Um dia inesquecível com a selecção nacional no Mundialito 2010 (parte 1)


Hoje Portugal foi derrotado pelo Brasil e deixou escapar o título do Mundialito de Futebol de Praia 2010. Quem viu o jogo, na Praia da Rocha ou pela televisão, conhece certamente as circunstâncias referentes à partida. Claro que muita gente não teve essa oportunidade, enquanto outros desejariam encontrar informação sobre o jogo, mas este post tem uma finalidade bem diferente.

Não se trata de relatar as ocorrências do jogo, realçar pormenores importantes, denunciar as tendências da equipa de arbitragem (tosse seca) ou de qualquer outro aspecto relacionado com o jogo, mas sim de dar a conhecer ao mundo o ambiente fabuloso que se vive na selecção nacional de futebol de praia e a maravilhosa atitude dos nossos jogadores (e equipa técnica) para com os adeptos. Em particular, este foi um dia muito especial para mim e eu gostaria de partilhar as minhas vivências espectaculares, tão carregadas de significado, com quem tiver um pouco de curiosidade.

Um Dia MUITO Diferente

Era o dia final do Mundialito de Futebol de Praia 2010. Portugal e Brasil, com duas vitórias nos jogos anteriores frente a EUA e Argentina, iam lutar pelo troféu no grande jogo da tarde, a ter início por volta das 15:15 (não contando com os habituais atrasos num evento desta envergadura). Eu, que estava em Portimão propositadamente para o torneio, tinha recebido um convite do seleccionador nacional, José Miguel Mateus, para tomar uma refeição com a equipa.

Por opção pessoal, escolhi o almoço do dia de hoje, que me parecia ser a ocasião mais interessante. Assim, ficara agendado um almoço para hoje, no Hotel Globo, onde a equipa estava hospedada, pontualmente às 11:30 (por força dos horários da competição). Deste modo, ainda antes das 11:15, já eu chegava à entrada do hotel, onde o meu pai me deixou, como estava combinado.

Dialogando com o Seleccionador Nacional

O Juju, técnico de equipamentos, figura incontornável da nossa selecção, estava na rua naquele momento, fumando sossegadamente o seu cigarro. Fui imediatamente saudado alegremente pelo meu caro amigo, sempre muito bem disposto, capaz de arrancar sorrisos da boca de qualquer pessoa. Soube, pelas suas palavras descontraídas, que o Zé Miguel se encontrava na sala de estar do hotel, logo na zona da entrada, para onde me dirigi prontamente.

Mais uma vez, fui cumprimentado com alegria, por alguém que admiro muito e que tem feito um excelente trabalho com a nossa selecção nestes últimos anos. Sentei-me no sofá, diante do Zé Miguel, e fomos conversando acerca de diversos assuntos, não só dentro da esfera do futebol de praia, mas também de mim e da grande paixão que tenho pela modalidade. Tomei assim conhecimento das novidades do campeonato italiano, onde as equipas com atletas portugueses se estão a comportar da melhor maneira, bem como da provável localização da Superfinal da Liga Europeia (quando foi oficial, poderei revelar tudo com exactidão, embora possa adiantar que em princípio será em Lisboa). O Circuito Nacional de Futebol de Praia e, claro, o jogo do dia contra o Brasil, também fizeram parte dos assuntos focados. Tudo num clima saudável, propício a uma troca de informações, ideias e experiências muito enriquecedora para ambos os lados.

Entretanto, o Juju regressou ao interior e subiu para o piso superior, momentos antes de começarem a surgir no átrio os outros membros da equipa técnica da selecção nacional. Foi o caso do Nuno, treinador dos guarda-redes, e do Pedro, actualmente a estagiar no grupo (embora eu ainda não o conhecesse propriamente). Todos muito simpáticos e extremamente receptivos à minha presença, gerando um bom ambiente que me agradou incondicionalmente. Quando o João Morais chegou, também ele uma pessoa fantástica, subimos todos ao andar do restaurante, utilizando o ineficiente elevador do hotel, onde tive honras de ser o primeiro a entrar.

Esperando antes do Almoço

Nenhum dos rapazes das areias estava presente. No entanto, foram aparecendo o Bruno Novo, o Madjer e o Alan, antes da chegada do Paulo Graça, do João Carlos, do chef Bilro, do Jordan, do Loja e do Vítor Maranhão. Todos muito animados, mas ao mesmo tempo tranquilos e visivelmente moralizados para o jogo que se avizinhava, foram todos maravilhosos na forma como interagiram comigo, com o bom humor reinante a dominar o compartimento onde aguardávamos a comparência do Coimbra e do Marinho. Ainda não conhecia o Vítor e tive o maior prazer de ser apresentado a este jogador que se tem notabilizado recentemente ao serviço da Naval.

Entretanto, fui chamado a intervir numa discussão entre os hilariantes Alan e Bilro, acerca de um lance ocorrido no jogo anterior, frente à Argentina, em que o Alan alegadamente teria usado o espaço disponível para progredir na zona central do campo e depois teria rematado por cima quando tinha o Bruno Novo e o inconformado Bilro a pedir a bola nas alas. Quando questionado acerca da jogada, respondi que não me recordava, embora fosse possível, resposta essa que não agradou muito ao Bilro. O pior foi mesmo quando o Alan ironizou que quando lhes passava a bola eles também não faziam golo, pedindo a confirmação da minha parte, que eu tive de conceder para não fugir à verdade.

Ai de mim! Apesar do sorriso do Alan e de um novo aperto de mão da parte do mesmo, tive de enfrentar a indignação do Bruno Novo, e sobretudo a raiva do te11ível Bilro, que já conservava algum “rancor” contra mim por uma situação semelhante verificada no dia anterior. Quanto ao Bruno, foi fácil: bastou admitir que tinha marcado um grande golo com assistência do Loja no primeiro jogo da competição contra os EUA. Em relação ao Bilro, cheguei mesmo a recear uma reacção violenta da parte deste jogador tão indisciplinado (claro que o mais indisciplinado é o árbitro espanhol que lhe dá os cartões, mas isso toda a gente sabe)! Felizmente, ficou-se pelas ameaças e por uma descarga de risos.

Fiquei também a conhecer a alcunha do Jordan, que apesar da sua aparente inibição quando ouve falar no assunto, decerto não se importará se eu a divulgar aqui: o Pistoleiro (ou Pistolas). Claro que na altura ele negou, disse para eu não acreditar, mas a verdade vinha ao de cima nos rostos sorridentes dos colegas de equipa: Jordan, o Pistoleiro!

A chegada dos defesas Coimbra e Marinho pôs fim a esta série de episódios cómicos, marcando também a entrada para a sala de almoço, mas não sem antes os seus companheiros de equipa fazerem uma paródia com a situação, brincando com a (falta de) pontualidade dos dois jogadores, como de resto seria de esperar.

Um Almoço Memorável

Foi esta uma das mais espectaculares refeições que tomei em toda a minha curta existência, não tanto pela comida, que por acaso até era bastante boa, mas pela companhia, absolutamente fantástica! Os nossos jogadores, que apesar de ainda ser cedo estavam com bastante apetite, atacaram imediatamente as deliciosas iguarias que se encontravam à nossa disposição, num buffet simples mas requintado que muito me agradou à primeira vista.

Ainda antes de me ir sentar, parei para escutar as palavras do Madjer, que revelava e comentava as mais recentes novidades do campeonato italiano (a Terracina, equipa forte, tinha perdido com o Mar de Roma, muito fraquinho, apenas para fugir ao Milão nos quartos-de-final da fase final da competição). O capitão da selecção nacional reprovava energicamente esta atitude da parte dos seus rivais (para quem não sabe, o Madjer joga no campeonato italiano, representando a Roma, onde também actua o Belchior, enquanto outros atletas portugueses estão dispersos por outras equipas) e não entendia como podiam eles querer ser campeões desta forma.

Eu fiquei espantado com esta notícia inesperada, dada a falta de qualidade do Mar de Roma, e questionei o craque lusitano, como quem pede confirmação para algo que já sabe, se aquela não era a equipa dos húngaros e alemães, ao que o Madjer acenou que sim com a cabeça, visivelmente irritado por aquela falta de desportivismo da parte do Terracina. Nesse momento, enquanto um jogador (penso que seria o Bruno Novo) ficava surpreendido por estes meus conhecimentos, o João Morais corroborava e dizia-me que era proibido perder com o Mar de Roma (sim, eles são mesmo fraquinhos).

Após este episódio muito interessante aos olhos dos amantes da modalidade, perguntei ao Pedro, o rapaz que estava a estagiar com a selecção nacional, qual seria o meu lugar na mesa colossal onde me sentaria para tomar uma refeição entre as figuras do Olimpo. Ele não sabia muito bem, embora tivesse uma ideia (seria no lugar que fora ocupado pelo Belchior antes de ele ter deixado o grupo), e sugeriu que eu esperasse um pouco, fazendo a pergunta ao Zé Miguel depois de os jogadores se terem sentado.

No entanto, tal não foi necessário, porque instantes depois o seleccionador nacional já me indicava o lugar que me estava destinado (era mesmo o lugar do Belchior, o que me deixou muito honrado), em frente ao Jordan, uma das novas caras da equipa em 2010, tendo à minha direita o Vítor Maranhão (que integrou a lista dos 12 convocados para o evento, embora não fizesse parte da lista dos 10 eleitos para os jogo do torneio) e estando à minha esquerda o Pedro. Podemos assim dizer que eu estava na zona de separação entre os jogadores e os membros da equipa técnica. Uma localização privilegiada, que me proporcionou uma experiência muito agradável.

Claro que não fui intromissivo ao ponto de interferir nas suas conversas que não me diziam respeito, mas ri bastante com algumas histórias que ouvi durante aquele almoço, referentes ao dia-a-dia da nossa selecção e a episódios cómicos que tinham ocorrido naquela estadia. A disposição dos jogadores parecia ser a melhor antes do grande jogo frente ao Brasil e isso notou-se naquela refeição.

No princípio, ainda houve tempo para o Jordan se surpreender com os meus arquivos de informação acerca da modalidade e da selecção nacional em particular, na sequência das minhas respostas às perguntas que os seus colegas me iam colocando. “Ele sabe mais do que tu do que tu próprio fizeste” foi a observação de um dos seus companheiros de equipa. Talvez seja verdade, mas é perfeitamente normal, porque tenho realmente boa memória e uma insaciável sede de conhecimento acerca daquilo que mais me interessa, sendo o futebol de praia um desses assuntos.

Golo, do Bilro! NÃO! Bolo, do Bilro!

Mas o aspecto mais importante daquele almoço inesquecível foi a sobremesa. Não me refiro às fatias de melancia e melão, nem tão pouco às ameixas que estavam à nossa disposição, mas sim ao delicioso pão de ló que repousava em cima da mesa do buffet. E como pode um simples bolo ser considerado por mim o momento alto de uma refeição tomada em circunstâncias tão especiais? Acaso teria ele um significado oculto, um segredo obscuro, uma receita misteriosa que o tornaria celestial? O que se passava com o bolo, afinal?

Para acabar com esta tentativa frustrada de colocar algum suspense no relato, digo-vos que o pão de ló foi da autoria do B11ro (Bilro, para quem não percebeu), que tinha vivido umas aventuras culinárias na cozinha do hotel. E garanto-vos: o bolo podia não ter grande aspecto, dados o seu tamanho minimalista e a sua forma irregular, mas o sabor era excelente, satisfazendo plenamente os meus desejos gustativos!

Claro que ao princípio toda a gente fazia troça, na brincadeira, do bolo do Bilro. Quando os ouvi dizer que se tratava de um produto da criatividade gastronómica do nosso mestre, duvidei e pedi confirmação ao João Morais, que ma deu prontamente. Fiquei surpreendido, mas pensei imediatamente que teria de provar a doce iguaria, a menos que os atletas lusitanos dessem cabo dele antes.

E as minhas suspeitas eram plenamente justificadas, pois entre jogadores e equipa técnica, todos ou quase todos os meus companheiros provaram um pouco do bolo, declarando-o delicioso, apesar das brincadeiras que todos cultivavam com humor. Não obstante, encontrei um pequeno fragmento de bolo no prato que outrora se encontrava cheio, do qual me servi intrepidamente, anunciando aos jogadores que também eu ia provar o pão de ló do Bilro!

E gostei, verdade seja dita, pois o sabor, suficientemente doce (embora o Zé Miguel tenha dito que precisava de mais açúcar), com aquilo que considero ser a essência do pão de ló (atendendo a que eu percebo muito pouco de bolos), era perfeito, dentro dos meus padrões. Ia felicitar o Bilro pela sua obra de arte (sim, porque cozinhar bem é uma arte), quando reparei que ele se levantara da mesa, enquanto o Alan me propunha que dissesse que não estava bom… Claro que não fiz isso, e acabei por conseguir felicitar o nosso número 11 pelo excelso trabalho na cozinha!

Continua no post seguinte.

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8 Respostas to “Um dia inesquecível com a selecção nacional no Mundialito 2010 (parte 1)”

  1. Ricardo Says:

    Mau mau mau mau… Podias ter dito que ias almoçar com eles que ia de viagem para aí XDDD 😉

    • Andrey Amabov Says:

      Eh pá, desculpa, não ter avisado. Foi uma falha tremenda da minha parte! Da próxima vez não me escapa! 😉

      Mas olha que viajar de Ponta Delgada para Portimão exige meios de transporte mais complexos do que um carrinho, meu amigo. Um aeroplano, por exemplo…

  2. Pedro Pereira Says:

    Excelente post. O convite que te fizeram é mais do que merecido, por todo o teu amor e dedicação à modalidade!

    • Andrey Amabov Says:

      Obrigado, Pedro! Foi um daqueles dias que por mais anos que vivamos nunca iremos esquecer. O pessoal foi fabuloso e proporcionou-me momentos extraordinariamente soberbos neste dia decisivo!

      Adorei a experiência, pela forma como a grande família da selecção nacional me acolheu e pelo espírito de grupo que demonstraram durante todo o tempo. Eu posso ser um bom adepto, contribuindo para a divulgação da modalidade e apoiando Portugal, mas esta este dia supera todas as eventuais honras que eu poderia desejar.

      Mais uma vez, obrigado pelo teu comentário, Pedro! É sempre reconfortante encontrar comentários em posts desta natureza!

  3. sage95 Says:

    Ora bem…

    Antes de mais… tiveste uma grande sorte em ter um momento com uma das melhores equipas de futebol de praia do mundo, que não é nada mais de menos que Portugal!
    Sublinho também que a sorte foi maior em teres um momento de convívio como um almoço.

    Quanto ao bolo do Bilro, ri-me… XD

    Já agora… como conseguiste o convite do seleccionador? o.o

    • Andrey Amabov Says:

      Penso que o Ricardo já te respondeu em relação à forma como obtive o convite. Conheço os membros da selecção nacional desde 2008 e costumo manter contacto com este grupo descomunal.

      Quando comuniquei ao nosso seleccionador, José Miguel Mateus, que ia a Portimão, tive uma resposta muito positiva da sua parte e, na sequência de uma troca de mensagens durante a viagem, apresentou-me o convite para ir fazer uma refeição com a equipa, à minha escolha. Depois de pensar um pouco, optei pelo almoço de Domingo, antes do jogo decisivo da competição frente ao Brasil.

      O resto já sabes! Foi de facto um final de manhã/início de tarde muito bem passado, na companhia de grandes amigos, que me receberam com a hospitalidade e o bom humor que lhes são característicos. Eles merecem o nosso apoio e fiquei muito contente por poder estar com eles antes de um momento tão importante.

      O episódio do bolo do Bilro foi sublime! Não tens noção da paródia que se gerou naquele momento em torno da sobremesa confeccionada pelo nosso amigo Luís, um talento oculto da culinária nacional. E o bolo estava mesmo bom, palavra!

      Sim, uma das melhores equipas de futebol de praia do mundo! E, para mim, como deves calcular, a melhor equipa de qualquer coisa do mundo!

  4. Ricardo Says:

    Sage95 .. chama se contactos 😉

  5. Ricardo Says:

    E viva este André 😉 … hehe


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