Elementos da Tragédia Clássica na transmissão da mensagem sociopolítica de «Felizmente há Luar!»


A defesa da liberdade e da justiça, atitude de rebeldia, constitui a hybris (desafio) desta tragédia. Como consequência, a prisão dos conspiradores provocará o sofrimento (pathos) das personagens e despertará a compaixão do espectador.

Segundo a tese acima apresentada, «Felizmente há Luar» inclui elementos estruturais da tragédia clássica, sendo o desafio representado pela apologia da liberdade e da justiça, dada a ousadia patente nesta luta. Considera igualmente que o encarceramento dos revoltosos motiva o sofrimento nas personagens, gerando compaixão no espectador. Assim, o juízo crítico apresentado enquadra a peça na tragédia clássica, apontando o combate por liberdade e justiça como a hybris e entrevendo o pathos nas emoções despoletadas pela prisão dos conspiradores.

Inquestionavelmente, a batalha em prol dos valores liberais está presente na totalidade da obra. Inicialmente, as informações fornecidas pelos populares sugerem uma imagem de Gomes Freire como «um amigo do povo», disposto a lutar contra o sistema sociopolítico vigente, («capaz de se bater com os senhores do Rossio…»). Todavia, tal propósito não se compatibiliza com os interesses dos membros da Junta Governativa («que honras, que posições seriam as nossas, se ao povo fosse dado escolher os seus chefes?»). Assim, os regentes desenvolvem uma feroz oposição aos seus intentos liberais, implementando medidas que visam a prisão daquele «que mais nos convém que tenha sido o chefe da conjura», pois «Em política, quem não é por nós, é contra nós». A luta por liberdade e justiça representa, por conseguinte, o desafio subjacente a esta peça.

Consequentemente, a improbidade patente no encarceramento e condenação do general gera um sofrimento acentuado nas personagens, nomeadamente em Matilde, sua esposa, que empreende esforços infatigáveis no salvamento do marido («troco a minha vida pela dele!»), manifestando constantemente as suas perturbações emocionais («O meu homem!»). Progressivamente, Matilde toma consciência da dimensão do problema, rebelando-se em prantos desesperados, desejando, ironicamente, que o general «tivesse sido menos homem». Os apelos à consciência social do espectador mantêm-se presentes nas suas palavras, rogando-lhes que «Limpem os olhos ao clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!». Indubitavelmente, a comoção apodera-se do espectador, propiciando a recepção da mensagem presente.

Sumariando, em «Felizmente há luar», a defesa dos valores liberais e os obstáculos que se lhe interpõem constituem a hybris, estando o pathos presente no sofrimento causado pela condenação dos seus apologistas. Efectivamente, o desenvolvimento da peça com base numa interligação com os moldes de concepção da tragédia clássica (exposição contínua das questões suscitadas pela hybris, aliada a uma exploração eficaz do pathos) potencia o acolhimento dos valores da liberdade e da justiça, operando uma sublimação da luta correspondente.

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2 Respostas to “Elementos da Tragédia Clássica na transmissão da mensagem sociopolítica de «Felizmente há Luar!»”

  1. Ricardo Sá Says:

    Muito bom texto.. Gomes Freire apesar de não aparecer “vivo” aparece bem representado por Matilde

    • Andrey Amabov Says:

      Obrigado, Ricardo. É sempre bom ouvir um elogio, mesmo quando ele se refere a um texto que foi considerado, pela docente, o pior trabalho que eu apresentei no decorrer do ano lectivo.

      E existe uma explicação muito simples para isto: na realidade, «Felizmente há luar» não é uma tragédia, mas sim um drama narrativo enquadrado no teatro épico. Foi este erro grave, que não podemos cometer, que contribuiu para a desvalorização do meu texto por parte da professora, pelo que desde já te alerto para esta questão. Porém, uma vez corrigido esse detalhe importante, julgo que o texto apresenta qualidade e recebo o elogio de braços abertos!

      E sim, Ricardo. O general Gomes Freire nunca aparece fisicamente, mas a sua acção e o que ela representa (a luta pelos valores liberais) estão sempre presentes na obra, não só por via de Matilde, mas também através de todas as outras personagens.

      Muito obrigado pelo teu comentário, Ricardo! É bom ver-te de volta a este espaço!


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