A beleza


Terminado o segundo período lectivo, em plenas Férias da Páscoa, eis o regresso de Andrey Amabov ao ser reduto na blogosfera. Devo admitir que já estava com umas certas saudades de casa. Lar doce lar!

Hoje venho falar de um tema diferente do habitual: a beleza. Sim, aquela ideia abstracta, tão misteriosa e incompreendida, que tanta discussão tem gerado ao longo da poeira dos séculos!

A beleza: um tema tão complexo e intrincado como fabuloso e intrigante

A beleza: um tema tão complexo e intrincado como inexplicavelmente fabuloso e intrigante

Mas afinal o que é isto de beleza? Que tipo de critérios nos permitem distinguir algo belo, sublime, de uma coisa feia e repugnante? Haverá um ideal de beleza universal? Estas e outras questões encontrarão resposta neste post ambicioso.

A beleza

Podemos entender a beleza como uma sensação de agrado profundo motivada pela percepção de certos objectos, experimentada por meio de um processo misterioso da mente humana, repleto de enigmas por desvendar.

Esta tentativa de definição de beleza, muito vaga e pouco concisa, admite a existência de limites no conhecimento que temos desta ideia e possibilita diferentes interpretações do conceito em si. Quer isto dizer que podemos considerar diversas formas de beleza, mediante o objecto sujeito a exame e as normas utilizadas no processo de apreciação.

Ciência e beleza: universalidade trivial

Podemos analisar o problema da beleza de uma forma científica, puramente racional, buscando um ideal absoluto de Belo com base em parâmetros objectivos. A investigação desenvolvida neste sentido tem de ser necessariamente alicerçada em cálculos numéricos, modelos matemáticos, que procurem determinar as proporções gerais do universo. Partindo das razões algébricas que regem a maioria dos objectos naturais, como é o caso da proporção áurea, será possível descobrir a ideia de beleza na sua mais perfeita essência: a beleza que permite alcançar a harmonia absoluta.

a proporção áurea, o número de ouro, a mais harmoniosa relação algébrica do universo

a proporção áurea, o número de ouro, a mais harmoniosa relação algébrica do universo

No entanto, esta concepção de beleza, assente na imutabilidade e universalidade do conceito, não apresenta qualquer tipo de valor sentimental. A aplicação da ciência ao domínio da beleza permite determinar as formas ideais de todas as coisas, tendo em conta a forma como o universo evoluiu e as normas dos objectos actuais, mas desprezando as impressões que os fenómenos produzem no observador. Se este tipo de beleza, sustentada apenas nas regras objectivas impostas pela matemática, não possui uma dimensão pessoal, então nunca ultrapassará um nível primário de preponderância na vida humana.

frequências das notas musicais da escala dodecafónica

frequências das notas da escala dodecafónica

Quando avaliamos certos objectos, existem sempre parâmetros mensuráveis que podem ser utilizados no estudo dos mesmos, de maneira a conseguir um conhecimento seguro dos fenómenos em questão. Este exame das características do objecto permite calcular a sua proximidade em relação ao modelo considerado ideal, determinando, assim, o seu grau de beleza. Por exemplo, uma dada relação numérica entre as frequências de dois sons corresponde a um certo intervalo musical, que poderá ser classificado como consonante ou dissonante. Estas designações são baseadas em factos reais, explicados através de cálculos matemáticos, não sendo susceptíveis de discussão. No entanto, justamente por não apresentarem uma componente sentimental individual, estão isentas de qualquer significado emocional.

Eternamente condenada à monotonia da superficialidade, num plano totalmente desprovido de emoções, a beleza científica é a maior farsa que podemos imaginar. Pode, contudo, ser aplicada ao comportamento animal, onde a escolha do parceiro sexual está, em grande medida, associada aos critérios objectivos impostos pela matemática do universo.

Subjectividade: a verdadeira beleza

Se um indivíduo for questionado acerca do valor de beleza de um determinado objecto, o inquirido nunca se poderá abstrair totalmente das suas próprias considerações sobre o fenómeno. Assim, a sua resposta, nada imparcial, terá em conta toda uma série de sentimentos, emoções, desejos e vivências pessoais, que trabalham os dados existentes acerca do objecto em questão, numa perspectiva muito subjectiva.

Deste modo, as relações matemáticas e critérios afins, embora estejam sempre presentes, definindo as características do fenómeno em análise, constituem apenas a matéria da beleza, submetida a uma transformação profunda e complexa por parte dos agentes referidos anteriormente, associados à personalidade do observador e à sua experiência de vida, que representam a forma da ideia de beleza.

Não faz sentido, por isso, discutir acerrimamente a beleza de um objecto, pois os seus contornos gerais são passíveis de produzir uma infinidade de interpretações sensíveis por parte das pessoas. Na verdade, não existem duas pessoas com uma ideia exactamente igual da beleza de um determinado fenómeno. Torna-se, portanto, muito fácil de perceber que a ideia de Belo é altamente subjectiva, estando dependente de uma série de factores humanos, cuja compreensão é deveras complicada, ou talvez mesmo impossível. O Homem é um ser complexo…

Como avaliar a beleza desta paisagem? Nada mais fácil. Basta seres tu mesmo, ouvires a tua consciência, deixares que as tuas emoções te guiem!

Como avaliar a beleza desta paisagem? Basta seres tu mesmo, ouvires a tua consciência, deixares que as tuas emoções te guiem num momento subjectivo.

Retomando o exemplo da consonância ou dissonância na música, a ideia de subjectividade ganha expressão de uma forma muito convincente. Sabemos que uma 4ª aumentada será sempre um intervalo dissonante, objectivamente desagradável, em qualquer parte do mundo, para qualquer pessoa, dada a relação entre as frequências dos dois sons. Contudo, não poderemos afirmar que a sonoridade do intervalo seja detestada por todos os habitantes do planeta. Certamente, muitas pessoas irão considerar horripilante a carência de harmonia da conjunção das duas notas, mas outras poderão apreciar a vincada dissonância presente no intervalo do diabo.

O intervalo, apesar da sua agressividade auditiva, é susceptível de trazer conforto ou desconforto, provocar atracção ou repulsão, a quem o experimente. Porquê? Ninguém o sabe ao certo. A única coisa que sabemos é que a beleza de um intervalo musical, ou de outra coisa qualquer, é algo extremamente subjectivo, exclusivo do indivíduo, conforme as sinuosidades do seu eu interior.

Sociedade e moldes culturais: beleza rotulada

Os valores estéticos são temporais, marcando as épocas da História da humanidade. Tais condicionantes socioculturais estão presentes em todos os aspectos da vida quotidiana.

Os valores estéticos são temporais, marcam as épocas socioculturais da humanidade. Tais condicionantes estão presentes em todos os aspectos da vida quotidiana. Na imagem, Maria Antonieta, rainha de França. Um reflexo dos estigmas sociais da beleza no seu tempo.

Até aqui, descrevi a beleza como uma experiência individual, um olhar subjectivo e pessoal lançado a tudo o que rodeia o indivíduo. Porém, a beleza apresenta também uma marcada vertente sociocultural, estando dependente das concepções colectivas impostas pela moral.

A ideia de Belo surge, portanto, associada a um conjunto de factores de cariz social, específicos de uma determinada comunidade, com os seus costumes, as suas crenças, os seus rituais, os seus princípios, a sua identidade cultural. A beleza, entendida como um fenómeno de massas, condicionada pelos moldes restritivos da sociedade, é variável no espaço e no tempo, sujeita a constantes reformulações, mutações inesperadas.

Tudo isto baseado no cerne da sociedade, naquilo que a comunidade tem de mais profundo, aquilo que a identifica como povo, que a distingue como civilização diferente das outras. Contudo, por maior que seja o conhecimento das diferentes culturas, nunca conseguiremos perceber qual a origem das diferentes idealizações do conceito de beleza. Isto é, por que razão o belo para uma comunidade se transforma em feio na óptica de outra comunidade, enquanto o belo para essa comunidade se converte em feio na perspectiva da primeira? Haverá algum motivo concreto?

A beleza não é igual para todos. Porquê?

O cérebro humano, o computador mais prodigioso que o universo alguma vez conheceu.

A causa das disparidades existentes entre diferentes concepções de beleza, apesar de desconhecida actualmente, acreditem, senhores, existe! Todavia, é altamente imprevisível e tão transcendente à compreensão humana que eu nem sei se algum dia a conseguiremos descobrir! Ninguém sabe, ao certo, de onde provêm as especificidades que compõem a nossa personalidade, os parâmetros pessoais que intervêm na formação da nossa ideia de beleza.

Claro que que se realizam estudos nestas áreas, tendo em vista a obtenção da verdade acerca dos mistérios da mente humana. No entanto, até ao momento, não tivemos sucesso. Que fazer?

Nada mais simples e mais maravilhoso: respeitar a enorme diversidade de concepções existentes e admirar a complexidade do mecanismo que o ser humano representa, numa perspectiva de tolerância e deslumbramento perante a vastidão do conceito de beleza. Constitui esta a atitude mais inteligente e mais frutuosa a tomar, aquela que nos permite viver de uma forma mais harmoniosa com o meio natural e humano que nos envolve, a melhor postura que podemos adoptar.

Pois não será este o raciocínio mais consistente, a ideia mais coerente, a filosofia mais elegante? Só assim poderemos abraçar uma vida mais bela! E este ideal de beleza, baseado na aceitação de diferentes concepções de beleza, este sim, é absoluto e universal!

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Uma resposta to “A beleza”

  1. Clodoaldo Braga Says:

    A beleza até hoje é rotulada nos critérios a ela dada


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