Jogar às Escondidas na Aula de Educação Física


Hoje gostaria de contar uma história engraçada que sucedeu na última aula de educação física. Ao mesmo tempo vou deixar algumas opiniões pessoais sobre a ocorrência e usá-la como ponto de partida para analisar duas questões importantes: a expressão das criança que há em nós e a dinâmica de grupo que caracteriza a minha turma.

Dia: Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010. Hora: 17:00.

A turma concentrava-se nas proximidades da área desportiva da escola, aguardando a chegada da professora de educação física. Nas três primeiras semanas de Janeiro, as aulas da nossa turma decorrem na piscina municipal, possibilitando a integração da natação no conjunto de modalidades leccionadas.

Assim, após um breve período de diálogo entre a professora e os alunos, bem como a apresentação de um pequeno trabalho de alguns alunos sobre os estilos crawl e costas, subimos as escadas que conduzem ao recinto da piscina municipal e entrámos no respectivo edifício.

Vista Interior da Piscina Municipal do Restelo

Naturalmente, tencionávamos entrar na zona dos balneários a fim de nos prepararmos para a aula. No entanto, os membros da recepção não nos abriam a cancela. Intrigados, fomos espreitar a piscina através do vidro, e qual não foi o nosso espanto quando verificámos que todas as pistas estavam ocupadas. A professora, que fora questionar os funcionários da piscina, confirmou esta informação e tivemos de abandonar o calor da piscina, regressando ao muito agreste ar invernal.

De volta à escola, alguns colegas tentavam convencer a professora a autorizar uma partida de futsal no relvado sintético. No entanto, como nenhum de nós tinha trazido o equipamento necessário à prática desta modalidade, não obtivemos permissão. Debalde se utilizaram os argumentos mais imaginativos, a mensagem da professora era clara: de calças de ganga (a indumentária de todos os rapazes da turma) NÃO!

Enquanto decorriam as últimas negociações, ainda tive tempo para participar em dois mini jogos de matraquilhos, cujo resultado é anódino. Por fim, a professora declarou que ia tentar encontrar uma sala de modo a existir uma aula teórica. Foi quando se dirigiu ao compartimento do pavilhão dos balneários reservado aos professores, para telefonar às funcionárias dos outros pavilhões, que surgiu a ideia para a iniciativa estudantil (ou devo dizer infantil) que eu vos vou contar.

Jogar às Escondidas

Dois elementos da turma, aventureiros e criativos, sugeriram que seria engraçado se nos escondêssemos da professora atrás do pavilhão. Ao princípio, ninguém ligou muito. Vimos aquilo como uma iniciativa sem futuro, uma simples brincadeira de crianças que não levaria a lado nenhum.

Contudo, o projecto teve cada vez uma maior afluência. O grupo de foragidos foi aumentando exponencialmente, até a velocidade de adesão ser estonteante! Ninguém pensou duas vezes: impelidos pela nossa componente infantil, corremos todos para trás do pavilhão e chamámos todos os nossos colegas que ainda não estavam “protegidos”. E assim começou a nossa pequena viagem ao passado.

Um pequeno grupo de alunos manteve-se de vigia: encostados à parede, posicionados estrategicamente na esquina do pavilhão, perscrutavam com o olhar a zona perigosa, onde a qualquer momento podia surgir o inimigo. Os outros continuavam escondidos mais atrás. Sempre que a professora surgia no local vigiado, os guardas alertavam o resto das hostes (embora neste caso se tratasse mais propriamente de uma horda) e era a debandada geral. Contornávamos a esquina seguinte e ficávamos escondidos atrás da outra parede do pavilhão. As sentinelas reocupavam o seu posto e tudo voltava ao início.

Vista Aérea do Pavilhão dos Balneários

Porém, o pavilhão só tem quatro paredes, além de ser bastante pequeno, pelo que a nossa fuga à aula teórica não podia durar muito. A professora rapidamente descobriu o que se estava a passar e conseguiu capturar a turma sem grandes dificuldades. Às tantas já não sabíamos de onde vinha a professora e para que lado devíamos fugir! E, se acrescentarmos a tudo isto a conspicuidade das sentinelas e os ruídos das nossas gargalhadas, o nosso insucesso é fácil de compreender.

Quanto durou este jogo das escondidas? Certamente não foi mais de 1 minuto. Mas que importa? Foi uma experiência única, um regresso aos nossos tempos de infância, a libertação das crianças que todos conservamos dentro de nós!

No final ninguém conseguiu escapar à sala de estudos. Felizmente, não houve aula teórica: em vez disso, ficámos a entretidos com jogos de tabuleiro ou com a Internet.

No 11º ano? Onde é que isto já se viu!

Provavelmente, o leitor estará a pensar que este tipo de comportamento não se deveria verificar numa turma de 11º ano. Não posso deixar de concordar. Não se esperar que jovens de 16 a 17 anos andem a brincar às escondidas com a professora para fugir a uma aula.

No entanto, gostaria de dirigir uma pequena pergunta ao leitor: por acaso nunca sentiu uma vaga saudade dos seus tempos de criança? Sejamos sinceros: todos os seres humanos já experimentaram mais do uma vez uma profunda sensação de nostalgia enquanto relembravam a infância.

As nossas recordações dos tempos em que éramos crianças ficam conservadas em latência na nossa memória e podem manifestar-se a qualquer momento, criando em nós um desejo que recuar ao passado, de reviver os nossos tempos de crianças. Doces tempos aqueles em que vivíamos sem preocupações, na ingenuidade de quem pinta em tons de magia a realidade cinzenta da vida, usando a paleta da imaginação…

Crianças felizes no seu mundo de cor e fantasia

Talvez não possamos regressar fisicamente ao passado, revertendo o processo de crescimento para voltarmos a ser crianças. Todavia, podemos sempre recorrer à experiência mental, dando expressão ao nosso lado infantil através das nossas acções, em pequenos intervalos da nossa vida agitada e preenchida de adolescentes citadinos. Estes momentos, além de nos proporcionarem instantes de prazer e uma alegria sem limites, permitem a libertação da criança que há em nós, em vez de gastarmos energias futilmente na tentativa de a aprisionarmos algures no nosso cérebro, enquanto este desejo tão básico permanece por satisfazer. Assim, momentos como o de ontem contribuem sem dúvida alguma para a felicidade das pessoas. São mesmo indispensáveis para atingir um estado de felicidade completo!

A professora, embora tenha tentado manter a postura severa e rígida face a infantilidades no 11º ano, compreendeu que a brincadeira era inocente e não ficou nada aborrecida connosco. No meu ponto de vista, até achou alguma graça… Felizmente ainda há pessoas com humor!

Haverá turma mais unida?

Este jogo das escondidas foi sem dúvida um momento inesquecível de união, cooperação e diversão! A enorme entreajuda presente nesta iniciativa colectiva e o facto de ninguém se ter abstido desta brincadeira diz muito sobre o nosso espírito de turma.

Não há inimizades dentro da nossa turma. Claro que podem haver desentendimentos, zangas, querelas, mas tudo isso não passam de coisas passageiras. Somos todos amigos, atentos às necessidades alheias, gostamos de ajudar e de passar bons momentos juntos. Isso é o mais importante numa turma enquanto conjunto de seres humanos juntados pelo destino rumo a um fim comum.

Para além das relações de trabalho, que são importantes para o bom funcionamento da turma, é fundamental a existência de relações de amizade, de momentos de convívio, de uma boa disposição dominante! Tudo isto está presente na nossa turma. Esta excelente dinâmica de grupo confere ao 11º B da Escola Secundária do Restelo uma força e um poder impressionantes!

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2 Respostas to “Jogar às Escondidas na Aula de Educação Física”

  1. Marquinho Says:

    Sinto-me extremamente feliz por ter sido o primeiro a aderir à brincadeira! (j/k)

    A posta está excelente, um nível de qualidade ao qual desde cedo nos habituaste e que dá indícios de melhorias sucessivas. Relataste o acontecimento na íntegra e brilhaste nas descrições e reacções. A professora estava a tentar manter-se séria, mas ela própria achou piada à gracinha.

    Como bem disseste, a iniciativa infantil de todos nós é extremamente importante. Não viver bem a infância leva a uma idade adulta desconfortável e tendencialmente mais irresponsável, enquanto que uma infância completa gera, mais tarde, momentos de saudade e nostalgia de tempos bem passados.

    A melhor parte da posta é…

    “As nossas recordações dos tempos em que éramos crianças ficam conservadas em latência na nossa memória e podem manifestar-se a qualquer momento, criando em nós um desejo que recuar ao passado, de reviver os nossos tempos de crianças. Doces tempos aqueles em que vivíamos sem preocupações, na ingenuidade de quem pinta em tons de magia a realidade cinzenta da vida, usando a paleta da imaginação…”

    Acho que esta poética prosa ficou brilhante!

    Abraço, Marco.

    • Andrey Amabov Says:

      Muito obrigado pelo teu comentário moralizador! Eu próprio gostei do resultado final deste post porque consegui fazer a ligação entre um acontecimento sem importância da vida escolar com uma assunto pertinente de cariz filosófico. Para além disso, escrevi num estilo que me agrada.

      Sim, essa passagem é de longe a melhor parte do post. Eu também tenho o meu lado poético…


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