Redução da duração das aulas para 60 minutos? Globalmente discordo.

Na sequência da intensa (mas globalmente convergente) discussão que se travou nesta postagem do Pedro Pereira no facebook, acerca de uma eventual medida no sentido de reduzir a duração das aulas escolares para 60 minutos, publico o meu “sucinto” comentário, com algumas (ligeiras) adaptações. De salientar que, de um modo geral, não sou grande adepto da proposta, embora considere bastante pertinente o seu debate no contexto do ensino básico.

Entre a chuva de comentários gerada pelo assunto, maioritariamente favoráveis à redução do tempo de aula, encontrei diversos argumentos devidamente fundamentados que preconizavam a duração de 60 minutos. Os principais motivos apresentados pelos defensores da medida prendem-se com a diminuição progressiva da concentração dos estudantes na última meia hora de aula e a consequente quebra de rendimento ao fim dos primeiros 60 minutos, eventualmente associados a uma dificuldade na manutenção da ordem no interior da sala de aula por parte dos docentes. Pela minha experiência pessoal, quer individualmente quer pela interacção diária com colegas sujeitos exactamente aos mesmos horários, estou ciente da validade destes argumentos, não questionando a sua veracidade e pertinência. Porém, existem outras variáveis a ter em conta, que passarei a enunciar, explicitando-os convenientemente.

Em primeiro lugar, admitindo a tendência dos estudantes para o desinteresse face à matéria leccionada na parte final da aula, proponho que nos debrucemos mais profundamente sobre o assunto. Será este um problema verificado exclusivamente nos minutos finais da aula? Penso que não, uma vez que o estado de tédio e desatenção dos alunos em relação à aula se inicia, muitas vezes, poucos instantes após o seu início. De salientar que não quero, com isto, acusar os alunos de uma atitude deliberadamente incorrecta na sala de aula, dado que me limito a constatar um facto, sem pretender atribuir a sua responsabilidade aos estudantes ou respectivos professores. Em todo o caso, confirmando-se a minha hipótese (e mais uma vez invoco a minha experiência pessoal como fonte de suporte), a redução da duração da aula não seria a melhor solução a considerar, devendo antes ser ponderada uma modificação da estratégia de condução da aula, empreendidas por parte dos próprios docentes, que se seriam responsávies pela adaptação das suas aulas a esta tendência estudantil, tendo em conta as características peculiares de cada turma e disciplina.

Adicionalmente, julgo que a redução do tempo de aula coloca outras questões dignas de serem equacionadas cautelosamente, tais como o tempo concedido à realização dos testes ou a necessidade de aumentar a frequência das discplinas ao longo da semana, a fim de possibilitar o cumprimento dos programas escolares. Relativamente aos momentos de avaliação sumativa, defendo que os 90 minutos são indispensáveis à resolução de um teste bem estruturado, passível de avaliar efectivamente as competências cognitivas dos alunos, ao passo que uma prova destinada a ser resolvida em 60 minutos, apesar de possível em determinados contextos e disciplinas, não possibilita uma avaliação tão abrangente e profunda dos conteúdos abordados em aula. Finalmente, tendo em conta a necessidade, amplamente reconhecida, de esbater as diferenças registadas entre o ensino secundário e o meio académico, bem como a longa duração das aulas do ensino superior, considero pertinente a sujeição dos alunos do secundário a aulas mais longas, que lhes permitam realmente uma preparação  apropriada para os intermináveis brainstormings que os esperam nas universidades portuguesas.

Por fim, gostaria de alertar as consciências para outro factor relevante, associado à vasta extensão dos programas letivos de grande parte das disciplinas escolares. Todos nós, alunos so ensino secundário, temos consciência das dificuldades frequentemente sentidas pelos docentes na leccionação de todos os conteúdos integrados nos programas específicos, muitas vezes quase incompatíveis com o número de horas semanais dedicados à disciplina. Assim, a redução da duração das aulas teria de envolver um aumento da frequência semanal das aulas de cada disciplina, a fim de potenciar o cumprimento dos vastos programas das disciplinas, o que não seria necessariamente mau (poderia inclusivamente incitar os alunos a um estudo periódico das matérias aprendidas diariamente, criando hábitos de trabalho positivos).

Todavia, esta medida teria implicações potencialmente gravosas, visto que acarretaria um incremento do número de aulas de disciplinas diferentes num dia, envolvendo uma maior dificuldade dos alunos na captação das informações transmitidas nas aulas de disciplinas distintas, por bombardeamento de conteúdos dissociados uns dos outros. Explorando a questão da frequência semanal de cada disciplina, regressando à comparação com o contexto universitário, verificamos que os estudantes só terão a ganhar em termos de adaptação ao meio académico como a manutenção de 2 ou 3 aulas semanais da mesma área discplinar.

Ainda assim, apesar de me opor, em traços gerais, à implementação desta medida ao nível do ensino secundário, concordarei com uma reflexão cuidadosa e coerente acerca da possibilidade de ser instituída em termos de ensino básico, tendo em conta a maior distância deste nível de escolaridade face à realidade do ensino secundário, a maior tendência para a desconcentração e indiferença registada entre os alunos destas idades e o (parcialmente) consequente estado selvático de muitas aulas do ensino básico em que a brandura ou perda de autoridade por parte dos professores destranca as portas do desrespeito e da impunidade. Reitero a necessidade de uma ponderação adequada a propósito de eventuais medidas neste sentido, tendo em linha de consideração os riscos delicados que uma decisão precipitada poderia envolver a um nível de ensino verdadeiramente estruturante da formação escolar do indivíduo.

Concluindo, manifesto a minha (quase) total discordância face ao fim das aulas de 90 minutos no ensino secundário, que considero desajustada das necessidades de aprendizagem dos alunos a este nível de ensino e da importância de uma transição graual para o meio universitário, admitindo a pertinência de uma potencial redução da duração das aulas para 60 minutos no plano do ensino básico, qualitativamente diferente. Subscreva-se ou não a minha perspectiva, julgo conveniente realçar a pertinência da discussão e faço um apelo a que alguns dos argumentos por mim aqui referidos sejam tidos em conta.

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Os Lusíadas: O valor das honras e das glórias conquistadas por mérito próprio (Excurso do Poeta situado no Canto VI)

Depois de muito sofrer e muito penar durante o período carnavalesco, apresento aos meus leitores ocasionais o produto do intenso trabalho de reflexão (e síntese) a que procedi recentemente. Os Lusíadas, esse incrível edifício literário que foi obra de um português! Mas quando os estudantes do ensino secundário são incumbidos da difícil missão de escrever sobre a epopeia camoniana, tudo assume contornos mais agrestes!

Sucintamente, digamos que a dissertação inicial continha 861 palavras, correspondendo a redução deste número para as 600 permitidas (pelo limite estabelecido pelas forças opressoras) a um esforço indómito, passível de me coroar com as maiores honras celestes (e como o meu apelido é Coroado, tudo isto faz sentido).

Bem, sem mais demoras, apresento o texto aos potenciais interessados. Trata-se de uma dissertação, desenvolvida no âmbito da disciplina de Português, acerca de uma passagem d’ Os Lusíadas, nomeadamente, o excurso do poeta situado no Canto VI, correspondendo às estâncias 95-99. Nestes versos inspirados, Luís de Camões reflecte sobre o valor das honras e das glórias conquistadas por mérito próprio, de um modo peculiar, que passarei a descrever:

Em Os Lusíadas, Camões procede a uma apologia do heroísmo português, exaltando a grandiosidade dos feitos lusitanos, especialmente aquando da viagem de Vasco da Gama à Índia. O seu patriotismo transfigura a gente lusíada, mitificando-a. O momento da chegada a Calecute, particularmente, representa a capacidade portuguesa de suportar inúmeros tormentos e transpor quaisquer obstáculos por uma missão patriótica, conquistando glória e imortalidade por mérito próprio. Assim sendo, Camões decide reflectir acerca do valor de tais honras, contemplando a atitude heróica subjacente, distinguindo-a das restantes condutas.

Para Camões, o sofrimento e a superação de perigos são imprescindíveis na busca da glória, intangível para os que se refugiarem nas honras conquistadas pelos seus antepassados, bem como aqueles que viverem na ociosidade, no luxo dos prazeres sem contrariedades ou na inércia do comodismo. Os perigos e medos desafiam os homens, coagindo-os a trabalhar arduamente para vencer as adversidades, podendo alcançar a honra «Por meio destes hórridos perigos, / Destes trabalhos graves e temores». Pelo contrário, a atitude saudosista daqueles que se regozijam à luz da herança gloriosa dos seus predecessores, não conduzirá às almejadas honras («Não encostados sempre nos antigos troncos nobres / dos seus antecessores»). Paralelamente, os requintes gustativos («Não c’os manjares novos e exquisitos»), as expressões da preguiça («Não c’os passeios moles e ouciosos») e a satisfação de infindáveis prazeres («Não c’os vários deleites e infinitos») estiolam a virilidade, obstando à conquista da honra. Assim, os desejos sem oposição, alimentados pela sorte, impedem «que o passo mude / Pera algũa obra heróica de virtude».

A honra não pode ser senão o fruto de um esforço indómito, que envolva sofrimento inquantificável e luta incessante face às dificuldades, associados a uma placidez na confrontação com o perigo, configurando uma atitude virtuosa do indivíduo, passível de gerar uma honra genuína que lhe atribui um estatuto superior. A glória tem de ser procurada arduamente através esforço pessoal («Mas com buscar, c’o seu forçoso braço, / As honras que ele chame próprias suas»). Todavia, essa via revela-se tortuosa, implicando sacrifícios colossais e um sofrimento atroz, vencido graças ao esforço heróico. Suportar as tormentas do oceano («Sofrendo tempestades e honras cruas»), superar os frios meridionais («Vencendo os torpes frios no regaço / Do Sul») e ingerir alimentos deteriorados («Engolindo o corrupto mantimento») são comportamentos propiciadores da honra, quando acompanhados duma valentia estóica, que permita manter frieza e ânimo face aos maiores perigos («E com forçar o rosto, que se enfia, / A parecer seguro, ledo, inteiro»). Tal atitude guerreira conduz à construção da verdadeira honra, nascida da virtude («Desta arte o peito um calo honroso cria»), contrastante com honrarias e dinheiro obtidos fortuitamente. A glória conquistada pelo guerreiro sofredor confere-lhe uma sabedoria serena, que o coloca em «alto assento» e o distingue do «baixo trato humano embaraçado», ascendendo a «ilustre mando» por mérito próprio e não por concessão de favores, aceitando o poder por patriotismo, mesmo «contra vontade sua».

Resumindo, Camões dissocia a honra do saudosismo, da ociosidade e do luxo, defendendo o esforço pessoal, a luta contra o sofrimento e a superação dos medos e perigos como único caminho seguro para a glória. Quem assim agir alcançará as honras da virtude, distintas das oferecidas pela sorte, e logrará uma demarcação moral e intelectual face aos homens. Aplaudo a perspectiva camoniana, subscrevendo a construção da honra pela acção humana. Hoje, no combate ao capitalismo corrupto, somos responsáveis por honrar quem edifica algo de valor, lutando contra adversidades, por dedicação a causas nobres.

O russo que sabia guardar segredos

Saudações a todos os visitantes deste blogue! A frequência dos posts é cada vez menor e são os conteúdos antigos aqueles que ainda vão conferindo algum estatuto a este modesto espaço pessoal online. Porém, o Segundo Andrey Amabov continua aqui, para todos os que tiverem interesse em consultar o seu arquivo, bem como algumas novidades que poderão surgir esporadicamente.

Hoje, inesperadamente, decidi adicionar ao blogue uma pequena novidade. Nada de especial, na verdade: apenas uma curta e desinteressante narrativa de ficção que se começou a desenrolar no meu cérebro, na qual eu reconheci o potencial necessário para ascender ao estatuto de post mais descontextualizado de sempre, destronando posts como este.

Passo, pois, ao texto em si.

O RUSSO QUE SABIA GUARDAR SEGREDOS

Yuri Tabhitryi, ilustre detective moscovita, fora destacado pela polícia russa para mais uma importante missão. Distinguido internacionalmente com as insígnias douradas da SAGA (Secret Agents Global Association), manifestava incríveis aptidões no âmbito da investigação criminal, dotado de um poder dedutivo sem precedentes e da atitude enérgica, mas discreta, que um detective secreto deve demonstrar. Assim, Yuri Tabhitryi não se surpreendera ao saber que os serviços russos de investigação criminal o haviam nomeado para o caso Dinara Betpodlyi.

Conveniente seria talvez explicar quem era Dinara Betpodlyi e em que consistia concretamente o caso atribuído a Yuri Tabhitryi. Sucintamente, digamos que se tratava do roubo do maior diamante jamais encontrado em jazigos terrestres, propriedade da mais mediática estrela pop que a Rússia alguma vez conhecera. Graças a uma colossal manobra de ocultação de informação, o crime permanece longe das demolidoras páginas da imprensa da cidade, sendo a privacidade de Dinara Betpodlyi salvaguardada e o trabalho dos investigadores livre de obstruções jornalísticas.

A avultada recompensa oferecida pela cantora em troca do seu diamante seria prémio apetecível para qualquer detective. Porém, para Yuri Tabhitryi, a defesa da honra e o desejo de justiça são os factores que mais o movem. Deste modo, ainda que os indícios escasseassem e a forma como o crime fora conduzido se aproximasse da perfeição, Yuri Tabhitryi desenvolveu uma brilhante investigação, solidamente alicerçada na infalibilidade dos seus métodos, aqui não descritos, que o guiou ao culpado num espaço de tempo inferior a uma semana: Dmitri Sozsmelyi.

Exactamente. Dmitri Sozsmelyi, o insaciável assaltante, indómito aventureiro, de uma tão grande astúcia que nunca se deixara capturar pela justiça. Homem pacífico, declaradamente contra a violência das armas de fogo, impressionava pela proeza inaudita que constava do seu infindável currículo: nunca matara, ferira ou agredira as suas vítimas. Tal humanismo, associado ao calculismo meticuloso com que planeava cada crime, faziam de Dmitri Sozsmelyi uma presa difícil, raramente deixando pistas, jamais deixando provas.

Sucede também que Dmitri Sozsmelyi, durante as longas temporadas de férias que ele mesmo agendava, gostava de dispensar algum tempo e dinheiro (sendo certo que dispunha de ambos em abundância) aos jogos de sorte e azar dos casinos de Moscovo. Cliente habitual dos estabelecimentos, onde se comportava impecavelmente, cavalheiresco nos modos e nos negócios, costumava frequentar diariamente as maiores casas de apostas da capital, durante os 2 ou 3 meses que se seguiam a um grande assalto.

Não sendo excepção o roubo do diamante de Dinara Betpodlyi, a descoberta do paradeiro nocturno do singular Dmitri Sozsmelyi não ofereceu quaisquer dificuldades ao metódico Yuri Tabhitryi, que facilmente se inteirou de todas as pisadas do seu alvo. Pragmático e realista, sabia que a única maneira de reunir provas concludentes contra Dmitri Sozsmelyi seria levar o astuto ladrão a confessar o crime. Mas tal implicaria uma prodigiosa aproximação dele mesmo, Yuri Tabhitryi, ao criminoso, Dmitri Sozsmelyi, sendo forçosa a criação de uma amizade profunda entre ambos, geradora da confiança necessária à confissão.

A versatilidade de Yuri Tabhitryi nunca fora um problema. Assim, facilmente o detective montou um disfarce, incluindo um nome e toda uma identidade falsa, que anularia quaisquer possibilidades de vir a ser reconhecido. Seguidamente, começou a frequentar assiduamente os casinos moscovitas, expansivamente, numa abertura da sua falsa personalidade ao mundo, que rapidamente se tornou reconhecida por todos. Em breve, o detective tinha alcançado um tal estatuto de popularidade nas casas de jogos que todos, incluindo Dmitri Sozsmelyi, o conheciam pela sua jovialidade contagiante. Posteriormente, a presença de Yuri Tabhitryi na mesa do criminoso principiou a tornar-se um hábito, até ao dia em que se começaram a sentar lado a lado, tanto durante o jogo como ao balcão, dialogando animadamente sobre as peripécias da vida.

As duas personagens, embora com perspectivas da vida e do mundo seguramente diferentes, estabeleciam diálogos interessantes, num contexto aparentemente saudável e descontraído. Não obstante o profissionalismo de Yuri Tabhitryi tornar a tarefa muito simples, igual a tantas outras no passado, o detective sente uma harmonia verdadeira na forma como as suas conversas evoluem, chegando mesmo a questionar-se se os dois não poderiam ter sido amigos fora daquele contexto. Independentemente disso, a amizade incipiente que Dmitri Sozsmelyi parece evidenciar em relação a Yuri Tabhitryi levam o investigador a passar à fase seguinte da sua investigação, inquirindo o “amigo” acerca de pormenores autobiográficos, expondo, por sua vez, uma panóplia de histórias sobre si mesmo.

Naturalmente que não o surpreendeu o facto de Dmitri Sozsmelyi omitir o seu vasto historial de patifarias. Porém, no decorrer das inúmeras conversas que os dois haviam levado a cabo, muito se espantara perante a naturalidade com que o seu interlocutor se expressava acerca de assuntos pessoais, transbordando segurança e serenidade espiritual quando questionado acerca das mais íntimas questões que lhe eram colocadas, independentemente da veracidade das respostas que dava. Tal atitude surpreendeu Yuri Tabhitryi, que esperava entrever no criminoso certos sinais de apreensão e desconforto, motivados pela forma inesperada como o inquiria acerca da sua vida pessoal. Decidiu, portanto, passar a uma estratégia mais ofensiva, que se lhe afigurava infalível.

Acreditando que eventuais referências a Dinara Betpodlyi pudessem despertar, por instantes, uma reacção espontânea por parte de Dmitri Sozsmelyi, o detective começou a conduzir as conversas segundo assuntos que tornavam possível uma referência contextualizada à cantora russa. Assim, a música e os fenómenos da cultura de massas foram integrando gradualmente o leque de assuntos abordados, numa evolução dos acontecimentos que privilegiava as intenções de Yuri Tabhitryi.

Assim, numa bela noite, após meia hora de discussão musical, o ilustre investigador policial recorreu discretamente ao vulto de Dinara Betpodlyi a fim de exemplificar uma perspectiva sua em relação à música pop do leste europeu. De olhos postos no ladrão de jóias desde a primeira palavra da frase, absorvendo cada traço do rosto com toda a sofreguidão que o seu poder contemplativo de detectiva lhe conferia, Yuri Tabhitryi ansiava por uma manifestação exterior de nervosismo por parte de Dmitri Sozsmelyi. Todavia, o formidável fora-da-lei permaneceu impassível, no esplendor da sua tranquilidade de alma, sem que o mais ténue indício de inquietação se desenhasse nas feições mentirosas.

Estupefacto, Yuri Tabhitryi não cria naquilo que era dado a conhecer aos seus sentidos. Não era verosímil que uma referência a Dinara Betpodlyi, o alvo da acção criminosa de tão amplo destaque no currículo do interlocutor, não suscitasse a mais leve reacção física da sua parte! Nem a contracção de um músculo facial, nem um franzir de sobrolho, nem mesmo uma dilatação das pupilas!

Desiludido, mas nunca desanimado, Yuri Tabhitryi tornou a repetir a tentativa no dia seguinte, contextualizando engenhosamente a alusão à cantora de culto, para depois proferir o nome da artista, a propósito de uma discussão sobre o historial de espectáculos de massas na Europa Oriental. A mesma atenção no modo como fitou Dmitri Sozsmelyi, a mesma neutralidade impossível por parte do extraordinário indivíduo! Frustrado acabaria por abandonar a estratégia durante uns tempos, dedicando-se à reflexão acerca de um modo mais eficaz de resolver o problema. A verdade, porém, é que, se não seria fácil extrair a verdade ao fabuloso ladrão, a descoberta da verdade por outro meio seria a mais perfeita utopia. Assim, suspirando fundo e mentalizando-se para as adversidades que teria de enfrentar no improvisado processo de extorção, deitou resolutamente as mãos à obra, determinado a arrancar a verdade a Dmitri Sozsmelyi, custasse o que custasse.

Nas semanas seguintes, Yuri Tabhitryi desenvolveu um trabalho incansável em busca da verdade oculta, que apesar de tão distante e inacessível estava tão perto! E assim, num ímpeto heróico, contendo a ansiedade interior que o minava e impelia a acusar directamente o criminoso, ia diversificando ao máximo os temas de conversa, recorrendo a figuras e situações exemplificativas com abundância, a fim de transformar os diálogos entre ambos em tertúlias sobre a actualidade, substituindo os acontecimentos de cariz pessoal que outrora haviam dominado as conversas por assuntos de tom social e cultural. No decorrer desses debates, nos quais Dmitri Sozsmelyi se envolvia com vívido interesse, Yuri Tabhitryi demonstrou arte na forma inteligente e paciente como soube inscrever pequenas referências a Dinara Betpodlyi, totalmente enquadradas no contexto da conversa, em busca da almejada reacção por parte do ladrão.

Porém, como os leitores certamente poderão prever, a insistência épica de Yuri Tabhitryi de nada lhe valeria, já que a resposta de Dmitri Sozsmelyi era invariavelmente a mesma: indiferença, uma indiferença aterradora, verdadeiramente desesperante, que levava Yuri Tabhitryi a rogar pragas em pensamento contra o seu principal suspeito. Os seus frequentes pressentimentos, indicativos de que algo poderia mudar a cada instante, enganavam-se constantemente, parecendo irreversivelmente condenados ao fracasso.

De facto, a naturalidade de Dmitri Sozsmelyi quando encarava referências a Dinara Betpodlyi era tão impressionante que o detective russo chegava mesmo a questionar se aquele seria o verdadeiro responsável pelo roubo do diamante! Racionalmente, sabia que essa hipótese não era concebível, pois as suas faculdades dedutivas diziam-lhe, com 100% de certezas, que aquele era o culpado. Porém, perante a descontracção e tranquilidade de Dmitri Sozsmelyi ao ouvir sucessivamente o nome da mulher que tão requintadamente assaltara, o investigador criminal não sabia o que havia de pensar. Além disso, não eram raras as ocasiões em que o próprio ladrão se pronunciava acerca da cantora, manifestando posições coerentes acerca do fenómeno por ela representado, com a mesma impassividade e frieza emotiva com que discutia outros assuntos.

Assim se passavam os dias, as semanas, e até os meses! Sem provas que justificassem as suas inclinações, Yuri Tabhitryi atravessava uma situação inédita na sua carreira, não pela insolvência aparente do caso, mas pelo risco, nunca antes corrido, de perder o seu honrado estatuto de detective reconhecido internacionalmente. A polícia russa exercia uma pressão cada vez mais intensa sobre o detective, para quem a ideia de um desmoronamento da imagem profissional constituía o maior pesadelo alguma vez imaginado. Os louros da SAGA, as referências honorárias nos relatórios anuais, o reconhecimento do bem prestado à humanidade… tudo isso poderia estar seriamente comprometido caso a situação não conhecesse uma evolução positiva. Parecia que um cenário muito negro se preparava para se abater sobre o ilustre investigador. E era verdade.

Foi numa sórdida manhã de neve e nevoeiro que as más notícias chegaram. A capa de um jornal diário de Moscovo anunciava entusiasticamente o roubo do diamante mais valioso do mundo à cantora Dinara Betpodlyi, que não mais voltara a actuar publicamente desde então e se recusava a prestar declarações. Intrigado, receando o pior, Yuri Tabhitryi comprou o jornal e foi folheando hesitantemente o papel reciclado das páginas secas. Uma rápida leitura na diagonal inteirou-o da situação, que justificava os seus medos e tornava real o seu pesadelo: a imprensa cor-de-rosa acabara por descobrir o sucedido, quebrando as barreiras que a política russa lhe tentava opor, e rapidamente obtivera a informação de que o detective nomeado para a resolução do caso, Yuri Tabhitryi, não apresentara quaisquer resultados concretos, provenientes da investigação.

Suspirando, o pobre detective regressou a casa, onde esperou pacientemente pela chegada do aviso de dispensa por parte dos serviços secretos russos. O despedimento era inevitável, pelo que acabaria por chegar ao final da tarde. Pouco tempo depois, os lamentos da direcção da SAGA pelo sucedido e a prescisão dos seus serviços no futuro consumavam a derrota laboral que este caso insólito lhe havia proporcionado.

A partir desse momento, o detective Yuri Tabhitryi, ilustre glória da investigação criminal da Rússia, estava morto. Restava apenas o homem cujo ofício anterior lhe concedera a quantia suficiente para terminar a sua existência de um modo tranquilo e recatado, de preferência longe da azáfama citadina de Moscovo, palco de tantos feitos no passado, mas de uma tão grande mágoa no presente. E assim, como num acto de exílio profissional, o ex-detective decidiu partir para uma povoação rural situada a 67 km de Omsk, de onde tinha raízes.

Contudo, antes de abandonar a cidade, não podia deixar de comunicar a sua partida a Dmitri Sozsmelyi, a enigmática personagem cuja excentricidade lhe havia custado o emprego e a reputação, tantas vezes seu interlocutor, na companhia do qual passara tantos serões, tantas horas da interminável noite moscovita. Tentou despedir-se pessoalmente; porém, não teve a frontalidade suficiente para o fazer, preferindo recorrer a uma carta. Pensou também em expor toda a verdade da situação a Dmitri Sozsmelyi, para que ao menos se extinguissem os segredos que cavavam um fosso entre eles; contudo, acho que seria cobarde fazê-lo por escrito, em vez de assumir a derrota frente a frente.

Assim, optou por um texto mais convencional, no qual deva a conhecer a sua partida para o campo (sem especificar o local exacto) por motivos pessoais, agradecendo os longos momentos de convívio passados em conjunto e desculpando-se pela pressa com que partia alegando urgência na sua deslocação. Redigido o documento e entregue o envelope ao moço das entregas, Yuri Tabhitryi agarrou na sua bagagem e abandonou a casa que habitara durante longos anos de investigação criminal. O comboio esperava-o, para o levar do sítio onde jamais voltaria.

Quanto a Dmitri Sozsmelyi, ao receber a carta de Yuri Tabhitryi, limitou-se a sorrir condescendentemente, com a brandura de quem desculpa as falhas de outrem. Conhecera desde o início a verdadeira identidade do detective e sempre estivera consciente das suas verdadeiras intenções. Sorrindo interiormente sempre que Yuri Tabhitryi referia o nome de Dinara Betpodlyi, estava seguro do enorme poder o seu autocontrolo sobrehumano lhe conferia, sabendo bem guardado o segredo do roubo do diamante da cantora. E assim, gozando os prazeres de mais uma conquista, Dmitri Sozsmelyi deleitou-se nos prazeres da impunidade. A verdade jamais seria revelada!

O Desporto

O desporto moderno é uma combinação de ciência, destreza, dedicação e esforço total. A prática desportiva regular constitui um factor indispensável na manutenção, protecção e melhoria da saúde. Para ser eficaz, não precisa de ser esgotante ou dolorosa, mas sim regular, adaptada à idade, à condição física, bem como às características e limitações de cada indivíduo, aliando a todos estes factores o convívio, que permite ampliar os benefícios do movimento, com reflexos evidentes na saúde.

A tese relaciona a competição desportiva actual com agilidade, ciência e empenho. Considera também a actividade física um requisito fundamental para ser saudável, defendendo uma adequação da actividade física ao contexto individual. Finalmente, o autor admite a preponderância da vertente afectiva. Todavia, penso que certas componentes do desporto, como o prazer ou a dimensão sócio-política não foram devidamente exploradas pelo autor, pelo que tenciono relacionar a prática desportiva com estes elementos.

Praticar desporto potencia a expulsão das energias negativas e a expressão individual, levando a um prazer. A actividade desportiva propicia a satisfação dos instintos competitivos do homem, transferindo essas inclinações para a luta da superação dos outros ou de si. Tal exteriorização conduz à libertação espiritual, gerando harmonia interior: o indivíduo exprime-se emocionalmente, alcançando um prazer momentâneo. Assim, Broun Heywood conecta o desporto à expressão das emoções, associando-a à manifestação do carácter: “Os desportos não constroem o carácter. Revelam-no.”.

Adicionalmente, o desporto constitui um elo de ligação entre os homens, incitando amizades e funcionando como meio de comunicação. Estimulando a cooperação, os desportos aproximam os intervenientes, que poderão estabelecer amizades. Além disso, o desporto facilita a interacção entre indivíduos de contextos socioculturais distintos, ou de origens distintas. O desporto pode, inclusivamente, aproximar países em tensão política, como aconteceu na troca de presentes entre os capitães das selecções norte-americana e iraniana, que precedeu uma partida do mundial de futebol de praia 2007, simbolizando paz. Assim, Jean Giraudoux afirma que “O desporto é o Esperanto das raças”, referindo-se ao desporto como meio de comunicação universal.

Sumariando, o desporto corresponde a momentos de expansão do indivíduo que lhe proporcionam prazer e contribuem para uma vida equilibrada. Igualmente notável é a união que o desporto pode produzir nos seres humanos, ultrapassando barreiras sociais e políticas. O desporto apresenta, assim, inúmeros benefícios dignos de menção.

Manuel Alegre fez uma boa campanha. Cavaco leva uma vantagem desconfortável para as eleições. A segunda volta é ainda uma possibilidade. Não se abstenham!

Na sequência deste comentário do meu estimado colega Francisco Barão Dias a este artigo de opinião, resolvi proceder a uma retrospectiva da campanha eleitoral de Manuel Alegre e divulgar as minhas previsões para as Presidenciais 2011, deixando a minha perspectiva pessoal bem patente. Confesso que inicialmente não pretendia desenvolver exaustivamente o assunto, mas acabei por fazê-lo dada a sua relevância e o meu entusiasmo enquanto escrevia.

A Campanha Eleitoral de Manuel Alegre

Na minha perspectiva, Manuel Alegre fez uma boa campanha. Contrariando alguns dos meus receios, soube conter convenientemente a sua iminente sede de poder, colocando as prioridades do país sempre à frente dos seus interesses pessoais. Acerca do seu discurso, penso que se pronunciou com clareza e coerência (o que é fundamental) sobre os assuntos mais relevantes no actual contexto socioeconómico e político, deixando as suas posições bem esclarecidas e mostrando que reúne todo um conjunto de condições de importância capital para o cargo de Presidente da República.

São exemplos disso a frontalidade com que defendeu o Estado Social, deixando patente a forma convicta como defende o apoio do Estado à saúde e à educação (mostrou-se disposto a bater-se pela gratuitidade do SNS e do Ensino Público) e a importância de uma participação activa do Presidente da República na política externa portuguesa, fazendo uso dos poderes do cargo para dialogar com o exterior e intervir na estruturação das relações e nos negócios entre os países (algo em que Cavaco Silva se notabilizou pelo silêncio e pela inactividade).

A Postura de Manuel Alegre face aos casos em que Cavaco Silva esteve envolvido

Sei que, quando o Francisco fala de contra-campanha, se referes a um conjunto de argumentos ad hominem de que não só Alegre, mas também todos os outros candidatos (incluindo Cavaco Silva) se socorreram durante esta campanha. Não o nego e concordarei inteiramente com quem afirmar que esse tipo de estratégias, independentemente de poderem resultar e de suscitarem questões relevantes, não contribuem em nada para o enobrecimento da campanha. Ainda assim, gostaria de notar aqui dois aspectos importantes:

1) O caso BPN e outros assuntos passíveis de atentar contra a credibilidade do actual Presidente da República, Cavaco Silva, foram trazidos a esta campanha eleitoral por outros candidatos (Francisco Lopes, Defensor Moura), sendo particularmente salientados durante os debates entre Cavaco e estes candidatos. Por outro lado, é preciso saber distinguir a forma como os apoiantes de Manuel Alegre, independentemente atacaram o carácter Cavaco Silva, e aquilo que o próprio Manuel Alegre disse acerca do assunto.

2) O modo como Alegre encarou estes ataques à personalidade de Cavaco foi, a meu ver, exemplar, dado que soube gerir convenientemente a situação, com prudência e responsabilidade. Nos debates e entrevistas, Alegre não se servia destas polémicas para desenvolver a sua argumentação, discutindo esses assuntos apenas quando questionado acerca deles. Para além disso, não ouvimos Manuel Alegre a dirigir acusações a Cavaco Silva, mas simplesmente a enunciar factos concretos que despertavam suspeitas acerca do Presidente da República, limitando-se a pedir esclarecimentos a Cavaco Silva. De resto, o próprio Manuel Alegre, aquando da entrevista com Judite de Sousa, disse muito claramente que lamentava ver a quase totalidade do tempo de antena dedicado a questões de segundo plano (todas estas manobras de bastidores).

Uma Campanha Frontal, Responsável e Convincente

Assim, penso que a campanha de Manuel Alegre decorreu de forma favorável ao candidato, que se expressou se uma forma inteligente e convincente, deixando bem claros os motivos pelos quais a sua eleição seria positiva para o país e gerindo adequadamente as polémicas que marcaram a campanha (incluindo aquelas das quais Manuel Alegre foi alvo e que rapidamente se viriam a revelar ridículas, desmistificadas com frontalidade e sinceridade pelo próprio).

A campanha não foi perfeita, como é óbvio, e admito que se tenham cometido alguns erros estratégicos. No entanto, não os considero graves, sobretudo porque não encontramos fragilidade na forma como explorou a realidade nacional e definiu as prioridades do seu mandato, nem descobrimos atitudes ilícitas/imorais no modo como se relacionou com os outros candidatos e procurou ganhar popularidade em relação aos seus adversários.

O conservadorismo, o chantagismo e a contrariedade de Cavaco Silva

Por seu turno, Cavaco demonstrou de forma inequívoca o seu conservadorismo, patente na forma como encara a sociedade, a futilidade dos seus conhecimentos em economia (no decurso da sua estratégia de vitimização transmitiu uma imagem de impotência face à crise económica que não se coaduna com o seu estatuto académico na área) e acentuou as suspeitas que contra ele se levantaram, dado que nunca se pronunciou de forma explícita de directa acerca daquilo que verdadeiramente aconteceu, quer no caso BPN quer nos negócios de casas no Algarve.

Já no final da campanha, falaciosamente, Cavaco recorreu a argumentos chantagistas que visam a sua eleição à primeira volta e o tornam um candidato muito contraditório (destacou o dinheiro que o Estado pouparia no caso de não se realizar uma segunda volta das eleições presidenciais, ainda que a sua campanha tenha sido a mais dispendiosa de todas).

Antevisão das Eleições Presidenciais

Em jeito de balanço, fazendo a antevisão dos resultados da eleições, tenho de admitir que, à partida, Cavaco Silva vencerá as presidenciais à primeira volta, sendo reeleito para o cargo com uma percentagem de votos ligeiramente superior a 50% (sem atingir os 58%), ficando Alegre no 2º lugar com uma percentagem compreendida entre 23% e 30% (sensivelmente).

No entanto, as últimas sondagens revelam uma descida de 7% nas intenções de voto em Cavaco Silva, que se situa agora nos 55%, enquanto Manuel Alegre se mantém aproximadamente constante, algures nos 25% ou 28% (as sondagens divergem bastante, como sabemos). Além disso, é sabido que, nas eleições presidenciais de 2006, não se realizou uma segunda volta por apenas algumas décimas, quando as sondagens à boca das urnas davam a vitória a Cavaco com 60% dos votos. Algo semelhante aconteceu em 2001, quando as sondagens concediam 64% a Jorge Sampaio, que viria a ser reeleito com apenas 55% dos votos dos portugueses (confirmem no quadro que vos apresento aqui em baixo).

Nesse sentido, acredito plenamente na realização de uma segunda volta. Acho bastante verosímil que a percentagem de votos de Cavaco Silva se situe entre os 48% e os 52%, ficando Manuel Alegre algures nos 30%, com Fernando Nobre ultrapassando os 10% ou 12% e os outros 3 candidatos, juntos, perfazendo também cerca de 10%. Tudo isto são especulações, mas parece-me que a segunda volta surge claramente como uma possibilidade em aberto.

Balanço Final: Os Resultados, as Circunstâncias, o Desempenho de Alegre e Imagem de Cavaco

Em suma, penso que a boa campanha de Alegre, mas sobretudo a postura desastrosa de Cavaco Silva, não passarão incólumes. Se o actual PR será reeleito? É provável. No entanto, há que destacar o bom trabalho de Manuel Alegre, cujo desempenho nesta campanha superou as minhas expectativas.

A divisão da esquerda, o sorriso falso e muito enganador de Cavaco, a ideia errónea de que precisamos de Cavaco como garantia da estabilidade governativa (os seus tabus e meias palavras são uma ameaça a esse conceito de estabilidade governativa) e a dificuldade em lidar com a mudança manifestada pelas massas populacionais criaram um ambiente hostil para a candidatura de Manuel Alegre. Todavia, ele a sua equipa de campanha tiveram a sagacidade necessária para inverter esta tendência e transformar as eleições presidenciais num acontecimento político desconfortável para Cavaco Silva, cuja irritação e rancor denunciaram o indivíduo repudiável que se esconde por detrás da máscara.

Mas ainda é possível uma segunda volta! Tudo depende daquilo que os portugueses decidirem amanhã… E espero que os meus compatriotas exerçam o seu direito de voto conscientemente, cientes de que na política não existem inevitáveis e das verdadeiras competências de cada um dos candidatos elegíveis.

2010 (parte 1): Formação Académica, Olimpíadas de Física, Futebol de Praia

Não sei bem por onde começar. Digamos que 2010 terminou, dando lugar a um novo ano, com 12 meses repletos de acontecimentos, ainda não sabemos quais: 2011.

Da minha parte, desejo a todos os meus familiares/amigos/conhecidos/leitores um excelente ano novo! Faço votos para que todos gozem de uma saúde revigoradora, capaz de vos impulsionar para grandes conquistas, concretizando os vossos desejos! E sempre numa perspectiva de paz e harmonia na relação com os outros, que vos permita encarar o dia seguinte com alegria e vontade de contribuir para um mundo melhor!

Eu, pelo meu turno, tenho um conjunto de objectivos e expectativas pessoais para 2011, intrinsecamente ligadas ao balanço individual que faço do ano de 2010, que se vai distanciando progressivamente, apesar de se ter despedido de nós num passado tão recente. Bem, passemos então à minha retrospectiva de 2010 e projecção de 2011.

2010

Não me sinto capaz de descrever o ano de 2010 numa ou duas palavras, por isso começarei pelo princípio, pelos factos, que são dados concretos. Foi um ano em que operei a transição dos 16 para os 17 anos de idade, o que se verificou, mais precisamente, no dia 9 de Junho (de 2010, claro está). Foi também o ano em que concluí o 11º ano de escolaridade, no Curso de Ciências e Tecnologias, e iniciei o 12º ano, última etapa do Ensino Secundário antes da entrada no Ensino Superior.

Espreitando horizontes futuros, participei nas Olimpíadas Portuguesas de Física, tanto na Fase Regional (Sul e Ilhas) como na Fase Nacional, obtendo o apuramento para o fascinante programa Quark, que tem em vista a preparação e selecção dos estudantes a participar nas Olimpíadas Internacionais e nas Olimpíadas Ibero-Americanas. Cultivando outra grande paixão, assisti pela primeira vez ao vivo a jogos de futebol de praia, quer ao Mundialito em Portimão quer à Superfinal da Liga Europeia em Lisboa, em experiências maravilhosas.

Mais viajado no contexto nacional, não deixei de fazer uma pequena visita ao estrangeiro, visitando a capital brasileira (Brasília) numa estadia da minha mãe. A nível de saúde, tudo decorreu dentro da normalidade, com uma energia vital que sempre me permitiu encarar o dia seguinte com vontade (ignoremos o pequeno mas muito aborrecido contratempo associado à fractura da falange distal do dedo médio da mão esquerda).

Bem, acabei de enumerar alguns factos decisivos na minha análise pessoal do ano de 2010. Que interpretações poderei fazer destes e de outros acontecimentos?

Um ano sorridente

Bem, em primeiro lugar, direi que não posso deixar de sorrir quando contemplo, com alguma saudade, este inesquecível ano de 2010. Claro que não se compôs inteiramente de coisas positivas, albergando também, aqui ou ali, uma ou outra experiência mais desagradável. Contudo, os momentos negativos são muitas vezes melhor fonte de aprendizagem do que as alegrias da vida, algo que eu julgo poder aplicar ao meu ano de 2010: retirei ensinamentos positivos de cada acontecimento, de cada experiência, de cada atitude, minha ou alheia, e assim saí beneficiado de todo este processo, chegando a 2011 com uma maior preparação para a vida do que aquela que tinha 365 dias atrás. Além disso, penso que os tais aspectos negativos foram claramente ofuscados pela riqueza de experiências positivas que marcou este twenty ten.

Formação Académica

Passando ao exame da componente académica, verifico que os meus objectivos foram alcançados com sucesso. Tanto o 2º como o 3º períodos lectivos do 11º ano decorreram dentro das minhas expectativas, com o meu trabalho a potenciar notas altas, que se coadunavam com as minhas capacidades. Os exames nacionais não correram tão bem, não por falta de estudo, mas por pequenas distracções idiotas e factores exteriores a mim, que me privaram das notas que ambicionava, levando a uma descida de 1 valor nas disciplinas de Física e Química e de Biologia e Geologia. Ainda assim, a minha média interna pouco se ressentiu dessa descida, que não hipoteca, de modo algum, a minha entrada na Universidade (todo indica que conseguirei entrar em qualquer curso com bastante segurança).

Nos últimos meses de 2010, o 1º período do 12º ano de escolaridade trouxe-me boas expectativas para esta derradeira etapa do Ensino Secundário, dado que desenvolvi um trabalho metódico e contínuo, que se espelhou na concretização das minhas expectativas, começando o ano com notas altas que me proporcionam uma boa base de trabalho para o futuro.

Olimpíadas de Física

As Olimpíadas de Física correspondem a outro capítulo da minha formação académica, complementando a acção do ensino a nível escolar. Indubitavelmente, esta iniciativa louvável da Sociedade Portuguesa de Física (SPF) tem contribuído para alimentar a minha paixão pela Física, fornecendo-me um conjunto de bases que decerto me serão muito úteis no futuro, não só em termos de aquisição de conhecimentos científicos, mas também ao nível da participação em projectos de grande envergadura no âmbito da Física. Em relação ao primeiro aspecto, as provas testaram e estimularam a minha capacidade de resolução de problemas, confrontando-me com situações novas, tendo sobretudo contribuído para me aproximar mais da componente experimental.

Acerca da outra componente, igualmente importante, sublinharei a oportunidade de conhecer, a propósito da Fase Regional (na qual me classifiquei entre os 10 primeiros, com grande surpresa minha), o edifício do Instituto Superior Técnico (IST) do Tagus Park, em Oeiras, que muito cativou a minha atenção, embora presentemente não o veja como uma hipótese para o meu futuro. Porém, a experiência verdadeiramente inesquecível estava guardada para o dia 5 de Junho, data da Fase Nacional, realizada em Lisboa, no estimado Museu da Electricidade, onde conheci muitas pessoas e fiz alguns amigos, ao longo de um dia que começou com muitos nervos, mas se tornou magnífico com um almoço de grupo, a visita ao museu, a participação nas iniciativas científico-desportivas ao ar livre e a declaração dos vencedores, durante a qual me foi atribuída uma surpreendente menção honrosa, acompanhada da informação de que estava pré-seleccionado para integrar o programa FísicaQuark, a ter lugar na Universidade de Coimbra nos primeiros meses de 2011! Foi fantástico.

Futebol de Praia

Viajando de paixão em paixão, passamos agora a uma outra, curiosamente também começada pela letra f (felizmente): o futebol de praia! Ora, não é novidade nenhuma este meu fascínio pela modalidade desportiva. No entanto, em 2010, vivi experiências memoráveis que ainda não figuravam na minha história pessoal. Se, por força da menor frequência dos treinos e incompatibilidade de horários, não foi tão assíduo na assistência aos treinos da selecção nacional, se, por impossibilidade logística, não tive a oportunidade de estar presente em Viseu aquando da realização da competitiva Spring Cup 2010, com muita pena minha, a verdade é que nada tenho a lamentar em relação à forma como vivi o futebol de praia no ano transacto, dado que os meus desejos se viriam a realizar gradualmente.

É neste contexto que se enquadra o fim-de-semana em Portimão, onde assisti ao espectáculo (sim, não há palavra melhor para descrever o ambiente fantástico com o qual contactei e do qual fui parte) do Mundialito de Futebol de Praia 2010! A selecção nacional não venceu a competição, infelizmente (por motivos diversos, que não vou explicar aqui), mas fez uma bela prestação! E se a equipa lusitana não logrou oferecer ao público presente o terceiro título consecutivo na competição, não deixou de me proporcionar momentos fantásticos, não só no estádio mas também fora dele, quando tive a honra de almoçar com o grupo da selecção nacional, a convite do seleccionador nacional, José Miguel Mateus, e do coordenador nacional do futebol de praia, João Morais. E assim, antes do jogo decisivo frente ao Brasil, tive a oportunidade de contactar de uma maneira diferente com os heróis da equipa das quinas, em momentos de pura boa disposição!

E, se a selecção nacional não teve sorte na primeira competição de futebol de praia a que fui assistir ao vivo, as minhas preces de adepto não poderiam ter sido mais bem atendidas pelas forças do destino (ou da BSWW), uma vez que a Superfinal da Liga Europeia de Futebol de Praia se disputaria em Lisboa, mais concretamente em Belém, a cerca de apenas 2 km do meu local de residência! Não havendo interferência com as datas de férias, fui certamente o espectador “civil” mais assíduo de toda a competição, testemunhando 16 dos 18 jogos que tiveram lugar no Terreiro das Missas. Enfim, foi um torneio verdadeiramente incrível e uma experiência fabulosa, principalmente porque Portugal se sagrou campeão europeu de futebol de praia, após uma final à qual assisti na bancada VIP, acompanhado por 11 pessoas muito especiais que aceitaram o meu convite para virem puxar pela selecção nacional na última batalha da época! E depois os autógrafos, o contacto com pessoas que não conhecia, a partilha da alegria sentida por todos os membros da família do futebol de praia português…

Encerrando o assunto do futebol de praia, direi que foi mesmo um ano especial, não só pelas marcas anteriormente referidas, mas também porque o trajecto da selecção nacional foi muito positivo, conseguindo a qualificação para o mundial, a reconquista do título europeu e a recuperação da liderança do ranking europeu da modalidade, numa temporada que poderia ter sido ainda mais rica em títulos, dado que Portugal alcançou todas as finais de torneios importantes. A equipa demonstrou evolução ao longo do ano e reagiu com distinção às adversidades que foram surgindo, como a saída de jogadores importantes na equipa, contraposta por uma eficaz adaptação de novos jogadores à selecção nacional. A nível de clubes, Portugal deu um passo decisivo, por meio da organização do primeiro circuito nacional de futebol de praia, sob a alçada da Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

Músicas que nos marcam: Liebestraum (Franz Liszt)

Todos temos músicas que nos marcam profundamente. Diferentes pessoas, em momentos distintos da sua vida, inspirados de um modo particular pela beleza de viver, sentem esta impressão maravilhosa por peças musicais muito variadas, enquadradas numa espantosa diversidade de sons e experiências.

Mas como descrever esta sensação espantosa que repetidamente surge na história biográfica de cada um? Parece-me que nos resta procurar uma explicação baseada na sua inexplicabilidade! Na minha perspectiva, incompreensivelmente, estas preciosidades musicais conquistam a nossa alma, num momento de magia, de imponderabilidade… como se a beleza dos sons nos guiasse numa viagem, harmoniosamente leve, por entre as suaves nuvens de veludo… ou uma aventura vibrante num bosque colorido, como num jovem rio que desce alegremente o seu leito cristalino… ou nos libertasse da prisão corporal em que somos forçados a viver e nos permitisse contemplar, em toda a sua extensão, a melancolia latente que nos dominou e nos oprimiu tão cruamente…

Talvez o processo não seja bem este, nas suas manifestações, mas a sua essência transcendental carrega indubitavelmente uma magia profunda e flutuante que nos domina quando escutamos o som emanado. Admito alguma incoerência nas definições, mas o seu valor reside justamente na sua subjectividade, naquilo que o fenómeno representa para mim.

Liebestraum

Em artigos anteriores, já vos trouxe belos momentos musicais, que considero estarem no topo das minhas preferências, pelo significado que têm para mim e pela riqueza de sensações que experimento ao escutar estas peças. No entanto, em tempos recentes, a minha selecção de relíquias musicais recebeu uma nova frescura, desta vez referente ao auge do romantismo do século XIX (uma época de grandes revoluções na música). De facto, tenho escutado esta peça repetidas vezes nas últimas semanas, deixando fluir em mim a magnificência natural e simples de tão bela produção da mente humana…

Falo de Liebestraum, uma peça para piano datada de 1850, da autoria do compositor húngaro Franz Liszt. Terceira secção de uma sequência de três Liebesträume, baseada num poema de Ferdinand Freiligrath, esta prodigiosa e comovente peça musical revela uma forma profunda e duradoura de viver o amor, na sua natureza mais pura e maravilhosa. Uma obra de uma beleza simplesmente indescritível!

Amplamente conhecida no vasto mundo da música erudita, o Liebestraum decerto já tinha chegado até mim, em ocasiões anteriores, pois tenho a certeza de já ter escutado antes a sua melodia doce, mas intensa. Confesso que, na primeira ocasião em que voltei a ouvir a peça, depois de uma longa separação, verti algumas lágrimas, o que me surpreendeu, dada a raridade do fenómeno. Mas agora que olho para trás vejo o choro como uma reacção normal do meu lado emocional à profusão de sensações que o Liebestraum nos pode proporcionar.

Não voltei a chorar, é certo, mas continuo a encarar a peça como uma música muito especial, que me traz um prazer enorme quando a escuto atentamente. Sim, esta é uma daquelas músicas marcantes de que vos falei!

Caricatura formidável de Franz Liszt, que tanto me aterrorizou em criança.

Curiosidades

  • Liebestraum significa Sonho de Amor em alemão, ilustrando na perfeição a carga emocional da música e a enorme diversidade de sensações que pode despertar nos seus ouvintes.
  • O meu primeiro contacto com Franz Liszt ocorreu através de um livro de História da Música no qual o célebre compositor romântico era descrito como um virtuoso ao teclado, sendo por isso caricaturado como um monstro de muitos braços e feições que mais faziam lembrar uma bruxa de contos de fadas: uma imagem aterradora que pode ser observada na figura do lado. Quem diria que, muitos anos mais tarde, viria a idolatrar uma das suas peças como uma das mais belas obras musicais que tive a oportunidade de escutar?