Saudades de Sousa… Torres… Zé Maria…


Nem sempre as coisas correm como nós gostaríamos. A vida está cheia de problemas e contrariedades que alteram o curso normal dos acontecimentos. Deixamos de ter controlo sobre as coisas, há factores exteriores que se sobrepõem aos nossos desejos, não temos condições para alcançar aquilo que desejaríamos e acabamos por ter de renunciar a projectos e sonhos que tínhamos vindo a alimentar desde tenra idade.

Tal é a situação do Pedro Sousa, do Bruno Torres e do José  Maria Fonseca, jogadores da selecção portuguesa de futebol de praia que, recentemente, tiveram de renunciar ao prazer de representar a nação nas renhidas batalhas travadas nas vastas areias do planeta.

Convidados a integrar os trabalhos da equipa orientada pelo grande José Miguel Mateus (Zé Miguel) em 2008, os três atletas demonstraram uma espectacular evolução ao longo do seu ano de estreia, assumindo-se como três das principais figuras da selecção no ano de 2009.  Em 2010, era esperada a permanência do Sousa, do Torres e do Zé Maria na selecção nacional, rumo à conquista de muitos títulos ao longo da temporada de Verão, sendo que até já tinham disputado a primeira competição do ano, a Spring Cup Viseu 2010. No entanto, as condições oferecidas pela federação portuguesa de futebol aos três jogadores não estava de acordo com as necessidades dos três jogadores, que acabaram por se ver obrigados a abandonar a selecção nacional, contra as suas ambições, por força da necessidade.

Inexistência de condições adequadas

A verdadeira causa desta saída precoce dos três jovens talentos da nossa selecção é bem conhecida do público em geral, ou, pelo menos, facilmente inferível: a reduzida preocupação da fpf com o desenvolvimento da modalidade do futebol de praia em Portugal, que se reflecte na inexistência de uma estrutura organizativa que assegure as necessidades financeiras dos atletas e transforme o futebol de praia numa modalidade profissional. Não precisamos de andar muito bem informados para saber que a fpf gasta quantias exorbitantes de dinheiro com pormenores fúteis da indústria do futebol, referentes aos escalões superiores masculinos, que em pouco ou nada melhoram a qualidade do espectáculo, enquanto as outras modalidades, no caso o futebol de praia, são desprezadas.

As verbas disponibilizadas pela fpf para o futebol de praia não satisfazem, de modo algum, os requisitos da modalidade, dada a inexistência de uma liga nacional competitiva, disputada durante uma parte significativa do ano, com clubes interessados dispostos a colaborar na remuneração dos jogadores. Enquanto estas condições não se verificarem, o panorama lusitano do futebol de praia permanecerá desfavorável, uma vez que o reconhecimento da federação se revela claramente insuficiente para sustentar as necessidades monetárias dos atletas, o que se entende se tivermos em conta que a representação do país se prende com uma questão de orgulho patriótico, e não com um desejo de vir a receber uma recompensa financeira.

Tenho sido confrontado com esta situação desde o momento em que me comecei a informar melhor acerca da realidade do futebol de praia em Portugal, mas cada vez percebo melhor as verdadeiras origens do problema e os seus efeitos práticos. Estas questões são constantemente objecto das minhas conversas com os responsáveis técnicos da selecção nacional, o treinador José Miguel Mateus e o Dr. João Morais (coordenador do futebol de praia da fpf), tendo também servido de tema a uma conversa que tive com o próprio Sousa, no dia 17 de Maio de 2009 (há precisamente 1 ano!), em que o número 5 português me expôs muito claramente a realidade nua e crua.

Modalidade amadora: necessidade de outros empregos

Como quaisquer outros cidadãos, os jogadores da selecção nacional de futebol de praia precisam de um emprego seguro que lhes confira uma certa estabilidade financeira, de forma a garantir uma boa qualidade de vida. Sendo o futebol de praia insuficiente para a maior parte dos jogadores, eles são forçados a procurar outros trabalhos, fazendo uso das suas abilitações literárias, das suas capacidades físicas e atléticas e das suas qualidades em outras áreas para alcançarem um nível de vida adequado.

Mesmo os jogadores mais conceituados, como o Madjer, o Alan ou o Belchior, são levados a procurar outras actividades além do futebol de praia, nomeadamente a integração em equipas de futsal e futebol de 11, por vezes não tanto pela vertente financeira da questão, mas mais até pela necessidade de manterem o ritmo competitivo ao longo dos meses. De resto, estes jogadores são geralmente convidados para integrar equipas de futebol de praia em competições brasileiras, o que de resto terá as suas vantagens económicas, além de representarem clubes italianos durante o Verão, onde acabam por ser relativamente bem pagos.

No entanto, os outros jogadores não têm essa sorte. E, mesmo no caso do Sousa, do Torres e do Zé Maria, que foram contratados por uma equipa italiana (Coil Lignano Sabbiadoro) pela qual jogaram em 2009, os rendimentos provenientes dessa experiência em areias transalpinas não eram suficientes para permitir o sustento monetário dos atletas. Isto significa que os três jogadores foram mesmo constrangidos a procurar outros empregos e fontes financeiras além do desporto da sua alma. Ora acontece que as carreiras profissionais absorviam grande parte do seu tempo, sendo que a conjugação entre a vida pessoal, o emprego, projectos pessoais e a paixão do futebol de praia era muito complicada e exigia grandes sacrifícios por parte dos atletas, que certamente se terão sujeitado a grandes esforços para poderem conciliar as várias vertentes da sua vida, em 2009.

2010: desafios na nova temporada

Em 2010, contemplando a articulação da sua vida profissional muito preenchida com o programa de treinos e outras condições proporcionadas pela selecção nacional, os três jogadores chegaram a uma conclusão triste, admitindo que não lhes seria possível continuar ao serviço da equipa das quinas. Uma decisão difícil de tomar, numa escolha consciente e ponderada que certamente terá sido a mais correcta, dado que só eles são capazes da perceber os seus limites enquanto seres humanos e avaliar as possibilidades existentes. Assim, por mais complicado que seja, eu e todos os adeptos de futebol de praia portugueses e mundiais devemos aceitar e respeitar esta resolução dos nossos grandes atletas, que tanto ajudaram a nossa selecção e que talvez um dia possam regressar à equipa de todos nós.

Vou ter saudades, admito. Mas não esquecerei as prestações tão positivas destes três jogadores na selecção nacional, ao longo destes últimos dois anos, pródigos em grandes conquistas e grandes jogos da equipa portuguesa. Sousa, Torres, Zé Maria, foi tanta a alegria que trouxeram ao futebol de praia português!

Para terminar quero dizer que tenho confiança na selecção nacional de futebol de praia e acho que vai conseguir superar lindamente estas adversidades rumo à conquista de grandes troféus no decurso da presente temporada. Tais glórias serão também os feitos destes três grandes atletas, Sousa, Torres e Zé Maria, que, não estando presentes fisicamente dentro de campo, serão sempre um exemplo de força, garra e determinação para os seus colegas lusitanos, acabando por participar sempre nas vitórias da nossa selecção. Força, Portugal! Vamos ganhar pelo Sousa, o Torres e o Zé Maria!

Sousa,

Torres,

Zé Maria,

Um grande abraço para os três,

Votos de felicidades em tudo na vida,

Obrigado por tudo o que fizeram pelo futebol de praia português!

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5 Respostas to “Saudades de Sousa… Torres… Zé Maria…”

  1. Pedro Martins Says:

    Caro Andre,
    Sou um leitor assíduo deste blogue e gosto muito do que tem escrito ao longo desta sua viagem na blogosfera.
    Porém, tanto por gostar da sua personalidade na escrita como por pura curiosidade, gostaria de ter acesso as postagens de conteúdo privado. Esteja à vontade se não ma quiser revelar.

    Cumprimentos,
    Pedro Martins

    pedro.martins.1991@gmail.com

  2. Ricardo Says:

    Como sou apoiante de futebol de praia (uma modalidade INCRÍVEL) eu acho que a fpf devia fazer algo naquilo em que finalmente PORTUGAL é bom, ou seja: o que quero dizer é que PORTUGAL só é bom no futebol de praia!

    Hoje vi o jogo entre Portugal e Itália e estes Italianos têm medo de perder e consequentemente houve porrada entre jogadores (Graça e Carotenuto). Portugal com Alan e Madjer deu cabo desses Italianos ganhando 10 – 7 !! 🙂

    Portanto fpf POR FAVOR façam algo por estes jogadores que adoram tanto jogar futebol de praia!!

    PS: FORÇA PORTUGAL, É PARA GANHAR AMANHÃ À RÚSSIA!!

    • Andrey Amabov Says:

      Caro Ricardo, quero agradecer imenso pelo teu comentário. Fiquei muito contente por saber do teu interesse pela modalidade e do teu fervor ao apoiar a nossa selecção. Inquestionavelmente, o futebol de praia é um desporto espectacular e a equipa nacional é verdadeiramente prodigiosa!

      Como deves ter percebido ao ler o post, fiquei muito triste com a saída do Sousa, do Torres e do Zé Maria da nossa selecção. São três grandes jogadores que já tinham assumido um papel muito importante na dinâmica da equipa.

      Concordo inteiramente contigo e acuso inclusivamente a fpf de sectarismo, isto é, de só dar atenção ao futebol de onze masculino, relegando para um segundo ou terceiro plano a componente feminina, o futsal e sobretudo o futebol de praia. Acredito, no entanto, que isto possa vir a mudar um dia, até porque temos pessoas competentes na federação, nomeadamente o doutor João Morais, responsável técnico pela selecção nacional, que acompanha sempre a equipa portuguesa para todo o lado e tem feito um excelente trabalho pelo futebol de praia no nosso país.

      Em relação ao jogo frente aos italianos, devo dizer que tencionava escrever sobre o assunto, se possível hoje mesmo. Mas visto que o referiste no comentário, abrimos já a discussão da questão: um grande jogo de futebol de praia, com muita luta de parte a parte, mas uma equipa portuguesa mais consistente e globalmente mais forte, que conseguiu resistir com sucesso ao extraordinário ímpeto italiano. Madjer foi grande, ao apontar 4 golos, tal como Alan, uma peça chave no jogo da selecção, mas temos de destacar também as boas prestações e os golos dos estreantes Marco e Jordan, que se estão a integrar muito bem no grupo!

      A reacção dos italianos já se esperava, porque eles são conflituosos por natureza, apesar de grande jogadores. Carotenuto expulso no último segundo, por culpa própria, escusadamente, e Giancarlo Magrini muito irritado ameaçando a equipa técnica da selecção nacional. Não gostei, mas às vezes faz parte. E os nossos jogadores não se deixam afectar por isso!

      Agora falta ganhar a final! Temos todas as condições para ganhar à Rússia! FORÇA PORTUGAL, eu acredito!

      Mais uma vez, muito obrigado pelo teu comentário! O meu blogue dá particular destaque ao futebol de praia, por isso, lê e comenta sempre que quiseres! A tua participação é sempre preciosa!

  3. Ricardo Says:

    Já coloquei até o site em favorito e tudo 🙂 Hoje é só ver futebol de praia… Todos os jogos!! Adorei ver o Jordan, que me parece melhor do que o Sousa e tudo!! Temos equipa para ganhar à Rússia, mas temos de ser EQUIPA!! Não podemos esquecer que é só Portugal que tem mais taças da Europa (não esta taça, mas globalmente!!). Força Portugal e também viva este site 🙂

  4. Andrey Amabov Says:

    Muito obrigado pelo teu comentário, Ricardo! Continuo a dizer que é muito moralizador ver todo o teu interesse na modalidade e no meu humilde blogue.

    Sim, hoje temos muito futebol de praia para ver durante a tarde! Agora mesmo estou a ver a França a vencer a Hungria por 6-3 … 6-4, desculpa (o Viktor Fekete da Hungria acabou de marcar um grande golo em remate acrobático). Ah! A Hungria marcou mais um! 6-5 com mais um belo golo do Fekete! Chegou ao terceiro golo no jogo e deixou o Cantona muito apreensivo! Vamos ter um grande final de jogo na luta pelo 7º lugar!

    E quanto ao assunto do Jordan, queria dizer que também gostei muito de o ver jogar, sobretudo no desafio frente aos italianos, mas que não o podemos comparar ao grande Pedro Sousa. Digo isto por muitas razões.

    Em primeiro lugar, tens de ver que o Sousa era um defesa, que ocupava a posição mais recuada no terreno, tendo funções predominantemente defensivas. Assim se explica que não marcasse muitos golos, apesar de por vezes surpreender, com excelentes remates que levavam a alguns golos de belo efeito! Defensivamente, cresceu a uma grande velocidade no decorrer do ano de 2008, e se, inicialmente, ainda cometia uma ou outra falha de vez em quando, no fim do ano estava feito um grande defesa, e foi um dos pilares da nossa selecção em 2009. Um grande jogador!

    O Jordan é ainda um jovem, com os seus 18 ou 19 anos, que se destacou no último campeonato nacional de futebol de praia, ao serviço da União de Leiria (representada pela equipa da Associação O Sótão, da Nazaré), que acabou mesmo por ser campeã.

    O Jordan foi chamado à nossa selecção pela primeira vez no ano passado, em meados de Julho, num pequeno estágio de preparação da equipa portuguesa, realizado na Nazaré. Posteriormente, já em Maio de 2010, integrou os trabalhos da selecção nacional, pertencendo ao grupo de 15 jogadores que treinaram para a Taça da Europa em Carcavelos e Portimão.

    Ele é um jogador com qualidade, tem um pé esquerdo magnífico e muita energia para dar à nossa selecção nos próximos anos! Se, no primeiro jogo, diante da Suíça pareceu um pouco nervoso e falhou algumas oportunidades de golo, contra a Itália já lidou melhor com as circunstâncias e fez uma grande exibição, com aquele remate fenomenal de muito longe que deu o nono golo a Portugal.

    Tenho grandes esperanças nele, mas ainda tem muito que aprender para vir a ser um grande jogador (e não duvido que ele vá conseguir). Mas não podes dizer que ele seja melhor do que o Sousa, porque isso não faz sentido nenhum, meu amigo 🙂

    Sim! Vamos vencer a Rússia! Jogando em equipa e com muita dedicação à nossa causa, tudo será possível! Força pessoal! Vamos conseguir 🙂


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