo porque não encontramos fragilidade na forma como explorou a realidade nacional e definiu as prioridades do seu mandato, nem descobrimos atitudes ilícitas/imorais no modo como se relacionou com os outros candidatos e procurou ganhar popularidade em relação aos seus adversários.

O conservadorismo, o chantagismo e a contrariedade de Cavaco Silva

Por seu turno, Cavaco demonstrou de forma inequívoca o seu conservadorismo, patente na forma como encara a sociedade, a futilidade dos seus conhecimentos em economia (no decurso da sua estratégia de vitimização transmitiu uma imagem de impotência face à crise económica que não se coaduna com o seu estatuto académico na área) e acentuou as suspeitas que contra ele se levantaram, dado que nunca se pronunciou de forma explícita de directa acerca daquilo que verdadeiramente aconteceu, quer no caso BPN quer nos negócios de casas no Algarve.

Já no final da campanha, falaciosamente, Cavaco recorreu a argumentos chantagistas que visam a sua eleição à primeira volta e o tornam um candidato muito contraditório (destacou o dinheiro que o Estado pouparia no caso de não se realizar uma segunda volta das eleições presidenciais, ainda que a sua campanha tenha sido a mais dispendiosa de todas).

Antevisão das Eleições Presidenciais

Em jeito de balanço, fazendo a antevisão dos resultados da eleições, tenho de admitir que, à partida, Cavaco Silva vencerá as presidenciais à primeira volta, sendo reeleito para o cargo com uma percentagem de votos ligeiramente superior a 50% (sem atingir os 58%), ficando Alegre no 2º lugar com uma percentagem compreendida entre 23% e 30% (sensivelmente).

No entanto, as últimas sondagens revelam uma descida de 7% nas intenções de voto em Cavaco Silva, que se situa agora nos 55%, enquanto Manuel Alegre se mantém aproximadamente constante, algures nos 25% ou 28% (as sondagens divergem bastante, como sabemos). Além disso, é sabido que, nas eleições presidenciais de 2006, não se realizou uma segunda volta por apenas algumas décimas, quando as sondagens à boca das urnas davam a vitória a Cavaco com 60% dos votos. Algo semelhante aconteceu em 2001, quando as sondagens concediam 64% a Jorge Sampaio, que viria a ser reeleito com apenas 55% dos votos dos portugueses (confirmem no quadro que vos apresento aqui em baixo).

Nesse sentido, acredito plenamente na realização de uma segunda volta. Acho bastante verosímil que a percentagem de votos de Cavaco Silva se situe entre os 48% e os 52%, ficando Manuel Alegre algures nos 30%, com Fernando Nobre ultrapassando os 10% ou 12% e os outros 3 candidatos, juntos, perfazendo também cerca de 10%. Tudo isto são especulações, mas parece-me que a segunda volta surge claramente como uma possibilidade em aberto.

Balanço Final: Os Resultados, as Circunstâncias, o Desempenho de Alegre e Imagem de Cavaco

Em suma, penso que a boa campanha de Alegre, mas sobretudo a postura desastrosa de Cavaco Silva, não passarão incólumes. Se o actual PR será reeleito? É provável. No entanto, há que destacar o bom trabalho de Manuel Alegre, cujo desempenho nesta campanha superou as minhas expectativas.

A divisão da esquerda, o sorriso falso e muito enganador de Cavaco, a ideia errónea de que precisamos de Cavaco como garantia da estabilidade governativa (os seus tabus e meias palavras são uma ameaça a esse conceito de estabilidade governativa) e a dificuldade em lidar com a mudança manifestada pelas massas populacionais criaram um ambiente hostil para a candidatura de Manuel Alegre. Todavia, ele a sua equipa de campanha tiveram a sagacidade necessária para inverter esta tendência e transformar as eleições presidenciais num acontecimento político desconfortável para Cavaco Silva, cuja irritação e rancor denunciaram o indivíduo repudiável que se esconde por detrás da máscara.

Mas ainda é possível uma segunda volta! Tudo depende daquilo que os portugueses decidirem amanhã… E espero que os meus compatriotas exerçam o seu direito de voto conscientemente, cientes de que na política não existem inevitáveis e das verdadeiras competências de cada um dos candidatos elegíveis.

Portugal e Brasil – Dois irmãos zangados

Todos estarão certamente recordados da polémica que se gerou em torno das declarações da actriz brasileira Maitê Proença num vídeo gravado em Portugal e no qual deliberadamente troçava do nosso país e da nossa cultura. As imagens foram emitidas em todos os canais generalistas portugueses e chocaram a população portuguesa. Ao fim e ao cabo, as pessoas inteligentes, após uma fase inicial em que se sentiram ofendidas no seu orgulho lusitano, acabaram por esquecer, deixando as insinuações sem fundamento de uma pessoa tão ignóbil morrer atropeladas pelo tempo.

Foi nessa altura que o meu colega e amigo Marco Formiga, no seu blogue pessoal lvsitano.net publicou este artigo sobre o sucedido. Revoltado contra este ser reles a quem chamam maitê proença, espelhou a sua fúria enraivecida numa escrita espontânea e ao mesmo tempo criativa, dirigindo alguns insultos muito apropriados à tal senhora.

Nova imagem do blogue do Marco

Os comentários ao post confirmaram a onda de revolta gerada nos leitores do blogue e surgiu inclusivamente uma pessoa de nacionalidade brasileira a criticar o comportamento de maitê proença. E aliás só podia ser assim, tendo em conta a gravidade do gesto da actriz. No entanto, nos últimos dias, um(a) leitor(a) também de nacionalidade brasileira comentou o artigo contestando uma passagem do post do Marco.

O referido excerto, apesar de denotar um espírito de revolta contra a ignorância de maitê proença e um desejo de vingança verbal, está de acordo com os factos e não inventa rigorosamente nada:

“Com certeza que aquela peça infinita de improficuidade não se lembra que foram os portugueses quem chegou ao Brasil e quem lhes deu alguma esperança de progresso, numa altura em que lá só se conheciam as tangas e pobres vestes de homens que ainda viviam na forma selvagem.”

Como vêm, apesar da agressividade aparente e da rudeza com que os factos são referidos, nada disto é ficção: tudo corresponde a um retrato fiel da realidade do achamento do Brasil.

Todavia, não foi isto que o/a senhor(a) JLK pensou. Deste modo, sem nunca faltar ao respeito, este indivíduo criticou a frase do Marco e alegou conter fugas à verdade:

Desculpe, mas isso é mentira.

Os portugueses atrasaram em tudo o nosso progresso. O Brasil só começou a se desenvolver quando chegaram imigrantes de outras nacionalidades (italianos, espanhois, alemães, etc, etc)

Se hoje somos a 8a. economia do mundo e uma potencia industrial é por causa deles, e não dos portugueses, que só espalharam atraso e miséria por onde andaram.

Não é por outra razão que são o país mais atrasado da Europa e são desprezados pelos paises ricos da UE.

Não quero ofender ninguém, mas esta é a realidade.

Pois bem, tenciono fazer uma longa revisão dos factos relativos à História do Brasil, centrando-me na acção dos portugueses e estabelecendo comparações com o papel de espanhóis, italianos e alemães. Se não acharem o tema interessante, nem vale a pena perderem o vosso tempo com isto. Mas para quem tiver curiosidade, dêem uma vista de olhos.

Achamento e Colonização do Brasil

Pedro Álvares Cabral

Para começar: é do conhecimento geral que os portugueses foram o primeiro povo civilizado a atingir a terra que hoje se chama Brasil. Em 1500, o ilustre navegador lusitano Pedro Álvares Cabral, ao serviço de El-Rei D. Manuel I, descobriu ocasionalmente umas terras a sudoeste da Europa, a que chamou Terra de Vera Cruz (tudo isto foi registado no diário de Pêro Vaz de Caminha).

Ora nesta época, os povos brasileiros estavam divididos em tribos primitivas (tupis, guaranis, tapuas, etc…) que viviam em condições precárias, numa constante luta pela sobrevivência. Muitas destas tribos eram rivais umas das outras e ocorriam combates sangrentos pela simples competição pelos recursos naturais. Muitas delas praticavam o canibalismo. Algumas delas eram nómadas, estando atrasadas mais de 10 000 anos na História!

Os portugueses foram-se estabelecendo no Brasil, colonizando estes vastos territórios e dividindo-os em capitanias. Naturalmente que, sendo uma terra da Coroa Portuguesa, os colonos tentavam explorar os recursos locais de acordo com os seus próprios interesses.

Tráfego de Escravos e Exploração Humana

É perfeitamente verdade que os portugueses tentaram escravizar as populações locais, como qualquer outro povo europeu teria feito, mas os ameríndios não conseguiam trabalhar como seria desejado. Então os portugueses iniciaram o tráfego de escravos no Oceano Atlântico, trazendo-os de África em condições verdadeiramente desumanas. É igualmente verdade que, no Brasil, esses mesmos escravos eram muito mal tratados. Mas também é indiscutível que todos os outros povos europeus, sem excepção, recorriam à escravatura neste momento, e quando iniciaram a sua expansão marítima (muito tempo depois de Portugal) também se revelaram grandes adeptos do tráfego de escravos.

São estes os pontos mais negativos da acção dos portugueses no Brasil. Não há desculpas possíveis, todos os portugueses estão conscientes disso e não há maneira de desculpar estas acções terríveis dos nossos antepassados. Agora, temos de perceber que isto era comum no contexto da época, e não exclusivo dos lusitanos. Vir dizer que os portugueses arruinaram o vosso país, e que os outros povos, supercivilizados, foram muito amiguinhos do Brasil… por favor, qualquer outro povo teria cometido as mesmas atrocidades no lugar dos colonos portugueses!

Acção Determinante dos Portugueses

Para lá dos horrores da escravatura, os portugueses fizeram muitas coisas positivas no Brasil. Alguns lusitanos, aventureiros intrépidos, guiados pelos indígenas locais, levaram a cabo interessantes explorações ao interior – as bandeiras – no sentido de desvendar essas extensas áreas desconhecidas e povoar algumas delas. Construíram muitas cidades, além de vias de comunicação e muitas outras infraestruturas, trouxeram equipamentos de Portugal que revolucionaram a vida no Brasil, enfim, lançaram as bases do Brasil, edificando uma verdadeira civilização num local que permanecia em estado selvagem, um infinito agregado de terrenos baldios onde a espécie humana não fazia uso de grande parte das suas capacidades.

Ainda que esse crescimento do Brasil não se tenha verificado de forma tão rápida e organizada como se desejaria, a verdade incontestável é que foram os portugueses quem de facto iniciou a construção do Brasil. Decerto que o Brasil de hoje em dia nada tem a ver com a colónia portuguesa que obteve a sua independência em 1822, e posso mesmo admitir que nesse momento o Brasil não apresentava a prosperidade de outras colónias sul-americanas.  No entanto, o que não se pode negar é que foram os portugueses quem começou a exploração do Brasil, o povoamento destes territórios e toda uma transformação daquela vasta área que possibilitaria o florescimento de um novo país.

Não nego que os portugueses colonizaram o Brasil e moldaram este local de acordo com as suas necessidades momentâneas, encarando-o como uma fonte de enriquecimento da metrópole e não como um futuro país.Neste ponto, poderei concordar com quem disser que os portugueses tiveram uma atitude egocêntrica e pouco visionária, pois não se preocuparam com o futuro daquelas terras e com as gerações vindouras que viriam a constituir a população de um novo país. Mas aqui voltamos à mesma questão? Quem, no seu lugar, não teria agido da mesma maneira? Se os outros povos, nomeadamente os espanhóis, ocuparam de forma diferente as suas colónias, foi porque optaram por um modelo de exploração diferente, criando nos territórios da América do Sul um prolongamento da metrópole espanhola, exactamente com as mesmas característas. Tê-lo-iam feito por preocupação com os países que futuramente viriam a nascer nessas regiões? Obviamente que não! Fizeram-no por a considerarem a forma mais eficaz de tirar partido das colónias fundadas.

Além de tudo isto, apesar de os ameríndios terem sido por vezes maltratados, houve períodos de paz com as tribos locais, tempos de prosperidade em que se trocavam ideias, e em que os portugueses procuravam civilizar os ameríndios. Os padres jesuítas foram exímios nesta vertente humanística, desenvolvendo um trabalho espectacular na defesa das populações locais e no ensino (da língua portuguesa, da cultura, dos costumes, da religião).

Sem dúvida que a intervenção dos portugueses neste território foi extremamente positiva entre 1500 e 1822! Quem disser o contrário, peço imensa desculpa, mas não sabe realmente do que fala. Já para não referir que a independência do Brasil foi obtida sem luta armada entre portugueses e brasileiros, e inclusivamente foi proclamado pelo príncipe português D. Pedro, futuro rei D. Pedro IV.

Praça Mauá, Rio de Janeiro (1820)

Praça Mauá, Rio de Janeiro (1820)

Espanhóis, italianos, alemães… amigos ???

Quanto à acção supostamente benéfica dos outros povos, analisemos caso a caso. Os espanhóis foram a segunda nação europeia a iniciarem o seu processo de expansão marítima (a seguir a Portugal, naturalmente). No século XVI, o poder dos espanhóis foi crescendo, de tal forma que acabariam por alcançar a hegemonia mundial em meados desse mesmo século. Mas saberá por acaso como é que eles conduziam a sua expansão territorial? Adoptaram uma política de conquista, arrasando as populações locais e conquistando todos os territórios recorrendo à violência. Não poupavam ninguém. Sistema utilizado: matar, matar, matar… destruir, devastar, pilhar.

Os portugueses, sempre que encontravam uma população diferente, procuravam comunicar pacificamente, trocar produtos e aprender um pouco com aquela cultura, ao mesmo tempo que enriqueciam a sua. Os espanhóis, esses sim, deixaram um rasto de miséria e destruição por todos os sítios por onde passam, um cheiro sulfuroso a morte e destruição. Cortez no México, Pizarro no Perú, enfim… Mas não, os espanhóis ajudaram o Brasil a encontrar o caminho do progresso… Se os espanhóis tivessem chegado ao Brasil, até eram capazes de construir um grande Império… mas primeiro dizimavam as tribos locais!!! E pelo cenário verificado actualmente na Venezuela, Colômbia, Argentina, e outras antigas colónias espanholas, não me parece que eles fossem assim tão amigos…

Quanto aos italianos, praticamente não tiveram expansão marítima, e o seu imperialismo resumiu-se a algumas colónias africanas no século XIX. O mesmo se pode dizer do povo alemão, que deteve o domínio de certas regiões no continente africano, também a partir do século XIX. Sem dúvida que são povos culturalmente avançados, com culturas interessantes, que por várias vezes contribuíram para o progresso da humanidade.

Mas, em contrapartida, são países cuja história está manchada pela participação na segunda guerra mundial, na qual combateram lado a lado em nome de princípios retrógrados e desumanos como o Imperialismo e o anti-semitismo. O holocausto, que culminou no extermínio de grande parte da população judaica europeia, constituindo seguramente um dos momentos mais vergonhosos e uma das maiores tragédias humanitárias da História, foi obra dos alemães, sempre com o consentimento e a participação dos italianos.

Por isso, não há civilizações perfeitas, e todos os povos têm qualquer coisa de negativo. Dizer que os portugueses semeiam a miséria por todos os sítios por onde passam enquanto espanhóis, italianos e alemães são os amigos que trazem o progresso, não me parece nada verdadeiro nem justo para o povo lusitano.

O segredo do sucesso brasileiro

Não posso excluir a possibilidade de os emigrantes provenientes de diferentes países europeus terem contribuído para o desenvolvimento do Brasil. Tenho perfeita consciência de que, após a independência daquele que é territorialmente o maior país sul-americano, a acção dos portugueses se tornou menos preponderante do que a intervenção de alguns emigrantes europeus. Refiro-me sobretudo os italianos, que deixaram uma herança cultural muito vasta no Brasil.

Mapa do Brasil e respectiva divisão em estados

Mas se o país cresceu e é hoje a 8ª potência económica mundial é graças ao esforço e trabalho desenvolvido por um grupo algo restrito da população brasileira (inferior à metade da população) e sobretudo devido à enorme abundância de recursos naturais em território brasileiro, que confere a este país uma riqueza e um crescimento económico extraordinários, algo que não acontece em Portugal. Naturalmente que aqui também será necessário ter em conta o contexto geopolítico específico do Brasil e as excelentes políticas implementadas pelos recentes governos, liderados por Lula da Silva, um dirigente exemplar a vários níveis (e que, tal como eu defendo neste post, é apologista da união de esforços entre Portugal e Brasil).

Afinal o Brasil está assim tão bem?

Não obstante a sua estabilidade económica, o Brasil só entrou na lista dos países desenvolvidos muito recentemente, em 2008. Isto porque embora economicamente o Brasil seja um país de grande prosperidade, com um PIB muito elevado, continuam a verificar-se grandes problemas sociais e humanos. Os contrastes entre ricos e pobres são ainda abismais e muito frequentes na população brasileira, sendo que os lucros que advêm da exploração dos recursos naturais têm sido tradicionalmente esbanjados em luxos, para aumentar o conforto das minorias abastadas.

Enquanto isso, uma parte muito significativa da população vive em condições precárias, sem ver satisfeitas as condições de saúde e educação mais elementares, não obstantes os recentes progressos que se têm verificado, com a classe média a crescer, mais uma vez em  virtude das boas políticas de cariz social que têm sido postas em prática muito recentemente. Na verdade, por trás das máscaras da gente feliz a sorrir e das imagens das praias paradisíacas da Cidade Maravilhosa (que merece indiscutivelmente esse epíteto), esconde-se a outra face do Brasil: um mundo de sofrimento, luta pela sobrevivência e criminalidade, nas favelas, que ainda são uma realidade.

Felizmente, este fenómeno não se verifica em Portugal (pelo menos desta forma) e as condições de saúde e educação dos portugueses em geral são significativamente melhores do que as do Brasil. Daí que o nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) seja ainda bastante superior ao valor brasileiro.

Portugal – Os coitadinhos da Europa?

É verdade que Portugal está longe de ser um país perfeito. Estamos a enfrentar um período difícil, com vários problemas a nível económico, que por sua vez condicionam em grande medida a nossa situação social, com o desemprego a constituir outro dos grandes problemas da actualidade. Os impostos elevados, os salários baixos e o Estado sem capacidade para dar a volta à situação. Os portugueses, muitas vezes, têm uma visão pessimista da questão que não ajuda nada, pois remete a culpa dos problemas do país para os outros e parte do princípio que não podemos fazer nada para progredir.

Ainda assim, o panorama português na actualidade não é tão negro como se posso pensar, pois estão reunidas várias condições que nos permitem viver minimamente bem e sem enveredarmos pelo caminho sinuoso do caos. Sinceramente, prefiro viver em Portugal do que no Brasil. E há muitos países europeus cuja situação é bem pior do que a nossa. Estamos no meio (vejam as estatísticas, antes de dizerem que não).

O meu patriotismo

“Desfralda a invicta bandeira à luz viva do teu Céu”

Independentemente do facto de o nosso contexto actual ser favorável ou não, eu estou com vontade de melhorar e acho que, com muita união e vontade de trabalhar, conseguiremos ser bem sucedidos na luta por um futuro melhor para o nosso país. Espero que o mesmo aconteça com todos os outros países e acho que estas disputas entre Portugal e Brasil são simplesmente estúpidas. Eu próprio, esclarecida esta questão acerca da interacção entre povos e culturas, prometo encerrar aqui no meu blogue a discussão acerca do tema. Na verdade, já disse tudo o que penso sobre esta questão e não tenciono alimentar mais a polémica.

Sou um português muito patriótico, tenho muito orgulho em fazer parte desta nobre nação e estou disposto a dar tudo o que puder para ajudar o meu país. Estou, no entanto, consciente de que Portugal não é um país perfeito, apresentando vários problemas que é preciso resolver, bem como uma História de altos e baixos, com grandes momentos que causam em mim uma admiração infinita, mas também episódios terríveis, em que os nossos antepassados tiveram um comportamento lastimável.

Isso não invalida em nada a minha veneração à pátria e o meu espírito de amor nacional, antes pelo contrário: vejo os actos grandiosos do passado como uma fonte de inspiração para os desafios futuros e as nossas acções deploráveis como erros do passado, que serão necessariamente evitados nas próximas ocasiões e com os quais é necessário aprender para dar continuidade à evolução cultural da nação e da própria espécie humana.

Por último, gostaria de reafirmar o meu desejo para que estas querelas ridículas entre Portugal e Brasil terminarem depressa e unirmos esforços na luta por um futuro melhor. Os portugueses têm muitas vantagens relativamente aos brasileiros, conforme os brasileiros estão mais avançados em muito aspectos. Penso que seria benéfico para ambos os países um reforço das nossas relações diplomáticas, estimulando uma cooperação saudável, alicerçada no respeito mútuo e na vontade de alcançar um futuro mais sorridente. Se podemos ser felizes e trabalhar em conjunto por um mundo cada vez melhor, por que razão despender energias em querelas idiotas que não levam a lado nenhum?

Não vale a pena entrarmos em discussões estúpidas para provar que “nós somos melhores do que vocês”. A vertente competitiva já está assegurada pelo desporto, em particular pelo futebol de praia, modalidade fantástica na qual os confrontos entre Portugal e Brasil são sempre duelos espectaculares!

Portugal X Brasil no Campeonato do Mundo FIFA Rio de Janeiro 2006