Um dia inesquecível com a selecção nacional no Mundialito 2010 (parte 2)


Conversas singulares após a refeição

Quando os nossos valentes jogadores se retiraram para os seus quartos, onde iriam aguardar pela hora da reunião de grupo, fiquei sozinho na sala de almoço com os membros da equipa técnica. Foram uns momentos muito bem passados, porque os meus companheiros tinham histórias muito divertidas para contar e foi num ambiente de clara boa disposição que partilharam as suas aventuras com os artigos chineses das arábias.

Na verdade, os relatos da comitiva portuguesa centraram-se nos telemóveis que haviam adquirido no mercado chinês do Dubai, cujas infinitas peculiaridades me surpreenderam enquanto me proporcionavam uma excelente dose de bom humor. Não utilizarei aqui nomes, para não invadir a privacidade de ninguém, mas gostaria de referir algumas das potencialidades destes singulares dispositivos.

Segundo os meus companheiros, o mercado chinês era 100 vezes maior do que a feira instalada na Praça de Espanha, em Lisboa, exigindo por isso um dia inteiro para os visitantes que desejassem empreender uma exploração profunda. Os telemóveis eram aos milhares, certamente muito diferentes uns dos outros, mas todos com a feliz particularidade de serem excepcionalmente baratos. Assim, a compra de um telemóvel tornava-se uma verdadeira lotaria, sendo a qualidade do mesmo uma verdadeira incógnita. Um dos elementos da equipa técnica afirmava ter adquirido dois telemóveis que ainda trabalhavam na perfeição. O seu colega, ainda mais sortudo, gabou as qualidades do seu telemóvel Ferrari, com luzes e toda uma série de funcionalidades nunca dantes vistas!

Mas a situação mais caricata sucedeu com um terceiro membro da equipa técnica, que teve menos sorte ao tomar a sua opção: o raio do telemóvel apresentava uma função que lhe conferia a voz do pato Donald, escutada pela pessoa a quem era dirigido o telefonema sem que ele próprio se apercebesse do problema! Em circunstâncias normais, esta característica do telemóvel poderia ter proporcionado umas boas gargalhadas. Contudo, a anomalia do aparelho manifestou-se na pior altura possível, quando o nosso companheiro estava perdido no deserto, telefonando aos membros da organização do Mundial Dubai 2009 na ânsia de ser socorrido. Compreende-se facilmente o estado de desespero e irritação em que mergulhou quando ouviu risos do outro lado da linha! A aparente inexplicabilidade do sucedido terminou no dia seguinte, quando lhe foi dada a conhecer a voz transfigurada com que pedira auxílio.

Depois do almoço, esperar pela reunião, ou seja, conversar um pouco mais

Findas as narrativas fantásticas dos meus companheiros, chegava a hora de nos retirarmos da sala de refeições. Acompanhei, por isso, o comissário técnico, João Morais, à sala de estar do hotel, junto à entrada, onde as notícias desportivas ocupavam o ecrã da televisão. Nada de muito interessante, visto que eram dominadas pela conquista da Supertaça Portuguesa em futebol de onze por parte do FC Porto (sou adepto do Benfica). Assim sendo, decidi regressar ao sofá onde me sentara uma hora antes, fazendo companhia ao Pedro, um membro da equipa ténica que eu não conhecia.

Claro que começámos imediatamente a conversar. Inicialmente, interroguei-o acerca das suas funções na selecção nacional, o que o levou a contar a sua história no futebol de praia desde o princípio. Fiquei a saber que se encontrava a estagiar com a equipa, de modo a conseguir aprender mais sobre a modalidade, desenvolvendo competências que fizessem dele um verdadeiro treinador de futebol de praia, enquanto ajudava o Zé Miguel com as estatísticas e outras componentes importantes do trabalho do seleccionador nacional. Porém, a sua relação com a modalidade remontava aos primórdios do Mundialito de Futebol de Praia, quando ainda tinha lugar na Figueira da Foz, terra natal do Pedro, uma vez que desempenhava um papel activo na organização de todo o evento.

Posteriormente, recebera um convite dos dirigentes da Naval 1º de Maio para fundar e orientar uma equipa de futebol de praia, que representaria o clube da Figueira da Foz. Alguns anos decorridos desde a criação da secção, a equipa estava a crescer de forma favorável, com um grande contributo por parte dos jogadores, que também desempenhavam funções técnicas. No entanto, o Pedro desejava adquirir mais experiência como treinador, de maneira a melhorar as condições da equipa e a libertar os seus jogadores dessas funções.

Esclarecido esse ponto, foi a minha vez de, respondendo a uma pergunta do meu novo amigo, lhe narrar o meu percurso como fã do futebol de praia e da selecção nacional. Não vale a pena escrever aqui o que disse, pois isso daria um longo resumo da minha carreira de adepto, desde a notícia do telejornal da RTP acerca de uma vitória de Portugal contra a Itália em Carcavelos no ano de 2003 até àquele Mundialito 2010 em Portimão, que era o primeiro evento a que assistia ao vivo. Afavelmente, o Pedro valorizou esta minha atitude como adepto de futebol de praia, reiterando a importância de existirem pessoas que seguem a modalidade e contribuem desta forma para o seu crescimento.

Falámos depois desta edição do Circuito Nacional de Futebol de Praia, a primeira de sempre, e da prestação da Naval 1º de Maio em concreto, o que me permitiu compreender melhor as difíceis condições de trabalho daquela equipa e o mérito associado às sua participação na competição. Basicamente, fiquei satisfeito com o que me foi dado a conhecer, pois demonstra bem a dedicação destas pessoas à modalidade, continuando a trabalhar e a progredir mesmo quando recebem pouco apoio. E os frutos desse trabalho vão sendo colhidos, a pouco e pouco, com o jogador Vítor Maranhão, deste mesmo clube, a fazer parte dos convocados do Zé Miguel para esse Mundialito!

Momentos de felicidade para um jovem, Madjer em grande a todos os níveis

Terminada a nossa conversa tão construtiva, eu e o Pedro fomos ajudar o incontornável Juju a arrumar o material desportivo no porta-bagagens da carrinha e do autocarro ao serviço da selecção portuguesa. Ora, enquanto nos encontrávamos no exterior do hotel, fomos interpelados por uma senhora, acompanhada pelo seu filho, também ele uma amante do futebol de praia e admirador do Madjer em particular. O rapaz queria muito ver a selecção nacional ao vivo, mas eles não podiam comparecer ao duelo com o Brasil na Praia da Rocha, pelo que tinham ido até ao hotel a fim de satisfazer o seu desejo.

Embora a partida dos jogadores para o estádio estivesse agendada para depois das 14h, o contacto com os heróis das areias estava longe de ser impossível, de tão perto que eles estavam. No entanto, os atletas encontravam-se na hora do descanso, que deveria ser respeitada. Mas não seria esta uma situação merecedora de uma excepção às regras? Pois claro que sim! E foi com esse espírito que o Pedro, tão comovido como eu, foi chamar o Madjer, capitão da nossa selecção e ícone do futebol de praia português. Sem hesitar, João Vítor Saraiva (pois é esse o seu verdadeiro nome) aceitou o convite e instantes depois o seu rosto sorridente assomava às portas do elevador, enchendo de felicidade o jovem admirador.

A timidez do rapaz decerto ocultou os sinais de alegria que despontaram no seu espírito, quando tirou uma fotografia junto do seu ídolo, de quem recebeu um precioso autógrafo: Mad7r (mais ou menos assim). Um momento fabuloso, de uma beleza incrível, de tal modo que apenas quem presenciou a cena pode compreender realmente o quão profundo e comovente foi aquele episódio. Fiquei contente pelo miúdo, pois partilho o seu fascínio pelo Madjer e conheço bem aquela sensação maravilhosa por ele experimentada.

Quanto ao Madjer (que teve de regressar ao seu quarto pelas escadas, devido ao mau funcionamento do elevador do Hotel Globo, ao qual teceu duras críticas, merecedoras de todo o meu apoio), deu mais uma prova da sua integridade moral absolutamente exemplar, mostrando que além de um grande jogador é também uma pessoa fantástica, algo que, aliás, partilha com todos os seus colegas de equipa. Sim, tenho orgulho em ser adepto de um grupo assim!

Mais conversa, concentração dos atletas

Após este episódio marcante, eu e os meus companheiros da equipa técnica continuámos à espera da hora marcada para o encontro dos jogadores na sala de estar do hotel. Felizmente, o Juju estava no exterior com o Nuno, treinador dos guarda-redes, e contava histórias do seu passado, de quando era jogador de futsal no Brasil.

Começou por afirmar que aquele gesto, tão significativo, era bonito, sendo mais importante a acção em si do que qualquer fotografia ou autógrafo, algo com que eu concordo inteiramente. E, partindo deste exemplo vindo da interacção entre o Madjer e o seu jovem adepto, contou-nos uma história semelhante em que ele, Juju, tinha recebido das mãos do seu maior ídolo do futsal a camisola que ele usara durante um jogo da sua equipa, ficando absolutamente radiante, pelo gesto em si. Finalmente, narrou algumas das suas divertidas peripécias enquanto guarda-redes de futsal, sempre com a boa disposição e alegria natural que o caracteriza.

Seguidamente, sentindo a aproximação da hora da reunião, entrámos no hotel, aguardando pelos nossos atletas nos confortáveis sofás (outra vez!). Por iniciativa do Pedro, foram tiradas algumas fotos, para mais tarde recordar, e foi com boa vontade que o fotografei, sentado ao lado do Nuno. Seguidamente, fui convidado pelo próprio Pedro para aparecer numa fotografia ao lado do treinador de guarda-redes, proposta essa que aceitei de bom grado. E foi então que começaram a chegar os craques do futebol de praia nacional.

O Madjer foi o primeiro a descer, mas foi rapidamente acompanhado pelos seus colegas de equipa, que apareceram na sala de estar algum tempo antes da hora agendada para a reunião. Aproveitei então a ocasião para pedir um autógrafo ao Madjer, a fim de satisfazer o desejo do irmão de uma amiga minha, também ele um fã da modalidade e do número 7 português em particular. Arranjar um papel na recepção do hotel e uma caneta no dossier do Nuno foi obra de segundos e aquilo que começara por ser uma simples busca de uma assinatura do melhor jogador do mundo transformou-se numa recolha de autógrafos da melhor selecção do planeta! Assim, um a um, todos os atletas da nossa selecção foram assinando a folha, deixando a sua marca lusitana na alvura do papel, que faria as delícias de mais um adepto! Enquanto isso, circulava pelos jogadores uma camisola de Portugal, que seria autografada e entregue ao representante da Câmara Municipal de Portimão.

Entretanto, outro episódio interessante do ponto de vista humorístico sucedeu, envolvendo 3 jogadores diferentes: o Graça, o Madjer e… não vão adivinhar… o Bilro! Tudo começou quando eu felicitava o nosso grande guarda-redes, Paulo Graça, por não ter sofrido nenhum golo no jogo frente à Argentina, incluindo uma defesa a um penalti no seu vasto espólio de intervenções fantásticas. Mesmo confrontado com a humildade do guardião, insisti com a minha ideia, acabando por passar a outro ponto da questão: o penalti, resultante de uma suposta infracção do Bilro durante a execução de um lançamento lateral, existia efectivamente? Foi isso que perguntei ao Paulo, ao que ele não tencionou responder, reencaminhando a interrogação para o Bilro, que por acaso estava sentado mesmo ao seu lado, lendo o jornal A BOLA…

Seguro de si mesmo, firme nas suas convicções, o valoroso atleta português, sem tirar os olhos do papel, retorquiu com um valente «NÃO!» que na altura me convenceu completamente. Aliás, o olhar resignado do Paulo Graça mostrava que também ele se rendera à autoridade do seu colega de equipa. Mas esta submissão dos ouvintes às opiniões falaciosas do Bilro não durou muito tempo, já que um golpe de estado vigorosamente levado a cabo por Madjer, sentado no sofá em frente, pôs fim à ditadura Bilrista, através de um formidável brado: «É penalti sim senhor!». Claro que o capitão português, um pouco aborrecido com a teimosia do seu companheiro, justificou convenientemente a sua convicção, persuadindo toda a gente, incluindo eu, exceptuando o pobre Bilro. Na verdade, o Bilro fora um dos melhores jogadores em campo na partida contra a Argentina, protagonizando uma excelente exibição!

Achei muito engraçada, esta situação! Mesmo numa pequena discussão, os jogadores da selecção nacional conseguem manter um notável bom ambiente, que certamente torna a vida mais saudável.

Continua na 3ª parte, a ser publicada em breve

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