Mundial de Futebol de Praia: bianual???


A fraca assiduidade dos meus posts sobre futebol de praia merece contestação e assumo desde já toda a responsabilidade. Não publico um único artigo acerca desta minha grande paixão desde o dia 12 de Fevereiro, prova inequívoca da minha fuga ao dever, motivo de vergonha para um adepto tão fervoroso como eu.

Muitas coisas aconteceram no plano do futebol de praia internacional nestes primeiros meses de 2010, nomeadamente os primeiros torneios do novo ano, entre os quais a Copa Latina, a Copa México e jogos particulares da selecção brasileira. Foi também um período de grande actividade para as estruturas organizativas da modalidade a nível internacional, com a calendarização das principais competições da época que se avizinha, a definição dos palcos das grandes epopeias e o tratamento das burocracias do costume.

No entanto, verdade seja dita, ainda ninguém tem uma verdadeira ideia daquilo que vai ser a temporada de 2010, pois muitos torneios ainda não estão agendados e diversas questões permanecem sem resposta. A maior revelação, mais abrangente, referente aos 4 anos que se seguem, vai ter lugar em breve: as sedes dos Campeonatos do Mundo de Futebol de Praia da FIFA de 2011 e 2013.

O grande momento está reservado para a interessante cidade de Zurique, na Suíça, onde se encontra o núcleo material da associação futebolística internacional. Nos próximos dias 18 e 19 de Março, no Congresso do Comité Executivo da FIFA, será anunciada a escolha dos destinos das 16 selecções mais fortes do mundo, os cenários das lutas titânicas entre as nações, onde os valentes se degladiarão até ao último instante, guiados pela sede de conquista, pelo desejo de erguer o cálice dourado, pelo sonho de glorificar o país!

Candidaturas:

– África do Sul

– Argentina

– Azerbeijão

– Brasil

– Chile

– Costa Rica

– Holanda

– Itália

– Omã

– Polónia

– Rússia

– Suíça

– Tahiti

Mais tarde escreverei um post a anunciar os resultados, com um comentário pessoal (uma dissertação, mais provavelmente). Mas, por agora, aproveito para explicitar a grande alteração que aconteceu ao nível dos mundiais de futebol de praia e deixar o meu cunho individual bem vincado, com uma crítica bastante incisiva às mentes brilhantes que instituíram as alterações.

Alteração na periodicidade dos mundiais: NÃO!

Este ano vai ser diferente dos anteriores. Até 2009, o Campeonato do Mundo de Futebol de Praia, organizado pela FIFA desde 2005, era disputado anualmente, proporcionando aos amantes da modalidade em todo o mundo uma grande competição global por cada órbita da Terra em torno do Sol. No entanto, de acordo com aquilo que ficou decidido nos congressos da Federação Internacional de Futebol do ano passado, o evento passará a ser bianual, disputado todos os anos ímpares.

A FIFA justificou esta decisão com a necessidade de fomentar o crescimento da modalidade nos continentes onde ainda tem menos expressão, estimulando as confederações a tomar a iniciativa e reforçar as condições para a prática da modalidade nas respectivas regiões. Entendo esta medida, mas reprovo-a. Passo a explicar.

Deficiências organizativas do futebol de praia em 4 zonas continentais

Em primeiro lugar, reconheço o estado primitivo em que o futebol de praia se encontra em alguns continentes, não pela qualidade das equipas e a validade do seu trabalho, cujos frutos são indiscutíveis, mas pela falta de atenção que as confederações locais dão à modalidade e, consequentemente, a fraca aposta nesta variante do futebol. Nunca foram organizados verdadeiros campeonatos continentais nestas regiões do globo, salvo os torneios de qualificação para os mundiais, assegurados pelo trabalho da Beach Soccer Word Wide e pelo bom desempenho dos países anfitriões na organização dos eventos, mas com uma intervenção praticamente nula por parte das confederações. Refiro-me, naturalmente, aos torneios de qualificação:

– do continente africano, disputados em Durban, na África do Sul, desde 2006 (de sublinhar a boa organização destes eventos, lamentando-se a falta de cooperação por parte da CAF e a inexistência de alternativas viáveis a esta cidade marítima);

– da Ásia, que têm lugar no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, desde 2006 (em 2009, ano em que o Dubai acolheu o mundial, a inactividade da confederação asiática gerou uma situação simplesmente ridícula, com um progressivo adiamento do torneio de apuramento, ainda sem lugar definido, que acabou por culminar na sua inevitável realização no Dubai, duas semanas antes do início da competição, sem a equipa da casa, qualificada automaticamente);

– da zona da CONCACAF, realizados no México a partir de 2007 (em Acapulco em 2007 e em Puerto Vallarta a partir de 2008);

– da Oceânia, não incluindo a Austrália, onde insignificantes competições de apuramento são organizadas em cima do joelho, num estádio miserável, por vezes com vários jogos da mesma equipa no mesmo dia (como aconteceu em 2007), e sem sequer ter chegado a haver torneio em 2008 (as Ilhas Salomão participaram no mundial como equipa convidada, dada a sua qualificação para edições anteriores).

Qual a solução? Mundial de 2 em 2 anos?

Todavia, não percebo como é que a transformação do campeonato do mundo numa competição mundial pode contribuir para uma maior aposta no futebol de praia por parte das confederações. Como é que a FIFA e a Beach Soccer World Wide podem esperar que a diminuição da frequência do evento mais importante da modalidade dê uma maior projecção ao futebol de praia em continentes onde as associações desportivas se estão literalmente a borrifar para o assunto?

Segundo os defensores desta teoria, o maior espaçamento da competições dará mais tempo às confederações locais para desenvolverem a modalidade nos vários países e criarem verdadeiros campeonatos continentais, separados dos torneios de apuramento, sob a vigilância da Beach Soccer World Wide, mas tomando, elas próprias, a iniciativa. Assim, passariam a existir torneios anuais de futebol de praia nos vários continentes para apurar os respectivos campeões regionais, independentemente da qualificação para o mundial, tal como acontece com as antigas Liga Europeia e Taça da Europa, no velho continente, e a Copa Latina (agora transformada em Copa América Latina), na América do Sul.

Tornar os mundiais bianuais não resolve o problema porque…

A refutação deste argumento é simples e muito directa: dado que o entrave ao desenvolvimento do futebol de praia é a inércia das confederações e a falta de vontade para investir numa modalidade diferente, ao prolongarmos o intervalo entre duas edições do campeonato do mundo estamos apenas a alimentar essa preguiça em vez de a combatermos. Estaremos a permitir que as competições continentais, continuando resumidas aos torneios de qualificação para o mundial, passem a ter lugar uma vez em cada dois anos, e não anualmente, como se pretenderia que acontecesse.

Um outro facto vem confirmar aquilo que eu estou a defender: as competições de apuramento em todo o mundo para o mundial 2011, segundo sei, estão previstas para 2010 e não para o próximo ano. Isto significa que, na prática, este ano vai ser exactamente igual aos anteriores, com a única diferença de que não haverá campeonato do mundo, e as confederações, perfeitamente tranquilas por saberem que a organização dos eventos está assegurada pela Beach Soccer World Wide e pela FIFA, não vão tomar nenhuma atitude empreendedora. Para além disso, não haverá um verdadeiro confronto entre as selecções de diferentes continentes, que permita uma troca de impressões profícua, tendo em vista um crescimento conjunto das equipas na modalidade e o enriquecimento do próprio futebol de praia.

Em 2011, aproveitando o entusiasmo geral motivado pelas enormes expectativas em relação ao mundial (finalmente!), não estarão, decerto, muito preocupadas com a organização de torneios continentais, pois todas as equipas já estarão apuradas e, a curto prazo, não vai haver necessidade de tal competição. E assim, as selecções que não se apurarem para o mundial vão mergulhar numa grande estagnação, perdendo o comboio do futebol de praia, voltando a agravar o fosso entre as grandes equipas e os underdogs que tinha vindo a ser atenuado nos últimos anos. Fundamentalmente, esta mudança representa um grave retrocesso na História do futebol de praia.

Limitações monetárias: o verdadeiro entrave

Claro que a FIFA e a BSWW têm perfeito conhecimento de tudo aquilo que eu digo anteriormente. No meu ponto de vista, a razão que motivou esta súbita alteração das normas do futebol de praia foi a questão financeira.

O mundial de futebol de praia era a única competição anual da FIFA, exceptuando o mundial de clubes, absolutamente imprescindível no panorama actual do futebol de 11. Em 2009, a competição foi realizada, como já referi, no Dubai, o mais rico e luxuoso dos 7 emirados (apesar da crise recente), onde tudo tem um preço colossal e apenas os mais abençoados pelo dinheiro podem passar o seu tempo. Não é difícil imaginar as fortunas que a FIFA teve de gastar para pagar o alojamento, refeições e transporte dos atletas e equipas técnicas das 16 selecções participantes, bem como os árbitros. O evento foi disputado em dois estádios, sendo o principal uma verdadeira caixinha de surpresas, que, certamente, não foram nada baratas e podem ser descobertas aqui.

Decerto nada satisfeitos com os encargos financeiros do futebol de praia, que, apesar de insignificantes quando comparados com as despesas descomunais envolvidas no futebol de 11, não se aceitam porque “o futebol de praia é uma modalidade menor”. Assim se justifica esta triste resolução do maior órgão de controlo do futebol a nível global, que eu admiro e respeito, mas cuja atitude em relação à periodicidade do campeonato do mundo de futebol de praia considero deplorável e susceptível de uma revisão detalhada (que já não vai acontecer).

A minha reacção

Enfim, que fazer? Como fã incondicional do futebol de praia fico desiludido com a perspectiva de só assistir a um mundial de futebol de praia de dois em dois anos, e mantenho-me firme na minha crítica à decisão. Porém, com maior ou menos periodicidade, todas as competições continuarão a ser disputadas e eu terei sempre a oportunidade de acompanhar o meu desporto favorito. Uma vez que as regras mudaram, é com elas que temos de jogar, e a minha paixão pelo futebol de praia não vai diminuir em nada por esta alteração (obviamente que não!). Assim, resta-me continuar na linha em que me encontro, seguindo atentamente a modalidade e aguardando, ansiosamente, mas com paciência, as próximas epopeias, o despontar de novos raios de luz.

E, nestes próximos dois anos, um raio será mais intenso do que os restantes, separar-se-á do feixe luminoso em que se encontra e voará mais alto, rumo à glória divina, imortalizando o nome, materializando o sonho. Esse raio é Portugal…

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3 Respostas to “Mundial de Futebol de Praia: bianual???”

  1. LVSITANO Says:

    Compreendo plenamente a tua angústia. Ver o teu desporto preferido, que já não é muito badalado, reduzido a campeonatos bianuais não deve ser muito fácil de aceitar.

    Não há mais nada a dizer, uma vez que o teu completíssimo post toca em todos os assuntos: a notícia, explicação da notícia, inferência sobre a raiz do problema.

    Claro está que pagar aos oficiais de linha de baliza nas competições europeias de futebol de 11 é uma prioridade relativamente à promoção do futebol de praia…

    • Andrey Amabov Says:

      Obrigado pelo teu comentário, Marco! De facto, fiquei muito triste quando soube da mudança de periodicidade dos mundiais de futebol de praia, mas a vida é mesmo assim. Em todo o caso, a notícia chegou mais cedo, em meados de 2009, antes de ter o privilégio de te conhecer.

      A qualidade do post não tem outra origem além da minha grande paixão pelo futebol de praia e a minha profunda indignação pela alteração das regras. No entanto, não guardo remorsos e este artigo teve o poder de me libertar de quaisquer eventuais vestígios dessas energias negativas contra os órgãos desportivos internacionais.

      Sim, o futebol de praia qualquer dia passa a ter menos visibilidade do que o street football. Mas também não nos podemos queixar, porque o crescimento da modalidade tem sido enorme nos últimos anos, graças ao esforço de jogadores, treinadores e dirigentes locais em todas as partes do mundo.

      É um prazer falar de futebol de praia contigo! Não esperava obter um feedback tão interessante da tua parte!

  2. Brasil vence Selecção Mundial (6-2) a fechar o ano de 2010 « BEACH SOCCER RESTELO Says:

    […] 2010 foi um ano diferente no panorama do futebol de praia internacional. Pela primeira vez, 12 meses decorreram sem que nenhuma edição do Campeonato do Mundo de Futebol de Praia da FIFA fosse disputada, dado que o torneio se transformou numa competição bianual. Esta situação gerou alguma falta de dinamismo por parte da BSWW e das confederações de cada continente, conforme previ aqui. […]


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