JOÃO MAGUEIJO: Uma História de Coragem

Cosmologista e professor de física teórica em Inglaterra, João Magueijo tem desenvolvido investigações acerca da origem e evolução do universo, estudando os aspectos mais complexos e que ainda se encontram por explicar no âmbito da teoria do Big Bang.

Recentemente, notabilizou-se como autor da teoria VSL (Variable Speed of Light), que procura explicar um dos grandes mistérios da cosmologia moderna (o problema do horizonte) com base no postulado de que a velocidade da luz nem sempre terá sido constante.

Enfrentou uma forte oposição por parte da comunidade científica, que o acusou de anarquia e heresia, simplesmente por colocar em causa os pilares da relatividade e de grande parte dos conhecimentos físicos actuais.

Vida

João Magueijo nasceu na cidade portuguesa de Évora, corria o ano de 1967. Fascinado pelos mistérios da física, cedo descobriu a sua veia científica e leu Einstein pela primeira vez aos 11 anos. Estudou física na Universidade de Lisboa e completou o curso em Cambridge, onde prosseguiu os seus estudos com horizontes mais alargados.

Evidenciou-se de tal forma pela sua inteligência e energia na investigação científica que foi integrado numa parceria de pesquisa com outros cientistas que igualmente se destacaram, no Saint John’s College de Cambridge. Posteriormente, foi membro das faculdades de Princeton e de Cambridge, estando actualmente a leccionar física teórica no Imperial College de Londres. As suas aulas incidem particularmente sobre a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein.

Carreira Científica

Em 1998, João Magueijo trabalhou com Andreas Albrecht naquela que viria a ser uma das mais revolucionárias teorias da física moderna: a VSL (Variable Speed of Light). Conforme explicarei posteriormente, esta concepção científica procura responder ao problema do horizonte supondo que a velocidade da luz teria sido muito superior durante os primeiros tempos de vida do universo.

Uma particularidade interessante associada à criação desta teoria reside no facto de João Magueijo não a ter descoberto sentado à sua mesa de trabalho no escritório, nem tão pouco no decorrer de investigações laboratoriais. Surpreendentemente, toda a teoria partiu de uma ideia que lhe ocorreu enquanto deambulava pelas ruas de Londres, num dia chuvoso, após uma extenuante festa nocturna. Posteriormente, os cálculos matemáticos inerentes à formação da teoria foram realizados durante as suas férias em Goa, e não em ambiente de trabalho.

A teoria VSL encontra-se explicada detalhadamente na obra Mais Rápido do que a Luz: a História de uma Especulação Científica, publicada por João Magueijo em 2003. A teoria também foi dada a conhecer ao mundo através de um documentário exibido no canal Discovery Science, que expõe o essencial da VSL de uma forma simples e sugestiva, estando disponível online.

No entanto, esta proposta de resolução do problema do horizonte gerou uma grande polémica entre os restantes físicos, que viam posta em causa a constância da velocidade da luz, princípio fundamental de toda a física moderna.

Problema do Horizonte

Como se sabe, a teoria do Big Bang, sustentada por diversas provas concretas da sua evidência, sendo actualmente a mais aceite para explicar, em traços gerais, a origem e a evolução do universo, tem ainda algumas lacunas, na medida em que levanta diversas questões para as quais não tem resposta. Uma delas consiste no problema do horizonte, decorrente de informações paradoxais associadas ao universo.

Para compreendermos o problema do horizonte, devemos ter em conta que o universo se encontra em permanente expansão, a uma grande velocidade, o que resulta num afastamento dos corpos celestes, criando distâncias enormes entre eles. Recordemos também que a troca de informação entre duas galáxias tem de se processar necessariamente através da radiação electromagnética, que se desloca a uma velocidade finita (o valor da velocidade da luz no vácuo).

Confrontando os dois factos enunciados anteriormente, verificamos que, devido ao ritmo acelerado da expansão do universo, algumas galáxias nunca poderiam ter estabelecido contacto entre si através da radiação electromagnética, pelo que as suas características deveriam ser necessariamente diferentes. No entanto, as observações astronómicas mostram que, contrariamente aos resultados dos cálculos matemáticos, as galáxias apresentam uma configuração semelhante, um conjunto de características comuns.

Esta incompatibilidade, este antagonismo entre a homogeneidade dos corpos celestes e a impossibilidade de uma troca de informação no passado, constituem verdadeiramente o problema do horizonte. Na tentativa de o resolver, muitos cosmologistas têm realizado diversas investigações, baseados em cálculos e observações cosmológicas, criando diversas teorias, das quais se destaca a teoria inflacionária (teoria da inflação cósmica).

Inflação Cósmica

A teoria da inflação cósmica surge solução mais aceite actualmente para o problema do horizonte e as restantes questões relativas à origem e evolução do universo, associadas ao Big Bang.

Segundo esta teoria, o universo terá passado por uma primeira fase de grande expansão, a uma velocidade descrita por uma função exponencial, motivando um brutal aumento do volume do universo, numa fracção ínfima do seu primeiro segundo de existência. Esta expansão do universo a uma velocidade alucinante seria o resultado de algo tão estranho como uma gravidade repulsiva ou uma densidade de energia no vácuo.

Durante a fase inflacionária, ter-se-á verificado progressivamente a separação das quatro interacções fundamentais, unificadas no início desta era inflacionária. Segundo a teoria, após o período de inflação, o universo terá continuado em expansão, mas a um ritmo muito inferior ao verificado na fase inflacionária.

A teoria da inflação cósmica pretende solucionar o problema do horizonte partindo do pressuposto de que, antes da era inflacionária, toda a matéria estava condensada, em condições que favoreciam a ocorrência de interacções. Considerando que as propriedades físicas teriam surgido no início da era inflacionária, quando todas as partículas do universo se encontravam concentradas de um modo que permitia a troca de informação entre elas, teria ocorrido uma homogeneização das características do universo nesses instantes primordiais da fase inflacionária.

Assim, as semelhanças registadas actualmente entre galáxias de locais distintos do universo serão, de acordo com a inflação cósmica, o resultado de uma interacção entre todas as partículas ocorrida no início da era inflacionária, quando toda a matéria ainda se encontrava agregada. Esta teoria resolve assim o problema do horizonte, desfazendo o paradoxo que está na sua origem. Porém, a teoria não encontra facilmente uma confirmação ao nível das observações cosmológicas, possibilitando o surgimento de hipóteses alternativas, como a teoria VSL (Variable Speed of Light) de João Magueijo.

VSL (Variable Speed of Light)

Não encontrando evidências observacionais que pudessem comprovar a veracidade da teoria inflacionária, João Magueijo questionou esta visão do universo e procurou uma concepção diferente, que também permitisse solucionar o problema do horizonte. A sua investigação debruçou-se sobre uma hipótese muito simples, mas de tal modo radical que nunca ninguém antes ousara colocar: e se a velocidade de luz não tivesse sido sempre constante?

Como se sabe, a constância da velocidade da luz representa um dos postulados fundamentais nos quais assenta a física moderna. Princípio subjacente à relatividade einsteiniana, a velocidade da luz é uma das constantes dimensionais nas quais se baseia toda a compreensão da estrutura e evolução do universo. Ainda assim, João Magueijo deu seguimento à exploração desta hipótese e atingiu conclusões bastante interessantes, nascendo a teoria VSL.

Em traços gerais, João Magueijo propôs que a velocidade da luz nem sempre tivesse tomado o valor actual da velocidade da luz no vácuo, não sendo por isso constante ao longo do tempo. De acordo com as suas pesquisas, quando o universo ainda era jovem, a velocidade de propagação da luz terá sido muito superior ao valor verificado actualmente: cerca de 60 vezes superior a c.

Como resultado, a troca de informação entre corpos celestes em expansão teria sido possível, através de uma transferência de radiação electromagnética. Tal fenómeno conduziria a uma homogeneização do universo, responsável pela semelhança nas características das galáxias que se constata a partir das observações astronómicas do presente. Posteriormente, a velocidade da luz teria diminuído abruptamente, fixando-se nos 300 mil milhões de metros por segundo. Assim, João Magueijo encontra uma resolução simples do problema do horizonte, contornando a inflação cósmica, embora tal inovação implique colocar em causa a constância da velocidade da luz, sobre a qual assentam grande parte dos fundamentos da física moderna.

Contestação da VSL

Conforme expliquei anteriormente, a sugestão de que a velocidade da luz possa não ter sido constante ao longo da História do universo questiona inevitavelmente as bases da teoria da relatividade, da autoria de Einstein, considerada um dos pilares mais preciosos da física moderna. De facto, colocar em causa a constância da velocidade da luz significa duvidar de todo o conhecimento físico da actualidade, ao abalar de forma violenta os fundamentos das teorias que procuram explicar o universo. Esta é uma das razões, porventura a principal, pela qual a teoria VSL tem sido tão criticada pela comunidade científica.

Por outro lado, a teoria VSL apresenta o defeito de se encontrar excessivamente direccionada para o problema do horizonte, revelando-se, pelo menos até ao momento, incapaz de responder às outras questões colocadas em relação à origem e evolução do universo, nomeadamente o problema da planaridade do universo e o problema dos monopólos magnéticos.

Além disso, outros cientistas, como Ellis e Uzan, acusam João Magueijo de ter fundado uma teoria científica baseada apenas numa alteração das equações matemáticas inerentes às leis da física, sem se basear num princípio científico subjacente. De acordo com estes investigadores, a VSL seria apenas o resultado de um jogo de cálculos, nascendo uma solução para o problema do horizonte baseada nestas vagas experiências matemáticas.

Como resultado, João Magueijo tem sido visto pela comunidade científica como um anarquista, sendo os seus estudos conotados com heresias e radicalismos. A suposta ausência de sentido nas suas investigações leva os outros físicos a tecer estas acusações insultuosas a um colega de trabalho que tem lutado arduamente pelo mesmo sonho que eles, apenas por decidir inovar e apresentar ao mundo uma teoria nova, que questiona as concepções anteriores. Assim, visto como um físico rebelde, João Magueijo tem sido descredibilizado pela generalidade da comunidade científica.

A reacção de João Magueijo

No documentário produzido para a Discovery em 2008, Magueijo apresentou a sua forma serena de enfrentar a grande oposição que enfrenta por parte da comunidade científica, procurando conservar-se relativamente indiferente em relação à chuva de críticas dirigidas às suas pesquisas e prosseguindo tranquilamente as suas investigações.

Com alguma ironia à mistura, João Magueijo considera normais as críticas que vão surgindo em resposta à sua teoria, admitindo que muitas pessoas possam recusar admitir a possibilidade de a velocidade não se ter mantido constante ao longo da História do universo. Entendendo a relutância dos físicos em proceder a uma reformulação da teoria da relatividade e compreendendo a inexistência de evidências que confirmem a VSL, João Magueijo não se deixa importunar por quem insistentemente o critica e continua a desenvolver as suas investigações nesses capítulos.

Conforme afirma na parte final do documentário, a física é construída a partir do surgimento de várias teorias que procuram explicar os fenómenos, sendo posteriormente confrontadas umas com as outras, confirmadas ou refutadas com base em evidências observacionais e reformuladas para fazer face às novas exigências. Este dinamismo subjacente a toda a ciência é suficiente para tornar valiosa a sua VSL, pois constitui uma alternativa bem fundamentada às restantes teorias cosmológicas, podendo eventualmente estar certa, ou pelo menos parcialmente. O documentário fecha com uma afirmação épica de João Magueijo, encarando a possibilidade de a sua teoria estar errada:

And if it doesn’t work, who cares? I got a million other ideas.

Obrigado, João Magueijo! Os portugueses estão consigo e apoiam o seu exemplo de coragem!

A água é azul: crianças e cientistas são menos afectados por daltonismo

Envolto na alternância entre o diletantismo e a veia laboral do fim-de-semana, alguns instantes antes do almoço, decidi iniciar a realização dos trabalhos de casa da disciplina de FQ A. Pegando no manual de Química e lançando a minha mente na leitura do texto que o professor seleccionara, estava a começar a ganhar interesse pelo tema abordado, quando me deparei com uma revelação surpreendente, que muito me espantou:

Pode pensar-se que os oceanos são azuis porque a água dos oceanos reflecte o azul do céu ou porque contém impurezas coradas, tais como sais de cobre. Mas a resposta é outra! A água tem uma cor própria. A água absorve luz vermelha no extremo do espectro visível, transmitindo a cor complementar, que é o azul celeste. A água que bebemos parece incolor porque a sua cor é muito ténue e é pouca a água no copo. Quando vemos uma grande massa de água (lagos, rios ou oceanos) apercebemo-nos logo da sua cor azul.

Nota: O livro de Química a que me refiro trata-se do manual escolar 11 Q, Física e Química A, Química – Bloco 2, da Texto Editores, escrito por João Paiva, António José Ferreira, Graça Ventura, Manuel Fiolhais e Carlos Fiolhais, numa edição datada de 2009. A passagem que pode ser lida acima diz respeito ao artigo “A água e a atmosfera”, correspondendo o excerto apresentado ao segundo parágrafo do texto, que se situa na página 86 do manual.

O mar, essa inesgotável fonte de mistérios infinitos, reluzindo na beleza do seu esplendor celeste.

O mar, essa inesgotável fonte de mistérios infinitos, reluzindo na beleza harmoniosa do seu esplendor celeste. O azul dos oceanos é mesmo muito especial.

Boquiaberto com a novidade arrebatadora que acabara de receber, li o parágrafo atentamente, totalmente concentrado na mensagem poeticamente subtil, veiculada por aquelas linhas muito simples, mas simultaneamente tão profundas. Procurei saborear cada palavra do excerto em todo o seu esplendor celeste, como se da revelação do segredo do universo se tratasse. De facto, a notícia não poderia ter tido mais impacto em mim, ao abalar radicalmente as minhas concepções acerca da cor do líquido da vida. Quem diria que a água é mesmo azul…

Percurso Pessoal

Quando somos pequenos e começamos a conhecer o mundo, somos levados a colocar questões sobre tudo e todos, sem limitações, na atitude natural de quem não compreende e quer compreender, não sabe e quer saber, na ânsia de descobrir as causas de tudo o que nos rodeia. Nesse tempo, vulgarmente designado idade dos porquês, não aceitamos nada só por si, queremos realmente entender as relações entre as coisas, para podermos conhecer a origem dos fenómenos, interrogando, para isso, os vultos de autoridade à nossa volta que nos inspiram confiança. As perguntas relativas aos motivos da coloração do mar e do céu são algumas das questões mais frequentes.

A água, responsável pela cor azul do nosso planeta, é a mãe de toda a vida na Terra.

A água, responsável pela cor azul do nosso planeta, é a mãe de toda a vida na Terra.

Com base na minha experiência pessoal, que provavelmente se assemelha à de muitas outras pessoas, posso dizer que uma das dúvidas que mais confusão suscitava em mim era a razão pela qual a água do mar era azul, sendo a água dos copos e das garrafas transparente. Não fazia qualquer sentido! Inicialmente, confrontado com esta grande ambiguidade acerca da cor da água, fui levado a acreditar que a água era azul à partida, pois a ideia de azul era mais apelativa para mim, tal como a concepção do mar era mais preponderante do que a ideia de um bocadinho de água num copo. Porém, por qualquer razão, quando a quantidade de água era pequena, o raio do líquido como que perdia a cor! Era muito estranho… A água devia mesmo ser uma coisa muito especial.

No entanto, tendo em conta as respostas que iam surgindo em redor e com base na minha interpretação dos fenómenos, fui alterando a minha opinião, gradualmente, ao longo dos anos. Começava a ver a água como uma coisa realmente transparente, sem cor, cultivando a ideia de que o azul do mar se devia a qualquer razão associada ao fundo dos oceanos. À medida que ia progredindo na escola, frequentando as aulas de ciências naturais, ou talvez mesmo antes disso, fui confrontado pela primeira vez com a expressão incolor, a propósito da água, que vinha confirmar a minha ideia anterior de que a água não tinha cor própria.

De resto, o aprofundamento dos meu conhecimentos científicos nos anos seguintes e o desenvolvimento das minhas faculdades racionais ia construindo explicações cada vez mais aceitáveis para a coloração azul dos oceanos. Talvez o motivo se prendesse com as elevadas concentrações de sais da água do mar… Ah! Mas os rios e lagos também eram azuis e praticamente não tinham sal! De qualquer forma, a água doce também poderia conter outras impurezas que conferisse uma cor azulada a qualquer reserva de água do planeta… Por fim, ainda se mantinha de pé a teoria segundo a qual os solos seriam os principais responsáveis pela coloração da água, com o azul a ser proveniente de certas substâncias existentes nos fundos ou libertadas por eles…

Todas estas hipóteses, por muito racionais que sejam, afluíam à minha mente de uma forma muito mais desorganizada do que aquela a que recorri neste parágrafo. Este pragmatismo coerente nunca esteve presente nas minhas descontraídas análises do problema em questão, suscitadas por raros fluxos de inspiração metafísica, que me tomavam em momentos de contemplação marinha. Ao fitar a vastidão azul do oceano, no seu brilho descomunal e misterioso, era tomado por um sentimento de admiração profunda, mas incompreendida, sendo que a insatisfação cognitiva do meu ser me impelia a questionar as causas de tão grande beleza natural. Porém, a poesia do mar restringia a minha frieza racional, mitigando o meu poder de pensamento, lentamente absorvido pela suave brisa emanada pelo oceano.

Agora: a verdade surge, rompendo por entre a neblina

Cascatas de Água Azul, em Chiapas, no México.

Cataratas de Água Azul, em Chiapas, no México. A cor azul da água é bem evidente nesta prodigiosa maravilha natural do nosso magnífico planeta.

Agora sei a verdade. Contudo, foi preciso esperar 16 anos e 10 meses para conhecer realmente o motivo da coloração azul dos oceanos! Uma questão tão simples, com uma resposta tão bela e subtil, ao meu alcance há tanto tempo, pelo menos em contornos gerais, mas que eu só descobri hoje, por um acaso escolar fortuito. Mesmo considerando a componente mais científica da questão, não é assim tão difícil entender que a água absorve a radiação vermelha, transmitindo a radiação no extremo oposto do espectro visível, que corresponde ao azul! Tratam-se de conhecimentos básicos leccionados no 3º ciclo que todos a população devia dominar! E, mesmo assim, quantas pessoas há por esse país fora, e por esse mundo, que não conhecem a verdadeira razão da cor azul do mar? E quantas não saberão sequer que a água é, em si mesma, azul? É curioso, não é?

Na verdade, o meu percurso ao longo dos anos, no que respeita à descoberta da solução para este enigma, pode ser descrito muito facilmente. Comecei no zero, quando nasci, pois nada sabia do mundo em redor. No entanto, enquanto ia dando os primeiros passos neste planeta, fui começando a adquirir dados que me permitiram colocar questões, para as quais apenas encontrava respostas incompletas, numa fase em que conhecia a verdade, pois julgava que a água era efectivamente azul.

Posteriormente, a falta de conhecimento das causas e a interpretação incorrecta dos dados levou a minha mente a cometer erros, tirando conclusões precipitadas, pelo que a minha opinião se alterou drasticamente, afastando-se da verdade. Esta foi, indubitavelmente, a pior fase de todas, dado que eu achava ser detentor da verdade, quando nada sabia realmente, numa ignorância cega semelhante àquela que produz o preconceito. Felizmente, a atenção do meu professor de Física e Química a pormenores desta natureza não consentiu o prolongamento deste sono cognitivo e acordou a minha alma científica para a mais linda verdade natural.

Filosofia e Ciência: semelhança na diferença

Não posso deixar de fazer uma analogia entre este pequeno fragmento da história da minha vida e a tese defendida pela maioria dos filósofos, magistralmente apresentada por Jostein Gaarder na sua obra O Mundo de Sofia, que aconselho a todos os leitores. Passo a apresentar essa mesma mensagem, contemplando os vários aspectos em causa:

O filósofo e autor norueguês Jostein Gaarder e a sua mais famosa obra, O Mundo de Sofia. Aconselho vivamente a sua leitura a todas as pessoas interessadas em aprender, pois constitui uma experiência fenomenal no conhecimento da realidade humana e do universo, embarcando o leitor numa viagem alucinante pela História da Filosofia Ocidental.

O filósofo e autor norueguês Jostein Gaarder e a sua mais famosa obra, O Mundo de Sofia. Aconselho vivamente a sua leitura a todas as pessoas interessadas em aprender, pois constitui uma experiência fenomenal no conhecimento da realidade humana e do universo, embarcando o leitor numa viagem alucinante pela História da Filosofia Ocidental.

Nos primeiros anos de vida, as crianças, curiosas por natureza, questionam tudo o que lhes surge diante dos olhos, adoptando a atitude filosófica por excelência: duvidar do mundo, com uma grande abertura espiritual. Ao longo do processo de crescimento, as pessoas vão aceitando as respostas que lhes são apresentadas, conformando-se com as soluções vindas do exterior (ou do interior) sem as questionarem e testarem, perdendo as suas faculdades filosóficas. Podem, contudo, regressar aos tempos de criança, tornando a duvidar das respostas que lhes são impostas pela sociedade ou por elas próprias, adoptando uma perspectiva ponderada e crítica em relação a tudo, o que as pode conduzir a grandes progressos na procura da verdade. Quando alguém toma tal atitude, um novo filósofo nasceu!

O autor norueguês de O Mundo de Sofia consegue ilustrar esta situação na perfeição com o recurso à alegoria da pelagem do coelho. Nesta situação, a criança começa por ocupar a camada superficial do pêlo, numa posição privilegiada para a contemplação da verdade, simbolizada pela realidade exterior ao coelho. O processo de crescimento corresponde a um escorregamento do indivíduo para as camadas mais profundas da pelagem, onde permanecerá em completa escuridão, obscurecido pelas ideias preconcebidas que alimenta, longe da luz e claridade do mundo exterior. Porém, o filósofo tem a virtude de não se deixar satisfazer pelas respostas provisórias que lhe são apresentadas e inicia uma longa e difícil ascensão ao longo do pêlo do roedor, procurando a verdade universal, a pureza da luminosidade exterior!

Com a minha experiência acerca da cor azul da água sucede exactamente a mesma coisa! Comecei por estar perto da verdade, mas a falta de conhecimento das causas impeliu-me para os reinos da escuridão, até um súbito raio de luz iluminar o meu espírito originalmente curioso, mas confinado a ideias falsas, trazendo-me de volta aos domínios da claridade, e desta vez de forma definitiva, tendo em conta a existência de um elo de sabedoria. A principal diferença em relação à tese descrita reside no facto de esta minha história estar ligada a um assunto fantástico de carácter científico, enquanto a teoria descrita anteriormente se refere à filosofia em todo o seu esplendor.

Afinal, as crianças estão mais perto da verdade, ao serem levadas pela sua força espiritual interior a acreditar no que os sentidos lhes dizem, que a água é azul. E certos estão também os cientistas, que, tomados pela sede de conhecimento, investigam arduamente os vários pontos da questão, acabando por descobrir a verdade, compreendendo os motivos que explicam o fenómeno. E, assim, só as crianças e os cientistas conhecem a verdade, ao contrário das outras pessoas, que ignoram a verdadeira cor da água, quando a resposta está diante dos seus olhos. Da mesma forma, em questões do foro filosófico, são as crianças e os filósofos quem está em contacto com a verdade (ou mais perto dela).

O azul da água é uma verdade universal, que pode ser confirmada cientificamente. Uma vez esclarecidas as sempre interessantes questões da Física, deleitemos a alma com a beleza nostálgica dos azuis marinhos. Inspiremos a aragem profunda emanada pelos mares e deixemo-nos levar pela melancolia macia das águas, ao sabor das ondas celestes do implacável oceano.

O azul da água é uma verdade universal, que pode ser confirmada cientificamente. Uma vez esclarecidas as sempre interessantes questões da Física, deleitemos a alma com a beleza nostálgica dos azuis marinhos. Inspiremos a aragem profunda emanada pelos mares e deixemo-nos levar pela melancolia macia das águas, ao sabor das ondas celestes do implacável oceano.

Assim se prova que, apesar de se tratarem de áreas mesmo muito diferentes,  a filosofia e a ciência apresentam muitas coisas em comum, sendo a principal semelhança esta atitude de questionar, duvidar das nossas respostas aos problemas do mundo e vontade de descobrir a verdade. É esta a base de qualquer tipo de conhecimento e, consequentemente, de tudo o progresso da humanidade.

Dedicatória

Para terminar, gostaria de expressar e minha vontade de que este post fosse recordado como um hino à juventude e, em particular, à infância, dedicando o texto a todas as crianças cientistas e filósofas do mundo no momento em que este post está a ser lido.

EUSO 2009: um ano depois (as provas)

Foi precisamente no dia 5 de Abril de 2009 que a comitiva portuguesa das EUSO Murcia 2009 regressou a casa, trazendo moralizadoras e merecidas medalhas de bronze, mas, acima de tudo, memórias fantásticas de uma semana inesquecível.

Deste modo, assinalando o primeiro aniversário da chegada dos jovens cientistas à pátria,  pretendo recordar aqui os melhores momentos das Olimpíadas de Ciência da União Europeia do ano passado, evidenciando os motivos que tornaram esta aventura uma experiência tão enriquecedora e memorável.

As provas: grandes testes ao nosso potencial e lições para o futuro.

Seguindo as normas da organização, os testes das EUSO 2009 envolviam sempre uma componente experimental e uma vertente teórica. Genericamente, podemos dizer que o trabalho laboratorial era a base de tudo, uma vez que a avaliação dos grupos residia nos registos de medições e resultados, bem como nas respostas a questões relacionadas com as actividades a realizar.

Foram realizadas duas provas: uma no dia 31 de Março (3ª feira) e outra no dia 2 de Abril (5ª feira). Ambas as provas estavam divididas em 3 partes, referentes aos três domínios da ciência abordados, passo a citar, a Biologia, a Química e a Física. No entanto, não deixou de ser curioso que, no teste do dia 31 de Março, o segmento de Biologia se tratasse, na verdade, de uma actividade de Química, com um pequeno exercício no final sobre o ciclo de vida do bicho-da-seda.

De um modo geral, para quem não estiver interessado em ler  informação específica sobre cada uma das provas, posso dizer que foram muito interessantes, estimulando o nosso espírito científico e desenvolvendo a nossa capacidade de resposta a problemas inéditos. Fomos a Espanha com o intuito de honrar o nosso país, procurando ultrapassar as dificuldades que certamente iríamos encontrar, na tentativa de superar o nosso melhor. Ao mesmo tempo, participámos nesta grande competição científica tendo como propósito aprofundar os nossos conhecimentos nas nossas áreas predilectas e desenvolver competências fundamentais para a nossa formação e carreira.

Pois bem, não poderíamos ter sido mais bem sucedidos nestes objectivos, algo que podemos confirmar pela extraordinária evolução que protagonizámos do primeiro para o segundo teste. Por isso vos digo: foi formidável!

Competências adquiridas:

  • encarar situações novas
  • reagir a adversidades
  • trabalhar em equipa
  • aprender com os erros

1ª prova: fibras têxteis

Cada prova estava subordinado a um tema em concreto, que funcionava como mote de todo o teste. Na primeira prova, o tema central eram as fibras têxteis, dado que 2009 foi considerado o Ano Internacional das Fibras Naturais. A parte de Biologia, ou melhor, a primeira parte de Química, girava em torno da temática da seda e do famoso bichinho que produz esta fibra natural, devido ao simbolismo da cultura da seda naquela região de Espanha. E, se a segunda actividade de Química incluía uma titulação e a síntese artificial de nylon, a parte de Física baseava-se numa comparação das propriedades da seda e do nylon.

Não nos correu bem esta prova. O nosso grupo estava habituado a trabalhar em conjunto durante na totalidade do tempo, realizando todas as actividades do teste colectivamente. Ora acontece que este sistema tinha muitas vantagens  nas provas das Olimpíadas de Física, onde a sua utilização nos tinha catapultado para o primeiro lugar nas regionais e nas nacionais, mas não se aplicava ao modelo de prova das EUSO, com três actividades complicadas, repletas de problemas novos para nós, que exigiam muito tempo e toda a nossa concentração.

Durante a prova, encontrámos diversas contrariedades contra as quais nada podíamos fazer, e outras que, com mais experiência de laboratório e concentração em alguns instantes, talvez tivéssemos conseguido ultrapassar. O estado de saúde do Duarte, um bocado adoentado, com sintomas de gripe, veio prejudicar o nosso desempenho, apesar da atitude aguerrida do nosso companheiro de equipa. Outro aspecto altamente imprevisível que nos impediu de triunfar foi as deploráveis condições das balanças da universidade, cujos pratos não estavam completamente fixos, impedindo assim uma medição rigorosa das massas, que nos fez errar o cálculo das densidades.

No entanto, o resultado teria sido muitas vezes melhor se tivéssemos terminado a prova, algo que não aconteceu devido à nossa deficiente divisão de tarefas, ou se tivéssemos encarado as questões com mais atenção, pois tínhamos capacidade para fazer melhor, não fossem as condicionantes de tempo e a grande dimensão da prova. Resultado final: 31 pontos num total de 94 possíveis. Um novo record nas nossas carreiras de estudantes: a pior classificação de sempre (como o Duarte fez questão de referir, com humor).

Os testes exigiam mais experiência de laboratório e uma tripartição do trabalho, com um aluno especializado em cada uma das actividades. Não era difícil entender isto, mesmo para quem pensava que a prova tinha corrido bem (que ingenuidade, a nossa). De facto, sentimos que não tínhamos feito má figura, uma vez que havíamos percebido os conteúdos abordados e tínhamos realizado praticamente todos os trabalhos laboratoriais (como eu disse depois no hotel, “não perdemos o comboio da ciência”). No entanto, os pontos residiam nas questões, e nesse capítulo tínhamos cometido demasiados erros…

2ª prova: sumos de fruta

Se bem me lembro, o teste do dia 2 de Abril centrava-se no estudo dos sumos de fruta segundo diferentes perspectivas. A parte de Biologia, desta vez incidia realmente sobre a ciência da vida, girava em torno da observação microscópica de seres vivos de de diferentes reinos, que suscitava questões diversas, estando de alguma maneira relacionada com a questão dos sumos (não me recordo exactamente como). A actividade de Química, por sua vez, voltava a incluir titulações e diversos cálculos envolvendo moles, enquanto o grupo de Física tinha como grande objectivo a determinação da capacidade térmica mássica do sumo (utilizando água em substituição deste líquido).

Tirando preciosas ilações da prova anterior, optámos por uma inteligente divisão de tarefas, desdobrando a nossa equipa nos seus três membros constituintes: Frederico, o biólogo, Duarte, o químico, André, o físico. E assim, motivados pela perspectiva de uma grande prova, demos início às actividades, cada um responsável pela sua parte, após um curto período de análise do teste em conjunto. Naturalmente que também houve entreajuda nesta prova, mas ocorreu de uma forma muito mais estratégica e profícua do que na ocasião anterior.

Firmes no nosso propósito, com uma postura correcta face aos trabalhos propostos, não recuámos perante as adversidades e fizemos frente aos problemas, contornando as barreiras que se nos afiguravam. Todos nos confrontámos com situações de difícil resolução, mas uma análise cuidada das circunstâncias e muita determinação na tentativa de corrigir os erros permitiram encontrar as soluções adequadas. Quando precisávamos da ajuda de um colega, quer para questões técnicas quer em termos de conhecimentos, não hesitávamos em pedir e o nosso compatriota vinha prestar auxílio tão rapidamente quanto as suas actividades o permitiam. Funcionámos muito bem.

No fim, eu, que cooperei activamente com os meus colegas, intervindo nas várias partes da prova, e tinha compreendido perfeitamente todos os exercícios do segmento de Física, acabei por não conseguir chegar aos resultados desejados. Porquê? Pela mesma razão pela qual não conseguíramos determinar as densidades do nylon e da seda no primeiro teste: balança com o prato mal colocado. Já me debati diversas vezes com a questão e a conclusão é inevitável! Um mau posicionamento daquela peça da balança prejudicou as medições das massas de água, influenciando todos os resultados na mesma ordem de grandeza, visto que o gráfico obtido era uma recta, mas em vez de passar pela origem interceptava o semieixo positivo das abcissas.

Tentei de tudo para rectificar a situação, mas já era tarde e tive de trabalhar com os dados que tinha, até porque sabia que o meu procedimento estava correcto! Depois, todos os exercícios ficaram errados, em cadeia, e eu nada podia fazer! Se não fosse o raio da balança… aqui está um parâmetro em que o material da nossa escola tem alguma superioridade!

No final, viemos a saber que a nossa classificação nesta prova tinha sido de 70 pontos num universo de 86 possíveis. Nada mau! Fizemos grandes progressos relativamente ao teste anterior! E, aparentemente, as minhas peripécias com a balança não tiveram um efeito demasiado negativo no resultado final, posto que preenchi correctamente os registos, elaborei um gráfico de acordo com os meus dados e ainda acertei a uma questão de escolha múltipla. Fui penalizado nos valores das massas, no cálculo da capacidade térmica mássica e nas duas alíneas que se seguiram, dependentes da determinação de c. De resto, como o motivo do meu erro foi uma questão exterior à minha responsabilidade, e também participei activamente nas respostas ao questionário de biologia, cooperando magnificamente com o Fred, fiquei de consciência tranquila e sinto que cumpri o meu dever como membro da equipa.

E assim se demonstrou que o trio de cientistas do Restelo tinha um imenso valor e aprendera imenso com a experiência do primeiro teste! Se, no dia 31 de Março, tínhamos conseguido não perder o expresso europeu da ciência, na segunda prova não só apanhámos o comboio, como também chegámos ao fim da linha! Ou pelo menos ficámos perto. Como disse a professora Isaura Vieira, da DGIDC, “se tivesse havido uma terceira prova…”.

Aviso: mais tarde falarei sobre os outros aspectos das EUSO 2009.

Temporal na Madeira e Entrevista a Alberto João Jardim

Como todo o cidadão minimamente informado sabe, no passado dia 20 de Fevereiro, a Ilha da Madeira foi assolada por um forte temporal que provocou graves danos humanos e materiais. Neste post tenciono proceder a um balanço final da catástrofe, explorando as causas do temporal, e relatar o essencial da Grande Entrevista a Alberto João Jardim, conduzida por Judite de Sousa, na RTP1. Deixarei as minhas impressões pessoais acerca dos diversos assuntos abordados e tentarei dar a conhecer o outro lado da questão: a estupidez desmedida e hilariante do presidente do Governo Regional.

O Temporal

Situada numa posição climaticamente desfavorável, que propicia a ocorrência de grandes tempestades oceânicas, a ilha encontra-se sempre sob a ameaça dos ventos e chuvas atlânticas. As baixas pressões que frequentemente afectam esta zona do globo terrestre são  responsáveis pela ocorrência dos temporais na ilha. A convergência de massas de ar a diferentes temperaturas cria uma superfície frontal, que, associada às altas temperaturas da água do mar, acelera o processo de condensação do vapor, aumentando a precipitação.

Foi o que sucedeu recentemente, quando a ilha mais representativa do arquipélago português foi impiedosamente fustigada pela fúria dos elementos, por meio da precipitação descomunal que se fez sentir, motivando a subida do nível médio das águas do mar. Estes fenómenos geraram inundações aterradoras, pavorosos deslizamentos de terras e toda uma conjugação de condições atmosféricas agrestes.

Consequências da Tragédia

Se atendermos ao balanço final da tragédia, somos confrontados com a realidade nua e crua.  Em termos de vidas humanas, a situação foi trágica: 42 pessoas morreram, 18 foram dadas como desaparecidas e aproximadamente 250 ficaram feridas. Considerando os estragos materiais, com graves consequências a nível social, apercebemo-nos que inúmeras edificações e vias de comunicação foram destruídas, levando a que cerca de 600 pessoas perdessem a habitação, algumas zonas da ilha permanecessem inacessíveis durante algum tempo e as redes de abastecimento de água e electricidade deixassem de estar operativas em vários pontos da ilha.

Os municípios do Funchal e da Ribeira Brava foram os mais afectados, registando a esmagadora maioria das vítimas humanas e os estragos materiais mais consideráveis. A frente fria atingiu violentamente vários pontos da costa meridional da ilha. Devastação brutal na parte baixa do Funchal, com a subida do nível das ribeiras e o transporte de pedaços de terra e lixo pelas ruas da capital, onde se verificou um elevado número de óbitos e os estragos foram mais acentuados. Porém, também as terras altas do concelho, desfavorecidas pelo relevo desta região madeirense, foram fortemente atormentadas pela insensibilidade do temporal. A Ribeira Brava, o Machico e outras zonas da costa sul da ilha foram também bastante afectados, embora de uma forma menos violenta. O prejuízo económico da catástrofe para o Governo Regional da Madeira foi enorme.

Reacção à Catástrofe

Imediatamente, o caos foi instaurado na Ilha da Madeira e surgiram de todos os cantos do mundo condolências pelo sucedido e ofertas de ajuda financeira. Ao mesmo tempo, o Primeiro-Ministro José Sócrates viajou para o Funchal na noite desse mesmo dia 20 de Fevereiro e o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva visitou o local no dia 24 de Fevereiro. O apoio monetário tendo em vista a reconstrução das partes da ilha que tinham ficado mais afectadas parecia provir de todas as entidades possíveis: o Estado Português, a União Europeia, os Estados Unidos da América, a Confederação Russa, várias empresas portuguesas e estrangeiras e inúmeras instituições não governamentais de cariz humanista.

No entanto, importantes questões se colocavam. Afinal, qual seria o montante necessário para a reconstrução de todas as edificações que tinham ruído? E de onde viria exactamente esse dinheiro? Como voltar a fornecer alojamento condigno aos mais de 600 madeirenses sem um tecto para os proteger das intempéries? E o que fazer para minimizar os efeitos de uma eventual catástrofe semelhante no futuro?

Foi com base nestas e outras questões que a muito conceituada Judite de Sousa (este adjectivo não quer dizer que eu sinta uma grande admiração pelo seu trabalho) teve a ousadia de se deslocar à Quinta da Vigia, residência oficial do Presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira, para entrevistar o emblemático e inigualável Alberto João Jardim, no passado dia 25 de Fevereiro.

Alberto João Jardim

Todos nós conhecemos o presidente madeirense: membro do PSD, com uma vasta carreira política, chefe do governo regional da Madeira há mais de 30 anos, um pequeno ditador, vá. Não passa de “um indivíduo medíocre” sem educação e grandes princípios morais, que aproveitou a época conturbada da revolução do 25 de Abril para tirar um curso superior sem precisar de estudar, que se tem mantido no poder à custa da sua esperteza ignóbil e da ignorância do povo madeirense (refiro apenas a parte), que tem explorado ao máximo os recursos económicos e financeiros disponibilizados pelo continente, capaz de prejudicar a situação a metrópole a fim de concretizar os seus desejos de realização pessoal.

Capitais para a Reconstrução da Ilha

Durante a meia hora que durou a entrevista foram focados vários pontos e retiradas diversas ilações importantes. Acima de tudo, ficou bem assente logo na parte inicial da conversa que Alberto João Jardim considera necessários 1 500 milhões de euros para reconstruir a Ilha da Madeira, num espaço de tempo de 2 anos.

Quando confrontado com a questão da origem dos fundos a aplicar no projecto de recuperação da região, o presidente acabou por conseguir escapar aos estratagemas enganosos da Judite de Sousa e deu uma explicação muito segura. Segundo Jardim, todas as nações e organizações não governamentais tiveram uma atitude exemplar face aos trágicos acontecimentos que afectaram a ilha da Madeira, expressando as suas condolências e oferecendo um apoio financeiro muito significativo para a reconstrução das regiões atingidas pela catástrofe. Asseverando que estes apoios se teriam de materializar forçosamente no futuro, pois quem promete grandes ajudas monetárias não pode deixar de prestar esse auxílio, e enveredando pela via do crédito bancário, pedindo empréstimos a pagar ao longo dos anos seguintes, o presidente madeirense rejeitou quaisquer impossibilidades financeiras.

Responsabilidade na tragédia

Posteriormente, a jornalista questionou Alberto João Jardim acerca das suas eventuais responsabilidades em relação aos estragos verificados na ilha. Ora não há dúvida nenhuma de que os danos causados pelo temporal foram agravados em grande medida pela deficiente limpeza das ribeiras madeirenses, as fragilidades estruturais de certas habitações e problemas ao nível do ordenamento do território, tais como a construção em leito de cheia e a construção em zonas com risco de deslizamentos. Contudo, o icónico Presidente do Governo Regional rejeitou quaisquer culpas no que diz respeito a estes factores.

Argumentando falaciosamente, mas com uma convicção e uma arrogância tipicamente suas, Alberto João apontou o dedo aos governos portugueses de outras eras, atribuindo a responsabilidade dos problemas da ilha aos falecidos Rei D. Carlos e António de Oliveira Salazar. Na pretensa perspectiva do senhor presidente, as debilidades das construções e a sua localização inadequada remonta a esses tempos passados, não havendo por isso razão para crucificar os governos madeirenses da 3ª República.

Obviamente que se existiam inconvenientes desta ordem na ilha, a sua única função como líder do governo seria a resolução dos problemas, e o próprio Alberto João Jardim tem essa noção muito bem presente. No entanto, a sua retórica sofismática e a obstinação casmurra de quem julga que as suas palavras não devem ser contestadas acabam sempre por levar a melhor na entrevista.

Jogos Políticos e PSD

Na parte final da conversa, Alberto João Jardim foi interrogado por Judite de Sousa acerca da sua decisão de abandonar o cargo de presidente da região em 2011 e de uma eventual mudança de planos. Invariavelmente tranquilo, sereno no jogo político que há muito tempo pratica com sucesso, Jardim respondeu negativamente em relação à possibilidade de recandidatura e assumiu efectivamente a saída de cena. Todavia, é bom não esquecer que esta situação já se verificou no passado e teve como resultado a continuidade de Alberto João como presidente do governo regional.

Em vésperas de eleições directas no principal partido da oposição, aproveitando a ocasião extremamente propícia, a jornalista da RTP abandonou a dimensão madeirense e transitou para a esfera social democrata, inquirindo qual a posição assumida pelo presidente madeirense. Alberto João não se afastou muito do esperado, sendo muito directo quanto à rejeição imediata de Pedro Passos Coelho, mas cautelista em relação à opção entre Paulo Rangel e José Pedro Aguiar Branco.

Quanto à primeira parte, não se demorou muito tempo, dirigindo apenas um ou outro insulto ao candidato coimbrense. O segundo tópico foi sigilosamente tratado por Alberto João Jardim, que, criticando a divisão do seu partido em tantas partes diferentes, escondeu a sua decisão dos telespectadores e adiou a divulgação da sua escolha no Congresso do PSD na Madeira. Entretanto, o presidente regional teceu interessantes e misteriosas considerações a respeito de Manuela Ferreira Leite, Pedro Santana Lopes e ele próprio, elogiando a política séria e verdadeira da antiga líder e confessando a sua admiração pelo Sacarneirismo do homem com 7 vidas políticas.

Hegemonia Ideológica Insular

Como já tiveram a oportunidade de perceber com base no meu relato da entrevista, Alberto João Jardim recorreu a estratégias argumentativas deficientes e raciocínios simplesmente grotescos. A sua agressividade boçal enquanto discursa reflecte na perfeição o estatuto que conseguiu alcançar como manipulador de massas na função de presidente madeirense.

A grande maioria da população local cai no erro infantil de se deixar levar pelo espírito separatista de Jardim e as promessas de uma ilha paradisíaca, acabando por confinar o seu cérebro possivelmente inteligente a uma aceitação obediente de tudo o que o senhor presidente diz, mergulhando assim numa submissão ideológica deplorável à mente doentia do seu líder vergonhoso. Depois acontece que o senhor presidente, todo felizardo, vendo o enorme acolhimento da cacofonia proveniente da sua boca imunda, abusa do seu poder, diz o que pensa sem restrições e molda a opinião pública madeirense, sem se preocupar com a racionalidade por detrás dos argumentos que utiliza.

Estes ares de entidade superior, de quem está acima de tudo e cuja palavra não pode ser questionada, está na base de todos os erros lógicos do seu discurso e da postura lamentável que apresenta em situações públicas formais. Por várias vezes sobressaiu na entrevista aquela sua arrogância persistente de achar que tem de ser o centro das atenções e tudo tem de acontecer à sua maneira.

Momentos de boa disposição

Quando as suas considerações anódinas sobre assuntos fúteis eram interrompidas pela ávida Judite de Sousa, o presunçoso Alberto João Jardim não permitia a colocação de novas perguntas, frustrando todas as tentativas da jornalista portuguesa: “Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não!”. Debalde Judite de Sousa tentava poupar o tempo de antena com perguntas objectivas sobre assuntos importantes: o autoritarismo verbal do entrevistado não lho permitia.

“Não é por aquilo que aconteceu que eu vou deixar de ter papas na língua.” ou “Não, eu não respondo! Eu vou dizer o que quero!”  ou ainda “Se o tempo está a exceder, é serviço público, o estado pode pagar.” foram apenas alguns dos momentos mais hilariantes da conversa sobre um assunto tão sério, que afinal se revelou objecto de um diálogo tão divertido e fértil em momentos de humor. “Desculpe, vai ter que me aturar!” e “Só respondo a isso quando me apetecer.” foram outras das frases mais incríveis proferidas pelo presidente do governo regional.

Os insultos aos “abutres” que insistem em denegrir a figura do presidente foram outro dos pontos altos do serão de quinta-feira à noite, povoado de rudes críticas dirigidas aos “académicos”, aos “professores doutores” e aos “inimigos políticos” de Alberto João Jardim. Nada melhor do que umas boas lascas de madeira para avivar a chama da luta política portuguesa!

Por vezes é preciso saber ceder…

Ainda assim, apesar da inflexibilidade crónica do presidente do governo regional, ficou bem claro um apaziguamento do seu fervor separatista e um desejo de extinguir conflitos triviais que não levam a lado nenhum. As referências simpáticas e cordiais ao Primeiro-Ministro são prova disso mesmo: “temo-nos entendido muito bem!” disse Jardim a propósito das relações com José Sócrates. Recorde-se do que Alberto João Jardim dissera no dia após a vitória eleitoral do PS nas legislativas de 2009: “O país endoidou!”.

Cartoon do desenhador Henrique Monteiro retratando as relações subitamente amistosas entre Alberto João Jardim e José Sócrates

Cartoon da autoria do desenhador Henrique Monteiro retratando as relações subitamente amistosas entre Alberto João Jardim e José Sócrates

Quando faz uma alusão ao conceito novo de enterrar o machado de guerra deixa bem patente este ideia da suspensão da querela entre a Madeira e o continente, pelo menos durante algum tempo, até a situação da ilha voltar a atingir um grau de estabilidade, altura em que já não precisará da bengala do Estado Português e voltará a maltratar o rectângulo, regressando aos bons velhos tempos.

No fim, Alberto João Jardim deixou rasgados elogios a Judite de Sousa, afirmando que a considera uma grande jornalista e agradecendo pelas suas reportagens sobre o desastre na Madeira. Nada disto parece estar de acordo com a forma incorrecta como o presidente madeirense tratou a jornalista durante a entrevista: “a senhora” em vez de “a doutora”. A nota máxima para Alberto João Jardim em adulação do interlocutor só lhe escapa por esse pequeno pormenor.

Recursos Audiovisuais

Seguidamente apresento um excerto da entrevista, que ilustra bem a dinâmica geral da conversa e o carácter ditatorial de Alberto João Jardim. Corresponde à discussão das responsabilidades das várias entidades sobre a tragédia e contém vários momentos de grande valor cómico (mais parece uma satirização dos Gato Fedorento ou mesmo do O que se passou foi isto).

Se quiserem podem assistir a totalidade da entrevista no youtube: parte 1parte 2parte 3parte 4.

Petição contra a criação de Biotério na Azambuja

Numa aula recente, a minha professora de Biologia divulgou uma petição que luta pelos direitos dos animais.

Está prevista andamento a construção de um grotesco biotério na Azambuja, tendo como finalidade a criação em grande escala de animais destinados a serem utilizados em testes laboratoriais. As experiências a que estas pobres criaturas serão submetidas violarão os direitos dos animais e causarão imenso sofrimento aos desafortunados bichos.

"Biotério: viveiro de animais para pesquisas laboratoriais ou objectivos semelhantes"

O movimento está alicerçado em factos científicos que comprovam a inutilidade da maior parte destas experiências em laboratório, propondo o desenvolvimento de técnicas de investigação alternativas, de maior eficiência, sem a implicação do sofrimento animal.

Ciências Médicas: avanços ou retrocessos?

Para além da falta de ética subjacente a estas práticas, é importante sublinhar a carência de resultados conclusivos a que estes trabalhos experimentais nos levarão.

De um modo geral, as  pesquisas utilizarão os animais em experiências com o intuito de averiguar se os efeitos secundários de certos medicamentos na espécie humana serão perigosos para a nossa saúde. No entanto, a verdade é que os animais criados no biotério apresentarão características anatómicas e fisiológicas muito diferentes das do ser humano, o que levará a uma grande disparidade entre os resultados obtidos em animais e as consequências reais da aplicação dos produtos em indivíduos da espécie humana.

Todas estas investigações em laboratório e os sacrifícios de milhares de animais implicados no processo poderão ser em vão, conduzindo a resultados falsos que poderão comprometer a saúde do ser humano a longo prazo.

Mas afinal o que é feito da crise?

O projecto da construção do biotério representa um grande investimento para o país e toda a União Europeia, cujos laboratórios serão o palco para a realização das experiências. O governo português assumiu um papel preponderante no financiamento da iniciativa, uma vez que as instalações estão a ser edificadas em solo luso. Neste contexto, o estado investiu 27 milhões de euros neste projecto de futuro incerto, o que constitui inequivocamente uma grande imprudência.

Fundamentalmente, a aposta no biotério da Azambuja é um tiro no escuro, disparado na tentativa desesperada de alcançar o ambicionado reconhecimento das grandes potências europeias. Afirmar a capacidade de Portugal para participar em projectos europeus de renome e organizar grandes iniciativas de apelo ao espírito científico são os desejos políticos desmedidos de quem não está minimamente enquadrado no mundo da ciência e não sabe fazer uma gestão eficiente do orçamento de estado. Uma falta de noção das verdadeiras prioridades nacionais!

Igualmente grave é o incentivo dos outros membros da união europeia e da comunidade científica ao seguimento dos trabalhos. Mais uma prova de que vivemos num mundo sem ética, onde os interesses económicos e os desejos individuais de quem detém o poder se sobrepõem sempre e inevitavelmente ao bem comum e aos verdadeiros interesse da sociedade. A investigação científica, controlada pelos grandes senhores que dominam o mundo, constitui um instrumento poderoso que serve os interesses pessoais dos administrativos, em vez de se colocar ao serviço da comunidade.

Assinem a petição! Participem na luta pelos direitos dos animais!

Quanto ao desrespeito pelos direitos dos animais, o motivo nobre que motivou este importante movimento online, é lamentável que as mentalidades retrógradas continuem a dominar as decisões políticas e a minar o espírito colectivo das nações. Mas enfim: se muitas vezes os direitos humanos são alvo de violações, como esperar que os direitos dos animais sejam respeitados?

Petição contra a criação do Biotério na Azambuja

Por favor, dêem a vossa contribuição nesta nobre batalha contra os perpetradores destas atrocidades contra os animais. Não permitam que os seres vivos filogeneticamente mais próximos do Homem sejam tratados de forma indigna. Existem tantas formas de conduzir a investigação científica, mais eficazes, que não implicam a tortura de animais! Lutemos por um mundo melhor!

Assinem a petição aqui e deixem a vossa contribuição! Não custa nada!

A obrigatoriedade da referência ao número do BI tem como único objectivo conferir à iniciativa um carácter oficial e honesto. Não tenham receio! Simplesmente, façam aquilo que está correcto e pensem que estão a salvar muitas vidas de animais que partilham um ancestral comum coma espécie humana!

É só um clique aqui e assinar…