Recordemos Blake Edwards (A Pantera Cor de Rosa)


Estava eu sossegadamente desfrutando do primeiro almoço de férias natalícias, quando sou surpreendido por uma inesperada nota de rodapé do Jornal da Tarde (RTP), informando a morte do cineasta norte-americano Blake Edwards.

Fiquei pensativo, por uns momentos. Na verdade, pouco sabia acerca do realizador. Desconhecia mesmo que ainda estava vivo. Foi, por isso, um misto de interrogações e de alguma tristeza que se apossou da minha mente naquele momento, ao saber do falecimento do ilustre realizador da série de filmes A Pantera Cor de Rosa, que tantas gargalhadas me tem proporcionado. Mas antes de vos falar desta sua criação em concreto, gostaria de partilhar convosco alguns dados que obtive na minha pesquisa sobre Blake Edwards.

1ª PARTE: BLAKE EDWARDS: VIDA E CARREIRA

William Blake Crump nasceu em Tulsa, no estado de Oklahoma, no dia 26 de Julho de 1922. Filho de um realizador de cinema, acabaria por seguir as pisadas do pai, ainda que se tenha estreado como actor e argumentista, ligado sobretudo à rádio. Nesta primeira fase da sua carreira, o futuro cineasta evidenciou-se ao escrever 7 peças de teatro para o conceituado actor Richard Quine e ao participar brilhantemente na elaboração do argumento para o famoso filme de Orson Welles, War of  the Worlds, de 1938.

Foi, no entanto, como argumentista da série televisiva Richard Diamond, Private Detective (NBC) que Blake Edwards deu a conhecer ao mundo o seu humor muito peculiar, dotado de um estilo inconfundível, em 1959. Sensivelmente ao mesmo tempo, Blake Edwards escreveu para as séries televisivas Peter Gunn e Mr. Lucky, com música do célebre Henry Mancini, marcando o início de uma longa e frutuosa colaboração entre ambos.

Realizador

Entretanto, Blake Edwards ia começando a sua longa carreira de realizador, que se iniciou, mais concretamente, em 1955, com o filme Bring Your Smile Alone. Nos anos seguintes deu seguimento aos seus projectos, numa linha de trabalhos que acabaria por culminar em Breakfast at Tiffany’s, comédia romântica de 1961 em que Aydrey Hepburn interpreta o papel principal. Todos estes filmes se enquadravam no género cómico, partindo de guiões de Blake Edwards.

Nos anos seguintes, abraçou projectos de outro tipo, dirigindo filmes cujos argumentos não eram da sua autoria, correspondentes a outros géneros cinematográficos. Aqui se encontram Experiment on Terror, de 1962, e Days of Wine and Roses, do mesmo ano. Estas são praticamente as únicas produções de Blake Edwards que não se inserem na comédia, a sua arte natural. Não obstante, o seu bom trabalho como realizador foi igualmente reconhecido.

A Pantera Cor de Rosa

Foi em 1963 que A Pantera Cor de Rosa veio ao mundo. Ideia resplandecente, desenvolvida num guião da autoria de Blake Edwards e Maurice Richlin, a comédia A Pantera Cor de Rosa conheceu um enorme sucesso, em grande parte devido a uma excelente interpretação de Peter Sellers, na pele do desastrado Inspector Closeau, que catapultou uma longa cooperação entre os dois mestres da comédia. Assim, a dupla levou a cabo uma série de 5 filmes, tornando A Pantera Cor de Rosa uma lilariante série de culto. Mesmo depois da inesperada morte de Peter Sellers, em 1980, Blake Edwards deu seguimento ao projecto, realizando 3 outros filmes, socorrendo-se de diferentes soluções para manter viva a série.

O relacionamento entre Blake Edwards e Peter Sellers assumiu contornos muito peculiares. De facto, a colaboração profissional obteve sempre excelentes resultados, com os 5 filmes de A Pantera Cor de Rosa a serem acompanhados por A Festa. No entanto, entre eles existiu sempre um clima de tensão, apesar dos respeito e admiração mútuos.

Julie Andrews

Entretanto, a vida de Blake Edwards foi marcada por um acontecimento de grande valor simbólico: o seu casamento com a maravilhosa actriz Julie Andrews (Mary Poppins, Música no Coração), em 1969. Foi o seu segundo casamento, dado que se divorciara de Patricia Walker. Desta vez, o amor foi mais duradouro, com a relação matrimonial a prolongar-se até à data da morte de Blake Edwards. Na verdade, fiquei surpreendido quando soube que eram casados, pois embora sejam dois vultos do cinema que admiro imenso, nunca tinha investigado esse assunto.

Aqui podem encontrar um excerto de um documentário recente acerca da vida de Blake Edwards, onde se contempla o momento em que conhece Julie Andrews, acabando por desposar a ilustre actriz, que viria a integrar o elenco de muitos dos seus filmes:

O casamento, como seria de esperar, levou a uma união das suas carreiras, com Julie Andrews a integrar o elenco de diversos filmes de Blake Edwards, tais como Darling Lili, 10 e Victor/Victoria. De realçar ainda que este último foi uma das mais conceituadas produções de Blake Edwards, nomeado e vencedor de vários prémios de cinema, sendo que a prestação de Julie Andrews foi um dos principais motivos para o reconhecimento da qualidade do filme.

Balanço

A obra cinematográfica de Blake Edwards, nas funções de realizador, de argumentista ou ambas, engloba um total de 38 filmes, com uma tonalidade humorística muito característica e notáveis competências cinematográficas. Ao contrário de outros realizadores do seu tempo, Blake Edwards foi pouco premiado enquanto esteve em actividade, talvez por se dedicar ao cinema cómico, muitas vezes desvalorizado como algo inferior. Ainda assim, em 2004, a Academia de Hollywood decidiu compensar esta lacuna, atribuindo um Óscar honorário a Blake Edwards pela sua longa carreira de qualidade.

Podem ver, em baixo, o registo do instante em que Blake Edwards recebe o prémio, das mãos de Jim Carrey, num momento simultaneamente hilariante e comovente. Um grande simbolismo associado a esta entrega do Óscar da Academia de Hollywood, num tributo mais do que merecido a um cineasta único!

Blake Edwards faleceu na passada 4ª feira, 15 de Dezembro de 2010, na sequência de complicações provocadas por uma pneumonia. Os derradeiros momentos da sua vida foram passados no centro de saúde de Saint John, em Santa Mónica (Califórnia), sempre com a esposa Julie Andrews e os seus filhos ao lado.

Figura incontornável da comédia, Blake Edwards foi o génio criativo por detrás de momentos hilariantes históricos, incutindo a subtileza dos detalhes em cada momento das suas obras. Mestre da realização e argumentista de capacidades singulares, conquistou um lugar de destaque na História do cinema. E cativou o meu interesse pelas preciosas gargalhadas que me proporcionou com A Pantera Cor de Rosa.

2ª PARTE: A PANTERA COR DE ROSA

Falarei agora especificamente da fantástica série A Pantera Cor de Rosa, dando a conhecer, em traços gerais, do que se trata exactamente, realçando algumas informações que considero mais relevantes.

1. No primeiro filme, de 1963, A Pantera Cor de Rosa (The Pink Panther), a acção gira em torno de um diamante imensamente valioso, a Pantera Cor de Rosa. O filme incluía uma pequena sequência animada no princípio, em que um felino cor de rosa ganhava vida no interior do fabuloso diamante, apresentando o filme e os créditos iniciais. De facto, o sucesso arrebatador desta animação acabou por levar à criação dos cartoons da Pantera Cor de Rosa, por parte de Friz Freleng e David DePatie.

Em relação ao filme, centra-se na investigação levada a cabo pelo inspector francês Jacques Closeau no sentido de desmascarar o autor de uma série de roubos em todo o mundo, conhecido como o fantasma, enquanto tenta impedir que o diamante cor de rosa, pertencente a uma bela princesa indiana, seja roubado. Com toda uma série de personagens fascinantes, envoltas numa intrincada teia de relações amorosas e laborais, o filme combina uma história misteriosamente imprevisível com deliciosos momentos de humor! Confiram o trailer, igualmente criativo:

2. Considerado por muitos, incluindo eu mesmo, o melhor filme da série, Um Tiro às Escuras (A Shot in the Dark) tem por base o acompanhamento minucioso de um caso policial da maior importância, investigado pelo inigualável inspector Closeau. Ainda que o assassinato do motorista de uma família abastada parece ser um crime facilmente resolúvel, a paixão avassaladora do detective pela principal suspeita acaba por conferir contornos bem mais originais e interessantes ao enredo.

Seguindo umas pistas e desprezando outras, Closeau vai prosseguindo o seu trabalho, à medida que o número de mortos vai aumentando e as investidas desesperadas de alguém para o matar também. Além de extremamente hilariante, a excelente construção do filme e a magnânima interpretação de Peter Sellers tornam este filme, de 1964, uma obra imperdível:

3. Quanto aos outros filmes da série, gostaria de focar alguns aspectos que me parecem relevantes. Não vi ainda o terceiro filme, O Regresso da Pantera Cor de Rosa (The Return of the Pink Panther), mas tive a oportunidade de ver (e rever) A Pantera Volta a Atacar (The Pink Panther Strikes Again), um filme que, não tendo a coerência de acção dos anteriores, está recheado de deliciosos momentos de humor, muito subtis e cativantes, como o do vídeo em baixo!

O último filme da série publicado em vida de Peter Sellers foi A Vingança da Pantera Cor de Rosa (The Revenge of the Pink Panther), não tão divertido como os anteriores, mas que ainda assim não desmerece um lugar honroso no panorama do cinema cómico.

4. Em Na Pista da Pantera Cor de Rosa (On the Trail of the Pink Panther), Blake Edwards procurou prestar um tributo a Peter Sellers, utilizando cenas cortadas de A Pantera Volta a Atacar (The Pink Panther Strikes Again) e reunindo novamente grande parte do elenco do primeiro filme, bem como outros actores de estatuto reconhecido, numa história que girava em torno do desaparecimento do inspector Closeau. No entanto, a viúva de Peter Sellers processou Blake Edwards por ter difamado a imagem do seu falecido marido, obrigando ao pagamento de uma multa avultada e a uma mudança de estratégia nos filmes da Pantera Cor de Rosa.

Foi o que aconteceu em 1983, com A Maldição da Pantera Cor de Rosa (The Curse of the Pink Panther), em que um desastrado detective norte-americano substitui o inspector Closeau, investigando as causas do seu desaparecimento, ou em 1993, com Roberto Benigni a interpretar o filho ilegítimo do inspector Closeau em O Filho da Pantera Cor de Rosa (The Son of the Pink Panther). Foi, de resto, o último filme do cineasta, precisamente no ano do meu nascimento!

Bem, é tudo por hoje. Recordemos a memória do grande realizador que Blake Edwards foi e desfrutemos da inigualável PANTERA COR DE ROSA!

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