O que se passou foi isto:


Hoje gostaria de falar um pouco do novo programa de humor da RTP 1 intitulado “O que se passou foi isto”. Tem emissão assegurada todas as quartas-feiras, em horário nobre, com uma duração de aproximadamente meia hora. Embora se trate de um projecto de menor projecção do que o “Gato Fedorento” ou “Os Contemporâneos”, a série até está relativamente bem conseguida e apresenta os requisitos mínimos para ser considerada um programa de qualidade.

Além disso, enquadrando-se num período em que a estação pública entrou numa certa estagnação em termos de humor, esta iniciativa é louvável e proporciona aos espectadores preciosos momentos de riso e descontracção a meio das semanas preenchidas dos trabalhadores portugueses.

Mas o que é que se passou afinal?

A ideia do programa é bastante simples. A acção desenvolve-se no Ludgero’s Café, um estabelecimento de restauração lisboeta que não ultrapassa os níveis de mediocridade de uma reles tasca de bairro. Frequentado por um número extremamente reduzido de clientes, que ainda não estão familiarizados com a realidade da casa, o café acaba por constituir o inevitável ponto de encontro entre as três personagens da série: o senhor Ludgero, proprietário do estabelecimento, interpretado pelo sempre cómico Manuel Marques, o Fábio, jovem de vinte e poucos anos que trabalha na pizaria gay/lésbica, representado pelo talentoso imitador Luís de Franco Bastos, e a menina Sónia, escritora frustrada e dona de um quiosque de bairro, encarnada pela actriz Carla Salgueiro.

Funcionando como uma espécie de tipos etários e profissionais, as três personagens representam o típico hábito português de cochichar acerca de tudo o que acontece na esfera pública e constitui notícia nos tão manipuladores meios de comunicação social. Independentemente do assunto em discussão, as personagens têm sempre qualquer opinião fabricada para expor perante os seus companheiros da café, explanando o seu (pseudo-)conhecimento ilimitado.

Romancear satiricamente os casos pitorescos da realidade

Surpreendentemente ou não, as personagens encontram sempre um modo qualquer de demonstrar as suas relações com personalidades públicas, directa ou indirectamente, recorrendo quase sempre a duvidosos testemunhos que criticam amigos ou familiares afastados. Conversas da treta e cenas de café são então substituídas por divertidos sketches que cos acontecimentos que vão constituindo a realidade noticiosa e marcam de forma decisiva a semana correspondente ao programa.

As exuberantes qualidades de reprodução de voz de figuras públicas de Luís Franco Bastos formam uma aliança sólida com o humorismo saudável e inteligente de Manuel Marques, temperados com uma pitada de expressão dramática (teatral) pela experiente Carla Salgueiro, resultando deliciosas peças de sátira política, social e desportiva às quais nenhuma personalidade consegue escapar.

O Primeiro-Ministro José Sócrates lidera com larga vantagem a classificação das participações no programa, ao ser retratado em praticamente todos os episódios. No entanto, o Presidente Cavaco Silva, o professor Marcelo Rebelo de Sousa e Cristiano Ronaldo são também presença assídua nestes momentos jocosos de gozo e especulação humorística, onde a ficção e a realidade se reúnem num domínio comum, separadas por uma linha muito ténue que mal as distingue.

Um excelente exemplo das prodigiosas qualidades de imitação de voz de Luís Franco Bastos são os sketches que abordam a temática das escutas telefónicas, dos quais deixo um vídeo espectacular:

No Ludgero’s Café

Para lá da dimensão mais global da questão, existe também uma tentativa concreta de recriar o ambiente vivido nos bares e tascas da capital portuguesa, numa rica crónica de costumes, imbuída de um humorismo fenomenal, umas vezes de uma forma mais directa, com piadas simples e quase universais, outras vezes recorrendo a meios mais subtis, criando um contexto que possibilita a identificação dos vícios das personagens, de uma forma divertida e bem disposta.

O senhor Ludgero, marcado pela sua falta de instrução e extraordinária idiotice, destaca-se pela sua ignorância formidável, bem como a sua tremenda ingenuidade e propensão para obsessões extremas. Ao considerar a sua pessoa como a entidade mais culta do universo, detentor de um conhecimento abrangente em todas as áreas, ao mesmo tempo que desvaloriza as capacidades das outras personagens, sobretudo de Fábio, Ludgero acaba por dar provas da sua estupidez sem precedentes e das suas ideias manifestamente retrógradas e desproporcionadas à realidade actual. Como se não bastasse, revela-se um péssimo negociante, ao expulsar constantemente os seus clientes do café por razões totalmente desprovidas de fundamento lógico. 5 estrelas para Manuel Marques!

O Fábio, jovem afável e atento às necessidades alheias, demonstra uma grande afeição em relação a Ludgero, ajudando frequentemente nas tarefas do café. Fábio é significativamente inteligente e sensato, mas a sua personalidade débil e inocente faz dele um alvo fácil aos insultos de Ludgero e às críticas e acusações que lhe são dirigidas pelo mesmo. Fábio sente-se dominado por uma paixão secreta pela menina Sónia, tentando a todo o custo captar a sua atenção, de maneira a criar uma maior proximidade entre eles.

Infelizmente, Sónia, bastante mais velha, com um extenso historial de frustrações amorosas no passado, não parece reparar no evidente interesse que a sua beleza subtil desperta em Fábio, ignorando completamente os seus sentimentos românticos. A menina Sónia vê o simpático rapaz como um miúdo que ainda gosta de carros e pokemons, desvalorizando constantemente a sua maturidade emocional. Embora manifeste uma sincera admiração por Fábio, esta resume-se a uma perspectiva de amizade maternal, bem explícita na repetida utilização da palavra “querido” quando se lhe dirige.

Em cada episódio, os acontecimentos no café centram-se em torno de um determinado tema, que pode variar desde as escutas telefónicas e criminalidade vs terrorismo até às comemorações de Natal e Ano Novo. Para além disso, as visitas fatais de Celestino, o cliente “preto” (uso a palavra sem qualquer tipo de discriminação) constantemente desrespeitado por Ludgero (aliás como todos os outros) e que promete sempre “nunca mais lá voltar”, quebrando inevitavelmente a sua promessa no episódio da semana seguinte.

Ídolos na Política Portuguesa

Sugiro vivamente a visualização do seguinte vídeo do programa. Trata-se de uma combinação de dois fenómenos assaz curiosos intrínsecos da república portuguesa e suas particularidades: a política nacional bipolar e a obsessão generalizadas pelo já doentio concurso televisivo “Ídolos” (peço desculpa se estiver a ferir susceptibilidades). Simplesmente observem.

Já sabem que podem desfrutar destes soberbos instantes de boa disposição institucional todas as quartas-feiras, por volta das 21:30. O site da RTP inclui uma colectânea dos vídeos de todos os episódios emitidos até ao momento, que pode ser explorada aqui.

Nota: no meu ponto de vista, a ideia que orienta todo este projecto é realmente espectacular e a série tem aspectos muito bem conseguidos. No entanto, ainda se observa uma certa irregularidade na qualidade dos sketches. Aquilo que continua a faltar um pouco a este grupo tão original é um maior cuidado no ritmo das piadas, que têm de estar organizadas numa cronologia muito bem pensada, de modo a possibilitar o efeito desejado na plateia. De qualquer forma, continuo a afirmar que a série tem imensa graça e, mesmo quando não tem a arte nos arrancar uma ruidosa gargalhada, consegue sempre, pelo menos, desenhar esplêndidos sorrisos nas caras das pessoas.

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2 Respostas to “O que se passou foi isto:”

  1. Marquinho Says:

    Este artigo cativaria qualquer pessoa no sentido de experimentar o programa. Está muito completo e com espectaculares descrições, que vêm muito bem enquadradas no estilo de escrita a que nos vens habituando.

    Já vi uns 10 minutos deste programa e, para ser sincero, não fiquei muito entusiasmado. Além disso, não vejo mais televisão (no geral) porque até tenho medo de a ligar. É um veículo de distracção que me retira a atenção daquilo que realmente importa… Só costumo ver aos fins-de-semana e é só para absorver os excelentes documentários transmitidos pela RTP 2 e para dar uma espreitadela no Top+ (RTP1) e nos filmes.

    No entanto, felicito-te pelo post e espero que a série continue a ser produzida, quanto mais não seja para te proporcionar “soberbos instantes de boa disposição”. 🙂

    • Andrey Amabov Says:

      Obrigado pelo teu comentário, Marco. Fico satisfeito por saber que achaste o post cativante, mesmo sem te interessares minimamente pelo objecto que constitui o cerne do artigo. Procurei ser fiel à realidade em todas as descrições, embora tenha manifestado sempre a minha opinião pessoal, em passagens mais adjectivadas onde a minha veia de admirador ficou bem patente.

      Percebo perfeitamente que não tenhas gostado da série. Não é um programa de carácter universal, pois não tem o poder de agradar a toda a gente. Eu próprio admito que apresenta algumas lacunas e vários problemas dispensáveis, nomeadamente a falta de ritmo e a excessiva ambição de certas peças humorísticas.

      Alguns skeches são um pouco aborrecidos e não têm muita graça. No entanto, outros estão bastante bem conseguidos e já me conseguiram arrancar umas valentes gargalhadas! É como te digo, tem momentos bons e momentos maus. Possivelmente, terás assistido a um episódio mais chato. Mas é mesmo assim: não se pode agradar a Gregos e Troianos.

      Relativamente aos teus deploráveis hábitos televisivos, acho mesmo que devias reduzir o tempo que despendes em torno desse ecrã desprezível. Que coisa horrível! Todos os fins de semana!!!

      Estou naturalmente a brincar, e aprovo este teu comportamento face ao ambiente de consumismo televisivo que se vive hoje em dia. Honestamente, também não costumo passar muito tempo diante desta caixa absorvente da alma humana. O que se passou foi isto, Conta-me como foi, competições desportivas, noticiários generalistas e uma ou outra série da FOX acabam por ser a base desta minha experiência televisiva. Às vezes gostaria de assistir a mais documentários. De vez em quando, apanho um ou outro, mas continua a ser insuficiente para mim.

      Podes crer, vou continuar a assistir à série. Pode não ter a força do Gato Fedorento ou d’ Os Contemporâneos, mas serve perfeitamente para alegrar as noites de quarta-feira e relaxar um pouco após o stress dos três primeiros dias da semana.


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